sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A História da Erê Joaninha das Almas

             



    No alto do Monte de Congo,
uma criança vi nascer,
trouxe amor e paz para o quilombo,
e espalhou a fé a nosso viver.

    As rezas aprendeu com seu vovô mestre,
benzeduras ela já sabia fazer,
as ervas buscava no horizonte campestre,
e curas já fazia bastava na menina crer.

    Seus olhos brilhavam como a Lua cheia,
quando sua fé expandia como a luz,
meiga e caridosa com a vida alheia,
rezava com fé ao Menino Jesus.

    Sua vida sempre foi para ajudar,
a todos ela levava o amor e a calma,
seus irmãos nunca deixou de amar,
é a pequena Erê, a linda Joaninha das Almas.

    Joaninha das Almas é uma Erê, trabalhadora pela e para a caridade na
irradiação das Ibeijadas na Umbanda. Ela sempre é muito sensata e serena
assim como seu mestre e avô consanguíneo, também Entidade de Luz, Vovô
Rei Congo.

    Joaninha das Almas teve sua vida encarnada no século XVII, e já
nasceu dentro do Quilombo do Congo, onde aprendeu com seu avô e todos os
irmãos negros, que a liberdade deveria ser um direito de todos, e não
deveria existir a escravidão, que graças a luz de Oxalá, a pequena
Joaninha não conheceu, assim como seu avô, seus pais, e muitos irmãos
negros.

    Joaninha era filha do negro Mujongo, que era filho do fundador do
Quilombo do Congo, o nosso amado Rei Congo, e desde cedo aprendeu que se
deve fazer o bem a seus semelhantes, e sendo assim ela buscava toda a
aprendizagem com os mais velhos do Quilombo para assim poder sanar as
dores, os males, as angústias, os sofrimentos de todos, assim como fazia
seu avô que ela tinha tanto orgulho.

    Joaninha foi batizada com o nome de Juanina do Congo, porém ao
passar do tempo muitas pessoas a chamavam de Joaninha, e assim ela se
acostumou, e por algumas vezes até se esquecia de seu verdadeiro nome.

    Ela ficava eufórica quando seu avô saia em busca da liberdade de
seus irmãos negros escravizados, e quando ele chegava com mais moradores
para o Quilombo ela fazia questão de ser a primeira a recepcioná-los, e
assim na entrada do Quilombo, lá estava ela, com um largo sorriso
branco, olhos brilhantes, e alimentos para todos.
    E com essa recepção ela ia conquistando corações e a simpatia de
todos.

    Joaninha era afoita, ansiosa, queria libertar mais negros
juntamente com seu avô, mas na época, a pequena menina com apenas
cinco anos de idade, não poderia ingressar nessa árdua missão, e o
velho protetor lhe dizia que ela deveria apenas rezar para que tudo
corresse bem, sem que os coronéis da época não os capturassem e não
encontrassem o caminho do Quilombo.

    E assim fazia a pequena menina, quando os negros que lutavam pela
liberdade de seus irmãos saiam juntamente com seu avô Rei Congo, ela
ficava de joelhos olhando fixamente para o céu, clamando a Oxalá que
enviasse seus Anjos e Orixás para protegerem sua gente, e que todos
retornassem bem ao Quilombo trazendo novos amigos libertos.

    Esses gestos eram acompanhados por todos, e assim a menina virou o
símbolo da luta e da fé entre os negros do Quilombo.

    Certo dia, com a ansiedade em alta, a menina já com seus seis
anos, resolveu que queria conhecer mais coisas pela redondeza, e claro
que para isso deveria sair da proteção do Quilombo, e assim ela fez.

