terça-feira, 30 de setembro de 2014 69 comentários

Vovó Anita, A Preta Velha Doceira




    Na Umbanda temos muitas Entidades de Luz que nos fazem pensar
muito sobre a vida, sobre a caridade, sobre o amor a nossos
semelhantes, sobre a fé em nosso Pai Maior, e entre essas Entidades
divinas está uma Preta Velha que demonstra muito tudo isso para nós
Umbandistas ou não.

    O nome dessa Preta Velha é Anita, ou melhor dizendo, Vovó Anita a
Preta Velha Doceira.

    Portanto hoje falaremos um pouco dessa Entidade de Luz, mostrando
o seu carinho e amor com a natureza, com seus irmãos negros
escravizados como ela, mostrando suas magias, benzimentos e a sua
grande fé em Deus, nos Orixás e nas forças que esses Orixás
representam diante da natureza.


    Anita nasceu no Brasil, em uma fazenda cafeeira,  décima segunda filha
de uma negra escrava e procriadora, seu pai era escravo, também
procriador, sendo ele de outra fazenda vizinha.

    Ela não sabia ao certo o números de irmãos que tinha, pois a
maioria foram vendidos as fazendas da região ainda na fase infantil.

    Seu pai ela só viu duas vezes quando ele voltou a fazenda na qual
Anita cresceu, para que fosse conduzido a uma nova procriação, e entre
essas duas únicas vezes ela não sabia como se portar, o que dizer, o
que pensar sobre tudo aquilo, então se passou despercebido esses
encontros e para ela é como se nunca tivesse existido em sua vida
aquele contato entre pai e filha.

    Anita era uma menina muito dedicada a seus afazeres, tudo que era
Ensinado e demonstrado a ela aprendia facilmente, guardava todos os
detalhes, e criava coisas novas adicionando mais outros detalhes.

    Com isso Anita cresceu na fazenda com a responsabilidade de usar
seus dons para fazer os deliciosos doces com frutas, na qual ela
misturava um a um com paciência e dedicação, até se formar algo
inexplicável, extremamente saboroso e insubstituível.

    Com essa dedicação, ela com o passar dos anos e com mais
experiência, certa noite acorda um tanto assustada com uma voz que
chamava por seu nome.

    Ela subitamente se levanta de sua tarimba, tentando buscar de onde
veio a voz, olhando para os lados e vendo todos seus irmãos negros
dormindo, fica um pouco assustada ao voltar a ouvir a voz a chamando.

    Nesse instante ela tem uma visão de um fecho de luz vindo em sua
direção, e dentro dessa luz uma linda imagem de uma velha senhora
sorridente.

    A senhora a olha com carinho e lhe entrega um pequeno galho de
arruda juntamente com um ramo de guiné, dizendo-lhe:

    "A partir de hoje você usará esse galho de arruda e esse ramo de
guiné amarrado em seu braço direito, fazendo-se assim uma porta para
que as divindades da natureza possam utilizar de teus talentos como
a senhora da frutificação e a mãe de suculentos doces, não só para
agradar o paladar de pessoas famintas pelo sabor inigualável provindo
dessas iguarias, mas sim, que a partir de hoje terás o dom de cura se
utilizando desse poder natural.

    E usará esse dom, além de benzeduras, para curar pestes de seus irmãos negros e de seus senhores brancos, sem recuar ou fraquejar por mais que tu aches difícil a peste que possa ser espalhada dentre teu povo e senhores."

    Ao dizer isso a imagem desaparece diante dos olhos de Anita,
que segura firmemente as ervas dadas a ela.

    A partir desse dia Anita passou a usar os ramos em seu braço
direito amarrado com uma fina palha de milho.

    Ela decidiu então contar toda a história a Joaquina, uma velha
escrava que por mais de uma centena de anos vivia na fazenda, e por
ser uma negra muito respeitada por todos e por ter conhecimentos
diversos, inclusive de feitiçaria, Anita acreditou que seria o melhor
caminho para que tivesse entendimento sobre tudo aquilo.

    A Velha Joaquina, olhando ao ramo no braço de Anita, diz:

    "Minha filha, está para chegar tempos difíceis nessa região,
teremos uma grande nuvem negra sobre nossas cabeças, uma peste vai
aparecer e poderá tomar conta de nossos corpos. Você tem a luz para
salvar muitos de nossos irmãos e nossos senhores. Vá até seu pomar, e
dele traga as frutas que você desejar, pois essas frutas misturadas
com algumas ervas vai ser o remédio de cura de nosso povo e senhores.
Antes disso, se firme em Oxalá e em todos os Orixás trazendo as forças
da natureza junto ao que você ira fazer."