    Em uma tarde na qual os negros estavam ocupados com seus afazeres
do dia a dia, a menina veste seu vestidinho todo enfeitado com fitas
coloridas, e sorrateiramente sai escondidinha, e desce o "Monte dos
Perdidos", nome dado a montanha onde se encontrava o Quilombo de
Congo. E como se estivesse extasiada com sua aventura ela começa a
explorar cada caminho, dos centenas existentes. Esses caminhos eram
caminhos sem saída, por muitas vezes a quem se perdiam neles só
retornava na entrada do monte, ou na entrada do Quilombo com a ajuda
de alguns negros guerreiros de Rei Congo, caso contrário jamais saíram
de lá com vida, e isso aconteceu dezenas de vezes com jagunços,
feitores, capitães do mato e até mesmo com três coronéis da época que
decidiram por si só encontrarem o refugio dos negros. Porém, para
Joaninha esse perigo era inexistente, a menina parecia que reconhecia
cada centímetro daquele labirinto esverdeado, mesmo sendo a primeira
vez que se aventurava naqueles caminhos.

    Ela desceu o monte, atravessou as matas, e chegou ao povoado das
fazendas, e lá ficava olhando encantada outras crianças, as negras em
trabalho árduo nas roças de café, cana de açúcar, algodão, entre
outras culturas agrícolas, e as crianças brancas sendo pajeadas por
suas mucamas, seus acompanhantes, com suas vestes de princesas e
doutores, fazendo com que a pequena menina ficasse a refletir o quanto
sofria as crianças negras que viviam fora do Quilombo de seu amado
avô.

    A pequena Joaninha retorna ao Quilombo, e adentra a ele da mesma
maneira que saiu, escondidinha, porém em seu coração trazia a angústia
de se lembrar das pobres criancinhas negras, crianças de menor idade
que ela, sendo forçadas a fazer um trabalho desgastante, talvez sem o
alimento adequado, e ainda podendo ser surradas pelos feitores
sanguinários, a mando de coronéis sem coração. E ela sabia que isso
acontecia, pois prestava extrema atenção nas histórias dos negros
libertos que agora se encontravam no Quilombo, inclusive de seu
próprio avô paterno, o amado vovô Rei Congo.

    A menina sentia seu peito arder, um desespero abateu sobre ela,
seus olhos lacrimejaram, sentiu sua boca seca, a dor em seu pequeno
corpo era como se ela mesma estivesse em um tronco de  castigos, e ela
não suportando tanta agonia, chorou intensamente.

    Nesse momento seu mestre e avô adentra na pequena cabana de palha
na qual a menina se encontrava, e ao vê-la chorando daquela maneira
ficou um tanto preocupado, lhe perguntando o que havia acontecido; ela,
de olhos marejados, apenas olhou para o negro avô, o abraçou forte e
chorou mais.

    Após se acalmar um pouco, a menina pergunta ao avô como foi que
ele tinha tomado a decisão de lutar em prol da liberdade dos irmãos
negros, e ele com a serenidade de sempre disse a pequena menina:

    "Quando vi o sangue de um irmão negro que desencarnou no tronco
após dias de tortura, e esse sangue escorreu pela mãe terra que o
absorveu da mesma maneira que poderia absorver o sangue dos coronéis,
dos feitores ou de qualquer pessoa liberta. Então decidi que todas as
raças deveriam ter a benção da liberdade, e que Oxalá abraça a todos
da mesma forma, assim como a mãe terra."

    Ao ouvir isso a menina sorri, mesmo com os olhos lacrimejando, e
decide dentro de seu coração que iria libertar aquelas crianças.

    E assim no dia seguinte ela novamente sai do Quilombo rumo a
fazenda na qual se deparou com as crianças. Chegando lá ficou
escondida esperando uma oportunidade de iniciar o que tinha colocado
como missão.

    Ela observa um negrinho de uns oito anos saindo com um vasilhame
em direção ao rio, e vê ali a oportunidade que desejava. Ao se deparar
com ele longe das vistas dos jagunços e feitores, o puxa para de trás
de uma árvore, o negrinho se assusta no primeiro momento, mas quando
vê que era uma menina negra, sorri demonstrando simpatia.

    Joaninha abre um largo sorriso, e no cochicho diz quem é ela, e
diz que precisa de ajuda para poder libertar aquelas crianças, e
levá-las a um local, que ela descreveu ao menino como o paraíso de
Deus.