    Anita foi ao pomar recolheu várias frutas, foi recolhendo também
muitos tipos de ervas. Foi para a senzala e ficou em oração junto ao
pai maior. E 3 dias se passaram, quando os primeiros negros desabaram
com a força da peste, foi uma doença que se espalhava pelos pulmões,
levando aos mais fortes dos negros caírem sem condição de respiração.

    Anita como em transe, fez todas as misturas possíveis, e dessas
misturas saiu um chá de frutas e ervas, e uma pasta da mesma mistura.

    E a peste chegou a casa do Coronel fazendeiro e senhor dos
escravos.

    Ele foi o primeiro a se acamar, levando logo em seguida a sinhá
sua esposa.

    Vários doutores médicos vieram a fazenda, mas nenhum deles tinham
a solução, e alguns deles saiam dali com a peste.

    Nas senzalas vários negros se amontoavam sem nenhuma condição de
uma cura. E foi ai que a negra Joaquina foi ao encontro do coronel
fazendeiro, e falou sobre a possível cura, que se encontrava nas mãos
da negra Anita.

    O Coronel manda buscar Anita, que já era famosa pelas suas
deliciosas iguarias, e agora seria ainda mais conhecida por usar
dessas iguarias um modo de trazer a cura para todos que sofriam da tal
peste.

    Ela chega a casa grande da fazenda, indo ao encontro do Coronel,
que foi o primeiro a utilizar a magia provinda das frutas e ervas,
todas passadas pelas mãos da eficiente e tão cuidadosa Anita.

    Ela faz com que o Coronel bebesse do chá, sendo em pequenos goles,
enquanto ela passava a pasta com frutas e ervas espalhando sobre a
altura dos pulmões dele. Nesse momento Anita novamente entra em uma
espécie de transe, fazendo uma oração na qual lhe parecia um linguajar
familiar, mas que na verdade só ela mesma entendia.

    E assim a respiração do senhor Coronel, que até esse momento era
pesada e muito difícil, foi ficando mais calma, leve entrando em ritmo
de uma normalidade extrema.

    Ele olhando nos olhos de Anita, sente uma paz imensa, as dores
cessaram, e o corpo não mais estava febril.

    Agradecido pela melhora imediata, ele com lágrimas nos olhos
suplica a negra Anita que curasse a sua esposa também, que ele seria
eternamente agradecido.

    E assim foi feito, Anita da mesma forma feita ao Coronel, fez a
tão querida sinhá, que em pouco tempo já estava recuperada. E ela por
sinal, estava por demais preocupada com os negros que adoentaram
juntamente com seus senhores, pedindo carinhosamente a Anita que fosse
as senzalas levar aquela tão milagrosa cura a todos os enfermos.

    E ela foi, pacientemente, caridosamente a cada um dos seus irmãos
de raça, e entre um transe e outro, Anita findou com a peste dentro da
fazenda, sem uma só morte entre todos que adoeceram, diferentemente de
outras fazendas que tiveram muitas perdas de vida, tanto de negros
quanto de senhores de escravos.

    As falas sobre as curas feitas por Anita se espalharam por toda
região, e assim todos os Coronéis fazendeiros foram em busca da ajuda
dessa divina senhora doceira. E ela cuidou e curou centenas de
pessoas, sendo escravos e senhores de escravos.

    O Coronel da fazenda na qual vivia Anita, ficou extremamente
agradecido por tanta dedicação e caridade da negra Anita, dando-lhe de
presente dentro da fazenda uma choupana e a chance dela sair das
senzalas abarrotadas.

    E assim ela viveu até seus 90 anos, dentro da fazenda cafeeira, em
sua choupana e em volta todo seu pomar de frutas e ervas mágicas que
utilizava para curar diversos tipos de males do corpo e do espírito,
pois a Velha Anita também se tornou uma das mais conhecidas negras
curandeiras de toda a região.

    Ela desencarnou duas décadas antes da libertação de seu povo
escravizado. E no dia de seu desencarne, ao saber do fato, todos os
negros da região colocaram em seus braços direito um galho de arruda e
um ramo de guiné, para que assim a Preta Velha Anita os protegessem de
todos os males físicos e espirituais.

    Hoje a vovó Anita trabalha nos terreiros de Umbanda, auxiliando os
filhos que tenham males do corpo e da alma, trazendo paz, abrindo
caminhos a todos os filhos necessitados. Nunca deixa um filho sem uma
luz no caminhar, nunca deixa de mostrar a força da fé no Pai Maior e
nunca deixa de mostrar que a natureza é a força contra muitas coisas
que viram obstáculos em nossa vida.

    Saravá a divina e caridosa Preta Velha Vovó Anita!

Adorei as Almas!

Carlos de Ogum.