    O menino fica empolgado, explica a menina que a maioria daquelas
crianças estão distantes dos pais, pois muitos foram comprados de
outras fazendas, alguns pais foram mortos nas torturas intermináveis
pelos feitores, e muitos pais daquelas crianças fugiram em busca da
liberdade, e nunca mais voltaram, assim como aconteceu com seu
próprio pai, que fugiu após atacar um feitor que acabara de
assassinar sua mulher, mãe do menino negro.

    O menino com um ar de guerreiro da paz disse que a ajudaria, ele
ia falar com outras crianças quando estivesse na senzala, e assim
mostraria o caminho a todos para se encontrar com a pequena negra, que
dia a dia ia levando um a um ao Quilombo, e lá as escondiam dentro de
uma gruta, com receio de seu avô não autorizar que essas crianças
ficassem no Quilombo.

    Muitos coronéis, avisados pelos feitores sobre o sumiço como por
magia das crianças escravizadas, começaram a fazer diligências na
procura das mesmas, pois não tinha como tantas crianças sumirem sem
deixar o mínimo sinal.

    Com essa grandiosa introdução de jagunços, feitores, capitães do
mato e dos próprios coronéis pelas redondezas, e quando nosso
guerreiro Rei Congo observou esse fato, se limitou nas fronteiras do
Quilombo com seus lutadores em prol da liberdade, isso para caso se
algum desses "caçadores de negros" chegassem a descobrir o Quilombo,
estariam os negros preparados para a luta, isso imaginando que os
coronéis estavam em busca dos negros e negras adultos, que por anos
foram sendo libertos pelos guerreiros de Congo, sem imaginar o fato
das crianças desaparecidas.

    Enquanto isso a menina Joaninha trabalhava arduamente para manter
escondidas as crianças libertas por ela, era um vai e vem com comida,
água, lenha para manter as pequenas aquecidas a noite através de uma
fogueira, até mesmo algumas vestes para aquelas que necessitavam mais.

    Mas nada disso a fazia desistir, tinha a convicção de dever de
ajudar, salvar, libertar. E isso lhe dava forças de continuar, tanta
força, que mesmo sabendo sobre a caçada dos coronéis, ela ia a
algumas fazendas em busca de outras crianças, e nessa nova aventura de
libertação que o menino que lhe auxiliou no inicio veio com ela, seu
nome era Juvêncio, e se tornou um grande companheiro da menina na sua
missão.

    Com a ajuda de Juvêncio, ela foi trazendo mais e mais crianças,
deixando os coronéis, feitores e jagunços sem ação, pois não
conseguiam entender como as crianças saiam, onde se escondiam, e quem
estava as levando, pois nunca deixavam pista alguma, por mais que
vigiassem, por mais jagunços que colocassem para evitar as fugas, não
adiantava, quando menos se esperava desaparecia algumas crianças,
principalmente durante o trabalho nas roças.

    Certo dia Joaninha decide ir a busca de mais algumas crianças, e
em uma das fazendas visitadas por ela, se depara com uma menina negra
um pouco mais nova que ela, possivelmente com seus cinco anos de
idade, e essa menina ao vê-la lhe estende a mão, e as duas saem pelos
domínios da fazenda, a menina a leva até outra menina, sendo que essa
era branca, tinha uns quatro anos de idade, e as três ficam sobre uma
árvore, enquanto Joaninha explicava quem era ela, e o que fazia ali.
Ao ouvir o relato de Joaninha a pequena menina negra fica radiante, e
pede com lágrimas nos olhos que a leve também, para que possa viver
sem as surras contínuas que levava sem motivos.

    Ao ouvir isso a pequena sinhá entende que ficará sem sua
amiguinha, e chora, pedindo que a leve também, pois não gostava de
ficar naquele lugar que maltratavam tanto as crianças e  os moços
negros.

    Joaninha não sabia o que fazer, como ter uma menina branca dentro
do Quilombo, isso poderia levar os jagunços a encontrarem o
esconderijo dos seus irmãos negros, mas por outro lado como deixar a
pequena ali, sofrendo ao ver a maldade daquele lugar.

    Ela diz as meninas para aguardar uns dias, que retornaria para
buscá-las, pois tinha que ver como fazer para sair dali escondida com
elas.

    E assim voltou a gruta, no caminho sua mente infantil imaginava
várias coisas, tinha receio do que desejava fazer, mas tinha em seu
coração caridoso a dó de deixar aquelas meninas na fazenda juntamente
com aqueles homens sanguinários, mesmo sabendo que nada iam sofrer
fisicamente, mas a dor na alma por ver tanta crueldade seria
terrível.

    Enquanto refletia essas coisas, andando um tanto devagar,
observava a mata, as flores, o céu, as nuvens dançarinas, não reparara
que ao seu lado se encontrava uma linda luz, que acompanhava seus
passos. Ao reparar, no primeiro momento se assustou, porém ao ver a
imagem de uma mulher negra se tranquilizou, e foi logo perguntando com
um lindo sorriso no rosto:

"Quem é você? De onde veio? Você é do Quilombo do meu avô Congo?"

A negra responde com um olhar carinhoso:

"Sou apenas alguém que lhe ama e protege, vim das terras de Oxalá, e
já estive no Quilombo do amado Rei Congo. Porém agora vim aqui para
lhe dizer que falta pouco para completar sua missão, e após fazer o
que seu pequeno coração infantil deseja, estará pronta para me
acompanhar, e para uma missão muito maior, muito mais caridosa, muito
mais coberta de amor e fé.

    Peço que não tenha medo, estarei ao seu lado quando esse momento
chegar."

    Ao falar isso a mulher se afasta e desaparece bem em frente dos
pequenos olhos da menina, que recomeça sua caminhada rumo ao Quilombo.

    Na sede dos negros, onde se encontrava Rei Congo, avô da pequena
Joaninha, algo de inusitado acontece, em um encontro familiar, Rei
Congo, juntamente com Maria Conga sua filha, seu filho Mujongo, e
mais outros negros da linhagem, diz aos presentes que algo de grave
iria acontecer, que teriam uma grande perda a todos, e que essa perda
ia trazer novos protegidos ao Quilombo, e esses protegidos deveriam
ser cuidados com todo carinho e amor, o mesmo amor que estavam
recebendo da futura perda. E no momento que foi dito isso, a imagem da
mulher negra se fez presente a todos que ali estavam, e com olhos
brilhantes disse:

"Meus filhos, o que vai acontecer estava escrito, Zambi determinou a
presença de um dos amados filhos dessa terra para que possa seguir a
caminhada da caridade na luz espiritual. Talvez alguns de vocês não
entendam o porque disso, porém devemos elevar nosso amor e fé em Zambi
para que a missão de caridade seja continuada."

    Todos os negros que ali estavam se poem de joelhos, a mulher chega
até Rei Congo, toca-lhe a cabeça com carinho, ele vê a imagem da
pequena neta e chora, já imaginando de quem a mulher dizia.

    Nesse momento a imagem da mulher negra começa a se desfazer em uma
nuvem azulada, e suas últimas palavras são essas:

"Rei guerreiro da liberdade, filho amado meu, sou sua força e sua luz,
Oxum mãe das cachoeiras sou eu, nesse momento estarei com uma parte de
ti, a protegendo, a encaminhando para a caridade espiritual. Tu sabes
a dor que terá que suportar, tu sabes a luz que será acesa. Não te
aflijas, pois está chegando a hora da eternidade junto a sua pequena
luz."

    E assim a linda Oxum se foi, deixando os negros extasiados com sua
beleza, e o amado Rei Congo choroso com tudo aquilo.

    Alguns dias se passaram, e lá foi a linda Joaninha em busca da
menina negra e da sinhazinha que havia prometido retornar. Ao
encontrar as duas, as escondidas saíram da fazenda, indo rumo ao
Quilombo. Por muitas vezes a pequena Joaninha pegava a sinhazinha ao
colo, para que pudesse descansar, sem assim ter que parar, a fim de
não ter chance dos jagunços do coronel as achassem.