(Agradecemos a nossa querida Médium Aninha de Iemanjá por nos dar a
satisfação de conhecer essa bela Entidade na linha dos Pretos Velhos,
através do trabalho de caridade e desenvolvimento mediúnico em nosso
terreiro.)


segunda-feira, 22 de setembro de 2014 49 comentários

Salve Ibeijada, Doces Crianças da Umbanda







Ô Erê, ô Erê onde está o Erê?
Ô Erê, ô Erê onde está o Erê?

Onde está a Rosinha?
Está na cachoeira.
Onde está a Aninha?
Na nuvem a brincar.
Onde está Mariazinha?
No mar com a Sereia.
Onde está a Julinha,
que não veio trabalhar?

Ô Erê, ô Erê onde está o Erê?
Ô Erê, ô Erê onde está o Erê?

Onde está o Zezinho?
Na prainha a nadar.
Onde está o Joãozinho?
Saiu para caçar.
Onde está o Pedrinho?
Foi no mar para pescar.
Onde está Cosmezinho,
que não para de pular?

Ô Erê, ô Erê onde está o Erê?
Ô Erê, ô Erê onde está o Erê?


    Doces crianças de Umbanda, nossas Ibeijadas ou Erês amados, estão
sempre por perto para nos ajudar a abrir caminhos, nos mostrar que
tudo tem um sentido, nos dar esperanças para não desanimarmos por mais
difícil que seja a situação na qual estamos.

    As Ibeijadas, são aquelas pequenas Entidades de Luz, que são
festejadas normalmente no mês de setembro no dia 27, mesmo dia de São
Cosme e São Damião, os santos irmãos. E na Umbanda eles são os
Ibeijis, os Orixás gêmeos.

    Estas entidades representam a alegria, a sinceridade, a inocência,
tudo que é puro. Representam as crianças, são alegres, travessos,
manhosos, cheios de dengo e manias infantis. São a síntese da pureza.
Geralmente são muito ligados a linha das almas, Pretos e Pretas
Velhas, sempre pedindo suas bênçãos e se referindo à eles como vô e
vó.

    Quando estão em terra sempre esperam muitos agrados, adoram doces,
guloseimas, balas, pirulitos e adoram um grande bolo todo confeitado e
um "Parabéns à você" para eles cantarem e apagarem as velinhas.

    São muito sensíveis, então, por esse motivo nunca devemos
deixá-los vir sem uma festinha, um agrado, uma guloseima, um
brinquedo, um afago. Eles adoram e sempre esperam por isso.

    Essas entidade são de grande sabedoria, que entre brincadeiras
soltam as "verdades" que muitas vezes precisamos ouvir.

    Para agradá-los sirva uma boa porção de doces regados a bastante
mel, num parque ou num jardim bem florido. Com certeza eles virão para
ouvir seus pedidos.

    O trabalho dessas Entidades se consiste em fazer abertura de
caminhos, saúde, limpeza espiritual, proteção, entre outras várias
coisas.

    Nas festas de Ibeijada, na qual as crianças espirituais incorporam
em seus médiuns, não falta alegria, sorrisos, brincadeiras, e a
felicidade que contagia os terreiros de Umbanda, a singeleza entre
essas Entidades tão divertidas é enorme.

    São Entidades que de forma nenhuma vão fazer mal a alguém, eles,
caso algum consulente tente pedir para atrapalhar a caminhada de
algum semelhante, logo tentam mostrar que não se deve agir com
maldade, não se deve buscar escuridão a nenhum filho de Deus, e assim
eles demonstram através de suas brincadeiras e sorrisos, que devemos
agir com amor independente de qualquer contratempo.

     São espíritos que já estiveram encarnados na terra e que optaram
por continuar sua evolução espiritual através da prática de caridade,
incorporando em médiuns nos terreiros de Umbanda. Em sua maioria,
foram espíritos que desencarnaram com pouca idade terrena, por isso
trazem muitas características de sua última encarnação, como os
trejeitos e a fala de criança, o gosto por brinquedos e doces.

     Assim como todos os servidores dos Orixás, elas também tem
funções bem específicas, e a principal delas é a de mensageiro dos
Orixás, sendo extremamente respeitados pelos Caboclos e pelos
Pretos Velhos.

     É uma falange de espíritos que assumem em forma e modos, a
mentalidade infantil. Como no plano material, também no plano
espiritual, a criança não se governa, tem sempre que ser tutelada. É a
única linha em que a comida de santo (Amalás), leva tempero especial
que é o açúcar.

    É conhecido nos terreiros de Nação e Candomblé, como ERÊS
ou IBEiJI.

    Na representação nos pontos riscados, Ibeiji é livre para utilizar
o que melhor lhe aprouver, em muitas das vezes seus pontos riscados
apresentam bonequinhas, carrinhos, folhinhas, frutas, chupetas,
cruzinhas, ondinhas, florzinhas, , entre outros vários símbolos. A
linha de Ibeiji é tão independente quanto à linha de Exú.