    E ao Chegarem a gruta, a pequena menina negra que veio com
Joaninha ficou muito feliz por reencontrar alguns de seus amiguinhos
que já haviam fugido anteriormente para o Quilombo. Após abraços e
sorrisos, muitos deles não entendiam o porque da pequena sinhá ali
estar. Mas como a infantilidade não tem regras sociais, logo iam e
abraçavam a sinhá, como velhos amigos.

    Ao anoitecer a menina Joaninha deixa a gruta, indo ao encontro de
seu avô, que ao vê-la a abraça fortemente, e chora copiosamente, ela
sem muito entender, mas no clima da emoção chora também, o abraçando
da mesma forma.

    Ele a pergunta sobre o que ela o escondia, que tantas saídas ela
fazia, e que tantos mistérios ela tinha naquela cabecinha de
criança.

    Ela sorri timidamente, e pede para o avô esperar que já voltaria,
e assim saiu correndo para a gruta, e de lá trouxe todas as crianças
que havia libertado das fazendas. Mas não teve coragem de trazer a
sinhazinha, deixando-a juntamente com a sua amiguinha.

    Chegando diante de Rei Congo com dezenas e dezenas de crianças,
ele ficou extasiado, assim como todos no Quilombo. Ela com seu sorriso
infantil, chamava uma a uma pelo nome, levava até o grande mestre do
Quilombo e pedia que as crianças pedissem a benção a ele, e assim elas
fizeram. E a cada benção que o velho Congo respondia, novas lágrimas
em seus olhos brotavam.

    Após todas as crianças serem abraçadas e abençoadas pelo avô de
Joaninha, e irem se socializando com os outros negros do Quilombo, Rei
Congo olha firmemente para a menina e diz:

"Filha amada, cá estão muitas crianças, porém seus olhos sofrem por
algo, seu gesto de caridade e de amor vão além dessas crianças. O que
mais você tem a me dizer pequena Joaninha, seu gesto de amor e de
caridade não param apenas nesses meninos e meninas."

    A pequena menina abaixa os olhos e com a voz embargada diz ao avô
que lhe acompanhe. Ela o leva a velha gruta, e lá o avô vê mais duas
meninas, uma negra, e uma branca, vestida de sinhá. Ele se aproxima, a
pequena negra fica um pouco assustada, mas logo é tranquilizada pela
Joaninha, e a menina branca se encontrava deitada ao solo, de olhos
cerrados, e estado febril.

    Rei Congo fica um tanto receoso com o estado da menina, se
aproxima mais, verifica que sua respiração está muito fraca, seu corpo
quase inerte está empalidecido. Ele a toma nos braços e diz as meninas
que a menina sinhá está muito adoentada, que deveriam partir
imediatamente para o centro do Quilombo para tentarem reverter aquele
quadro. E assim partiram.

    Ao chegarem ao centro do Quilombo foi verificado que as condições
da pequena sinhá havia piorado. Sua respiração já quase não era
percebida, sua pele estava pálida em demasia, seus olhos lacrimejavam,
a febre aumentara.

    Em uma pequena cabana a menina foi colocada em uma cama
improvisada, e ao seu entorno estavam Rei Congo, a sua filha Maria
Conga, e o casal Amadeu e Rosa (antigo feitor e sua esposa), que
falavam sobre a gravidade da doença da sinhazinha,, e diziam que era
uma tuberculose passada, que se agravou muito durante os dias, e muito
pouco poderiam fazer para salvarem a vida da menina.

    Joaninha ao ouvir isso sai correndo em lágrimas para a gruta,
chegando lá se joga de joelhos em oração. E sua fé grandiosa traz até
ela a imagem da mulher negra de antes que lhe afaga a cabeça e lhe
diz:

"Minha amada, é chegada a hora de caminhar junto a mim. Porém sua
escolha vai ser respeitada. Tu podes salvar a vida da pequena menina
branca, ou deixá-la partir. Sua fé e seu carinho, juntamente com sua
caridade vai ser o ponto de sua luz espiritual. A ti foi entregue o
caminhar daquela menina."