    Na Umbanda essas Entidades são espíritos que desencarnaram, na
maioria das vezes, na fase infanto-juvenil, elas são meigas, mas
extremamente barulhentas assim como os Erês, também ´podendo ser
muitas delas comportadíssimas e bastante tranquilas.


    As Ibeijadas normalmente tem nomes relacionados com os nomes
comuns brasileiros, como Cosmezinho, Rosinha, Mariazinha, Zezinho,
Joãozinho, Aninha, Julinha, Ritinha, Pedrinho entre vários outros.

    Seu colar de contas tem as cores rosa e azul, sendo determinado
por cada Ibeijada a forma de ser feito, podendo ser metade rosa e
metade azul, uma conta azul e uma rosa até fechar a guia, três rosas e
três azuis ou sete rosas ou sete azuis, tudo isso determinado pela
Criança ou pela Entidade responsável, podendo ser um Preto Velho ou
um Caboclo, incorporado por um médium preparado.

     Quando incorporadas em um médium, gostam de brincar, correr e
fazer brincadeiras muita arte como qualquer criança. É necessária
muita concentração do médium que seja consciente, para não deixar que
estas brincadeiras atrapalhem na mensagem a ser transmitida.

     Os "meninos" são em sua maioria mais bagunceiros, enquanto que as
"meninas" são mais quietas e calminhas. Alguns deles incorporam
pulando e gritando, outros descem chorando, outros estão sempre com
fome, etc... Estas características, que às vezes nos passam
desapercebido, são sempre formas que eles têm de exercer uma função
específica, como a de descarregar o médium, o terreiro ou alguém da
assistência.


    Independente de Ibeijada ser quieta ou bagunceira, ser menino ou
menina, ser de qual for a linha e irradiação de Orixá, todos tem o
encanto no olhar, a meiguice como instrumento de trabalho, a verdade
como lema e o amor por Deus, um amor grandioso que se espalha nas
giras e festas do Dia de Ibeijada.

Oni Crianças divinas de Umbanda.

"Seja No Mar Ou Nos Jardins, Na Mata, Cachoeira Ou Afins, De Olho Seu
Erê Vai Estar, Cuidando Protegendo A Brincar. Oni Ibeijada."

Um salve especial as crianças de nosso terreiro:

Cosmezinho de Oxum.
Joãozinho das Matas.
Rosinha de Omulú.
Joãozinho de Xangô.
Zezinho da Beira da Praia.
Mariazinha da Beira da Praia.
Aninha Estrelinha do Mar.

    Peço a proteção para minha família e para todos irmãos
Umbandistas.

Saravá Ibeijada!

Carlos de Ogum.




quinta-feira, 11 de setembro de 2014 79 comentários

Uma Carta e Uma Lição de Senhor Tranca Ruas

.


    Muitas pessoas já buscaram ajuda com uma Entidade de Luz, que gira
na linha da esquerda e que chefia a linha dos Exús. Essa Entidade de
grande força espiritual é respeitada extremamente por todos
Umbandistas e dentro de todos os Terreiros.

    Muitas pessoas menos instruídas, sem um conhecimento básico sobre
a religião de Umbanda, sem a mínima noção de que seja uma Entidade de
Luz e por muitas vezes sem a menor moral para dizer algo,
principalmente pessoas fanáticas religiosas, determinam que a Entidade
de Luz em questão seja a figura demoníaca criada em suas próprias
mentes doentias.

    A Entidade divina, de grande força espiritual, com grande ligação
a caridade na qual estou me referindo é o nosso grande lutador contra
o mal, o Senhor Tranca Ruas.

    E hoje estou fazendo esse texto apenas como uma pequena
demonstração da grandiosidade dessa Entidade maravilhosa, para mostrar
a todos interessados uma carta ditada pelo nosso amigo, Senhor Tranca
Ruas, para, não defender a ele das maledicências que saem das bocas
incrédulas e dominadas pelo ´poder de ditos líderes religiosos, que
usam de palavras insanas contra a nossa Umbanda e nossas Entidades de
Luz apenas para induzir a fiéis a patrocinar o bem estar desses tais
"líderes", através de dízimos, doações ou qualquer forma de retirar
dinheiro desse povo que crê em muitas falácias, mas apenas para
demonstrar a verdadeira grandiosidade de uma Entidade na qual é
descriminada apenas por fazer a caridade sem cobrar nada a ninguém.

    Para isso basta escrever as palavras de Senhor Tranca Ruas, e
dizer que para o bom entendedor palavras reais valem muito mais que
simples ataques a religião alheia.

Carta de Senhor Tranca Ruas.