    Assim que Joaninha ouviu essas palavras retornou ao casebre onde
estava a sinhazinha. Se ajoelhou junto a menina sobre os olhares de
todos, ergueu suas mãos e colocou-as espalmadas sobre ela, cerrou seus
olhos e clamou a Zambi pela vida da pequena.

    Um silêncio grandioso reinou no pequeno aposento. Uma luz azulada
saia das mãos da menina negra, parecendo introduzir pelos poros da
menina sinhá.

    O velho Congo observa a imagem de Oxum, como uma serena mulher
negra, ao lado da menina Joaninha. Ele sente um aperto em seu peito,
como uma angústia sem fim. Sua experiência de vida e de
espiritualidade lhe mostra agora de quem Oxum se referia quando dizia
que uma parte dele estaria de partida para a caridade espiritual.

    Ele chora em silêncio.

    A pequena Joaninha continuava a energizar a sinhazinha, que
recomeça a recuperar as forças como por encanto. Seus olhos se abrem,
mostrando um brilho lindo e azulado. Sua pele vai perdendo pouco a
pouco a palidez. Sua respiração vai se tornando normalizada, no mesmo
instante que a da pequena Joaninha se tornava mais pesada.

    A menina cai ao chão, seu avô a pega nos braços, e ela com a voz
quase inaudível pede a ele que a leve para a gruta, pedindo também que
o casal Amadeu e Rosa, prometessem cuidar da menina sinhá, que logo
foi aceito por eles, que lhe prometeram com a voz embargada e os olhos
repletos de lágrimas.

    Após isso ela é levada para a gruta conforme seu pedido, e lá é
colocada no solo e a cabeça recostada no colo de seu avô que lhe
acaricia com muita ternura, tentando conter as lágrimas que teimavam
em cair deslizando pela sua face já cansada.

    Joaninha abre os olhos com dificuldade, pede ao avô para junto a
ela fazer uma velha oração tradicional no Quilombo, e assim os dois
começaram a prece aos Orixás.

    A voz da menina estava muito fraca, quase não conseguia pronunciar
as palavras de fé e de luz da velha oração. O velho avô não suportando
tanto sofrimento da perda que estava próxima, chora copiosamente em
meio as frases da linda prece. Ao seu lado se encontrava a linda mãe
Oxum, em forma de uma bela mulher negra, que estendeu os braços e com
muito carinho deu a mão ao espírito da pequena Joaninha que acabara de
desencarnar.

    Seu velho avô ao sentir o último suspiro da pequena, chora com
muita dor e extrema tristeza, lamentando aquele momento de separação.

    Deitado sobre o corpo inerte da menina ele não repara a imagem de
Oxum juntamente a de Joaninha, e quando dá por si sente um toque
amoroso em sua face secando-lhe as lágrimas. O toque vinha das mãos da
menina, que com um sorriso largo, olha o velho negro e diz:

"Amado avô, estou pronta para caminhar junto a minha mãe Oxum. Não
chores, pois logo estaremos juntos novamente. Hoje terminei minha
missão nessa amada terra, como encarnada, porém logo estarei como luz
de Deus para auxiliar todos os necessitados de amor e paz. Agora só
desejo sua benção para eu partir."

    O negro velho abençoa a menina, e uma luz azulada toma conta das
duas imagens que desaparece como por encanto.

    E assim Joaninha das Almas, irradiada por Oxum foi abençoada e
virou uma linda Entidade de Umbanda. Hoje ela trabalha em terreiros
como Erê, linha das Ibeijadas, e faz o bem a todos irmãos que nela
buscam auxílio para caminhar dentro da luz de Deus.

Salve as Ibeijadas!

Salve Joaninha das Almas!

Oni Ibeijada!