    "Cá estou hoje, diante de um grupo de pessoas que veem a mim para
buscar algum tipo de ajuda.

    Dentre essas pessoas temos algumas realmente necessitadas por uma
ajuda espiritual, pessoas que estão obsediadas, algumas doentes
espiritualmente, algumas em busca de aberturas de caminhos para
conseguirem uma ocupação trabalhista e muitas em busca apenas de uma
palavra amiga, um abraço ou uma conversa com a Entidade que tem
apreço.

    Todos esses serão bem recebidos, todos esses terão seu momento de
falar, pedir, desabafar, chorar ou lamentar.

    Temos também nesse grupo outras pessoas. Pessoas essas que vieram
com a mesma intenção, de uma busca de ajuda em algo.

    Mas essas não serão atendidas.

    Pelo simples fato que eu, Exú Tranca Ruas, não sou uma Entidade
das Trevas, não sou um torturador do tempo medieval, não sou um ser
que vende aberturas de caminhos, não sou um ditador que condena uma
pessoa a obrigação de amar a outra pelo simples fato que a outra
determina assim.

    Não quero seu marafo, não quero seu charuto, não quero sua vela,
não quero sua tuia.

    Você não pode comprar a minha ajuda, pois ela só será dada através
da caridade, e apenas para fazer a caridade.

    Não adianta me pedir para trancar os caminhos de seu semelhante,
pois não venho a terra para isso.

    Não adianta me pedir para torturar alguém, pois meu caráter não se
iguala com o seu.

    Não adianta me pedir para amarrar seu "amor", pois se precisa
fazer isso é porque não tem amor próprio, e se não tem amor próprio
não tem o merecimento de ter um amor verdadeiro.

    Não adianta me pedir para fazer algum mal a um irmão, pois não sou
um escravo das trevas que deve obedecer suas sandices.

    Não tente me enganar com seus falsos sorrisos, tentando induzir-me
como faz com seus semelhantes, pois eu nesse momento ao olhar em seus
olhos estou na verdade observando sua alma negra cheia de rancor.

    Não tente me oferecer seus ebós  com o sangue de um ser vivo,
pois eu não necessito de nada orgânico para poder me fortalecer.

    Não tente me enganar com palavras que julgam seu semelhante,
tentando demonstrar a mim que você é uma vítima de alguma
maledicência, pois quando ao pisar em minha casa já observei a maldade
em seus olhos e corri gira em sua mente buscando suas reais intenções.

    Portanto a todos que couberam essas palavras, já sabem o rumo a
tomar. Se vieram para o bem, fiquem a vontade dentro de nossa casa, e se
estão aqui para fazer o mal, deem as costas a esse Exú, pois não
cederei por mais que implorem.

    Sou o Exú Tranca Ruas, o senhor da luz, o que luta contra
espíritos das trevas, o encaminhador de Kiumbas, o chefe das
tronqueiras.

    Não desejo que me comparem com um demônio, não desejo que me
ofereçam uma vida em troca de algo, não desejo ser escravo do mal, não
desejo ser visto como o terror da escuridão, não desejo que tenham
pavor de mim.

    Não me façam parecer um ser monstruoso que espalha ódio e terror,
assim como criaram lendas em mentes doentias e imperfeitas,
espalhando-se pelos quatro cantos de nosso planeta.

    Sou apenas uma Entidade de Luz, que busca evolução como todos
buscam, a cada dia, a cada trabalho, a cada gesto.

    Meu nome é Tranca Ruas, o ser que obedece a Deus, que trabalha
para Deus, que ama a Deus, e que infelizmente muitos seres humanos
fazem questão de tentar levar meu nome de encontro ao ser demoníaco
apenas para satisfazer seus desejos sem moral e sem caráter envoltos
na maldade extrema.


    Trabalho pela caridade, em nome de Deus, vou até as profundezas
sim, mas com ordens de Deus, e apenas para tentar salvar mais uma
alma perdida, perdida assim como poderá ficar a alma de quem tenta
fazer o mal usando o meu nome, o nome de Senhor Tranca Ruas.

    Não ache que não estou vendo sua alma, seja ela branca como um dia
de sol, ou negra como as profundezas donde ficam as almas perdidas.
Independente de tudo. Eu estou vendo dentro de seu ser.

Que Zambi e Pai Oxalá possam iluminar o caminho de todos.

Senhor Tranca Ruas."



    Com essa excelente lição, termino esse texto, e digo com muito
orgulho que tenho o prazer de trabalhar com Senhor Tranca Ruas a mais
de 20 anos, e em todo esse tempo, nunca foi aceito por ele que algum
consulente tentasse levar um pedido que pudesse fazer mal a alguém,
nunca foi aceito fazer amarrações, nunca foi pedido matança de nenhum
ser e nunca foi cobrado nada pelas suas ajudas e orientações.

    E ainda tem pessoas que o chamam de "demônio".

    Saravá Senhor Tranca Ruas!

    Senhor Tranca Ruas é Mojubá!

    Carlos de Ogum

sexta-feira, 5 de setembro de 2014 83 comentários

VOVÓ JOAQUINA E SUA HISTÓRIA.





 Vovó Joaquina e Sua História.


    "Saravá Vovó Joaquina,
Saravá o seu Gongá,
ela vem de Aruanda,
ela vem pra trabalhar.

    Com suas mirongas,
com seu Patuá,
Saravá Vovó Joaquina,
na fé de Oxalá."


    Vovó Joaquina é uma Preta Velha que trabalha na Umbanda fazendo
sua caridade, auxiliando a quem necessita, ensinando caminhos,,
mostrando aos filhos de fé que não basta dizer ser caridoso, tem que
realmente ser.

    Ela foi uma negra escravizada, que veio trazida de sua terra natal
juntamente com seus pais pelos traficantes de escravos em navios
negreiros pelos meados do século XVIII, quando tinha apenas entre 4 e
5 anos de idade na vida terrena.

    Ela foi levada juntamente com os pais a uma fazenda de
cafeicultores em alguma localidade na região Sudeste do Brasil, e lá
viveu até seu desencarne.

    Quando ainda criança, Joaquina era uma menina atenta a tudo e a
todos, gostava de aprender tudo que poderia com seus irmãos negros, e
essa vontade de aprender lhe deu grandes ensinamentos, tais como
algumas magias vindas por ensinamento de alguns negros mais velhos, o
dom de reconhecimento e uso das ervas, o poder de rezas e benzimentos,
o poder de encaminhar espíritos perdidos e obsessores, a magia de
leitura de destinos em borras de água misturada com mel e fumo, rezas
e benzeduras em partos dificultosos, entre tantos outros dons.

    Ela aos 12 anos teve a sua primeira gravidez, pois era uma menina
sadia, forte e que foi determinada pelo seu senhor escravocrata que
deveria ser genitora de muitos filhos para que assim seu número de
escravos aumentassem a cada ano.

    E nessa gravidez precoce nascera os primeiros negros gêmeos da
região, que seria algo de motivo de visitações intensas de coronéis a
senzala na qual vivia  então a negra Joaquina.

    Para ela aquilo tudo era muito novo, não entendia muito bem toda
aquelas pessoas que vinham na intenção já de compra de seus filhos e
dela própria, pois eram épocas que quem reinava mais, que tinha mais
poder era os escravocratas que tinham mais negros, mais terras para
plantação e mais negras reproduzindo, portanto dois recém-nascidos
gêmeos e meninos, era um feito e uma ótima oportunidade de no futuro
serem reprodutores com possibilidades de gerarem outros gêmeos.

    Além disso, a própria Joaquina era alvo dos olhares de ganância
desses escravocratas, uma pequena negra com possibilidade de gerar
duas vidas de uma vez só em seu ventre era algo muito lucrativo para
os coronéis sedentos de poder.

    Mas com a rejeição de venda, tanto dos gêmeos quanto da menina
Joaquina pelo seu senhor, ela ficou na senzala com seus filhos, sendo
já preparada para ser reprodutora de escravos para a fazenda.

    E assim foi feito, cada ano ela tinha um filho, não mais gerando
gêmeos, levando a baixar as expectativas do coronel.

    E isso foi até ela completar seus 20 anos, quando teve uma grande
tristeza. O coronel cafeicultor, sem que ela menos esperasse, vendeu
a um negociador de escravos, quatro de seus oito filhos, que foram
levados amarrados e chicoteados pelo feitor desse negociador.

    Ela chorava em desespero, ao ver suas crianças serem arrastadas
sem destino pelas mãos do feitor, e entre eles estavam os seus gêmeos,
que na época tinham apenas 8 anos de idade.

    Ela joga-se ao chão clamando ao coronel que não vendesse seus
filhos, que os deixassem na fazenda, que eles pudessem crescer junto a
ela, mas sem sucesso.

    Na saída da porteira da fazenda o pior acontece, um dos gêmeos se
solta das amarras do famigerado feitor e corre sem rumo tentando fugir
daquela situação.

    O feitor sem piedade aponta sua velha arma de fogo contra o menino
indefeso e atira, que cai já sem vida sobre o chão empoeirado da
entrada da fazenda.

    Seu irmão, chorando e dominado pelo ódio, corre mesmo atado pelas
cordas e correntes para atacar o feitor assassino, que sem pensar age
da mesma forma cruel, atirando no outro menino, vendo-o cair sem
chances de defesa.