Carlos de Ogum

33 comentários:

Anônimo disse...

Nossa que história!! Como sempre surpreendente!! Obrigada por conta _lá pai Carlos, salve Joaninha das almas!!! Salve vovô Rei Congo!!! Priscila

Windy disse...

Que historia linda Pai, salve a menina de luz Joaninha. Oni

Edna Santos disse...

Lindo demais uma verdadeira guerreira oni Joaninha

Olga Mariza disse...

Salve a linda Joaninha das Almas. Amei

Beatriz Amora disse...

Amei mais essa historia de fé. Obrigado

Anônimo disse...

Salve Joaninha das Almas!!

Ana Carla disse...

Amei Carlos uma maravilha de historia

Jaciara Rios disse...

Eu gostei muito beijos pai

Samantha Bruxinha disse...

Pai Carlos de Ogum, muito obrigado por essa linda historia de fé. Já
muito ouvi falar em Joaninha mas nunca imaginei essa maravilha. Que
lição de vida. Oni

Ursula Pontes disse...

Lindo demais saravá Joaninha

Maria disse...

Adorei nota mil que historia emocionante

Telma Rossi disse...

Pai Carlos chorei muiiiiito. Abençoada Joaninha das Alnas.

Anônimo disse...

Oni Joaninha das Almas, linda demais essa menina de Deus. Salve Oxum

Rosa disse...

Sem palavras. Estou chorando até agora. Salve Joaninha das Almas,
salve Rei Congo, salve Oxum

Sebastião Julio disse...

Bela historia de uma bela Ibeijada. Oni

Marina disse...

Essa historia é de arrepiar, da vontade abraçar a Joaninha e nunca
mais largar. Saravá Erê Joaninha

Sara Peçanha disse...

Lindo demaiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiis. Oni Ibeijada

Nubia Santos disse...

Saravá Joaninha saravá Oxum saravá as Almas.

Gata Black disse...

Pai Carlos fico feliz demais em conhecer uma Erê negra, sou negra
também e vejo muitas historias de crianças branquinhas. Adorei saber
sobre Joaninha

Anônimo disse...

Peço a benção a Joaninha das Almas que ela proteja meus filhos
Willian, Jenifer, mayara e Lucas. Amém. Rosana Sergipana

Rafane Dias disse...

Que força de vontade e de caridade tem essa menina Pai, eu deveria
aprender com ela. Salve.

Lara disse...

Lutadora do bem e do amor. Que coragem. Amei. Oni Joaninha.

Clarissa Figueira disse...

Pai Carlos amei, e eu esperava uma historia dessa florzinha, li seu
poema das Ibeijadas da TUPOM e imaginava que logo iria ter a historia de
Joaninha, nem imaginei que seria tão linda. Salve

Anônimo disse...

Chorei é muito linda a historia da Joaninha, Brigado Pai

Anônimo disse...

Muiiiito linda a historia de Joaninha. Amo as Ibeijadas.

Karol Macumbinha disse...

Salve Pai Carlos, essas historias são emocionantes e eu amo quando
abro o blog e vem essas maravilhas de lições. Parabéns

Anônimo disse...

Salve Joaninha das Almas a netinha de Rei Congo. Saravá

Verinha disse...

Pai minha avó recebia essa Erê, fiquei muito feliz em saber sua
historia. Axé

Yara Lindeberg disse...

Salve todas as crianças salve Joaninha Oni

Menina Flor Karen disse...

Que lindeza de menina meu pai de Umbanda. Eu amo muito as Ibeijadas, e
sou apaixonada nessas historias que você conta tão divinamente. Muito
obrigado por esses textos maravilhosos, e agradeço a essas crianças por
autorizarem a você nos mostrar. Amém.

Fátima Novaes disse...

Salve essa coisinha lindinha Joaninha das Almas. Oni Ibeijada

Betinha disse...

Linda historia salve as ibeijadas salve joaninha

Otavio Ferreira Pereira disse...

Muito emocionante a história da joaninha das almas

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