    O menino gêmeo, com os olhos cheio de lágrimas, observa o corpo
inerte de seu irmão, e mesmo dando seus últimos suspiros grita pela
sua mãe, que desesperada se arrasta na terra seca, tentando chegar
até seus gêmeos, que pela crueldade de um feitor desumano, a faz perder
de uma só vez dois filhos para a fria e sombria morte.

    Joaquina foi tirada dali de uma forma brutal, sem piedade e sem
remorso pelo feitor assassino. Ao ser levada para a senzala, ela
desesperada pela morte de seus gêmeos e pela dor de saber que mais 3
dos seus filhos seriam levados para o comércio de escravos, ela
desmaia aos pés de seus irmãos negros, que com lágrima nos olhos não
sabiam o que fazer e nem como acalentar a imensa perda de nossa
fragilizada negra Joaquina.

    As horas passaram e ela acorda de seu desmaio, com a cabeça
confusa achando que tudo passara de um terrível pesadelo, mas ao
relembrar de tudo, chora desesperadamente, e corre até as grades da
porta da senzala implorando pelos seus filhos.

    Nesse momento as portas se abrem, e é jogado a seus pés dois
corpos inertes, os corpos inertes de seus filhos amados.

    Olhando para o céu, Joaquina com os olhos lacrimejados, toma uma
decisão e faz uma promessa: Nunca mais em quanto viver, iria gerar um
filho para ser escravizado."

    E assim ela, com os ensinamentos adquiridos e o poder das ervas
fez com que seu ventre não gerasse mais filhos.

    Ela viveu nessa fazenda por mais de uma centena de anos, e em todo
esse período se tornou guardiã de todas as crianças negras, na qual
protegia desde a saída do ventre das mães até a maior idade.

    Ela se tornou uma respeitada negra por entre seus irmãos de cor e
por todos daquela região. Era conhecida como a melhor parteira que
existiu por todas as fazendas, tinha o respeito de coronéis e de suas
famílias pelas lendas de "feitiçaria" que ela saberia fazer. Isso se
espalhou por toda a região, levando a muitas pessoas temerem a agora
velha Joaquina.

    Foi responsável por ensinar benzeduras e magias africanas a vários
negros da fazenda e da região, entre esses negros o alegre Benedito,
que ela o tinha como filho, após a morte de seus pais, e o sisudo
Antero, que era seu afilhado e confidente.

    A velha Joaquina após pegar o respeito e a admiração da família do
coronel cafeicultor, saiu da roça e da senzala para trabalhar e viver
na casa grande, sendo ela a responsável por fazer o parto da sinhá,
esposa do coronel, e também a responsável por salvar a vida da própria
sinhá e sua pequena filha nesse parto, após a sinhá ter tido problemas
gravíssimos nessa gestação.

    Com o passar do tempo a velha Joaquina, que nesse período, também
já era conhecida por "Vó Chica", nome dado por seu filho de coração o
negro Benedito, já quase nada fazia, pois o peso da idade não mais a
permitia, ficava perambulando pela fazenda fazendo suas benzeduras, e
com isso cada dia mais era conhecida como a velha feiticeira.

    Seu desencarne foi dado numa tarde de primavera, onde ela chama
sua última filha de sangue, a negra Antônia, conhecida por todos da
fazenda como "Tonha", seu filho de coração o negro Benedito, seu
afilhado Antero e a sinhazinha, filha do coronel, para andarem por
entre as flores de um grandioso jardim da fazenda.

    Ao chegar nesse jardim, ela mansamente senta-se ao chão, e ao
redor dela os negros e a sinhazinha. E com um sorriso tímido ela olha
para os 4 personagens, pegando a seu lado um galho de arruda e outro
de guiné, fazendo o sinal da cruz a cada um.

    Ela já com bastante dificuldade diz:

    "Que a luz de meu Pai Oxalá ilumine a vida e o caminhar de vocês.

Desejo aqui dividir com vocês todo meu amor, minha fé, minha
esperança.

A minha querida filha Tonha, que aqui representa todos meus filhos de
sangue, peço que tenha sempre muita fé no Pai Maior.

A meu filho de coração Benedito, e meu afilhado Antero, que aqui
representam a cumplicidade e o amor de meus filhos gêmeos, peço que
espalhem a caridade pela eternidade.

E a sinhazinha, que aqui representa a esperança de nosso povo não mais
sofrer, não mais chorar, não mais perder seus filhos amados, não mais
morrer nos troncos das fazendas, peço que olhe pela nossa gente, pelos
negros que são açoitados, castigados e mortos pelos seus senhores.

    Eu imploro a Zambi que ele possa ouvir a voz dessa velha negra
castigada pelo destino de ter vivido como escrava, que foi retirada de
sua terra natal, que foi açoitada como animal, que viu seus filhos
serem arrebatados de seu convívio e assassinados sem a menor piedade,
pedir humildemente que o Pai Maior possa levar esperanças a todos que
sofrem as amarguras e dores de ser escravizados, e que sua luz ilumine
a esperança daqueles que aguentarem chegar o dia de vossa libertação."


    E assim ela abre os braços a cada um deles, num abraço carinhoso
de mãe, uma mãe protetora, cuidadora, devota, guerreira.

    Tonha é a primeira a ser abraçada, após ela abraça a Antero, seu
afilhado amado, em sequencia um abraço quase sem forças a sinhazinha,
que chora copiosamente.

    Em seguida ela olha profundamente aos olhos de Benedito, sorri.
Recorda-se de tantos momentos agradáveis junto a seu "moleque", tantas
alegrias, tantos ensinamentos. Ela abre seus braços, Benedito a abraça
fortemente, ambos choram em demasia.

    O abraço dela vai ficando menos apertado, seus olhos cerram, seu
sorriso se vai. E assim desencarna a velha Joaquina, a senhora
Feiticeira, a vó Chica, partindo de sua vida terrena, deixando seu
corpo inerte nos braços de seu filho de coração, que sem entender o
acontecido por alguns instantes, ainda a abraça firmemente junto a
lindas rosas e margaridas, flores preferidas de Joaquina, do jardim da
fazenda.

    Vovó Joaquina desencarnou no século XIX com idade incerta, mas
sabendo-se que com mais de 100 anos, sem ver seu povo libertado, sem
saber porque seus filhos tiveram que sofrer tanto, sem entender o
porque que a diferença de raça e cor fazia alguém melhor ou pior do
que o outro.

    Hoje Vovó Joaquina trabalha nos terreiros de Umbanda, trazendo
suas magias, seus dons, suas benzeduras, distribuindo sua caridade com
todas as pessoas que buscam sua ajuda espiritual, sendo essas pessoas
brancas, negras, de qualquer etnia, de qualquer crença, de qualquer
classe social.

    Ela distribui o seu amor, assim como distribuiu com centenas de
crianças que trouxe a vida sendo parteira, distribui seus ensinamentos
espirituais como distribuiu com todos seus irmãos negros e distribui
sua piedade a todos os consulentes que a procuram, assim como
distribuiu a piedade com o feitor que assassinou seus gêmeos sem a
mesma piedade que ela nos concede hoje.

Uma Benção De Vovó Joaquina: "Que Oxalá Esteja Sempre Com Você, Mas
Que Acima De Tudo Você Esteja Sempre Com Oxalá."

Frase De Vó Joaquina: "Quem Possui O Coração Cheio De Amor, Nada
Teme!"

    Adorei as Almas!

    Saravá a Linda Vovó Joaquina das Almas!

    Agradeço a oportunidade de poder participar das Giras com essa
Preta Velha divina em nosso terreiro, que é incorporada pela nossa
querida Priscila de Omulú.

Carlos de Ogum.






sábado, 30 de agosto de 2014 42 comentários

A Importância dos Cambonos na Umbanda



    A quem já acompanhou alguma Gira de Umbanda por esse imenso Brasil,
com toda certeza já observou um personagem no qual é chamado de
"Cambono" ou "Cambones".

    Esse personagem de intensa destreza e sabedoria dentro dos Terreiros
é algo que não pode faltar, aliás sem ele era quase impossível de
termos Giras tão eficientes.

    Mas, quem é esse personagem?

    Cambono ou Cambones é o auxiliar de Médiuns de Incorporação e o
Servidor dos Orixás. O cambono é o médium que teve o necessário
desenvolvimento para poder auxiliar e entender os Guias nas necessidades
das sessões.

    É uma atividade exercida nos terreiros de Umbanda e que merece uma
atenção especial dada a sua importância como auxiliar das Entidades de
Luz, dos médiuns e dos dirigentes do Terreiro.

    Sendo auxiliar das Entidades de Luz, cabe ao cambono ser o
interpretador das mensagens entre a Entidade e o consulente, além de um
defensor da Entidade e da integridade física do médium. Cabe a ele cuidar do material da Entidade, orientar o que acontece em sua volta e também ajudar o entendimento do consulente, pois a linguagem do espírito nem sempre é entendida, mas ao cambono fica claro já pela sua intimidade com o comportamento do espírito que ele serve.

    Mas nem sempre a posição do cambono é confortável, pois algumas vezes cabe a ele fiscalizar também o comportamento do Médium, que podendo não estar bem no dia, por uma razão ou outra, fugir da normalidade deve imediatamente avisar a direção do terreiro. O limite da intimidade do consulente com o espírito ou o médium deve ser fiscalizado pelo cambono para evitar mal entendidos e desajustes de informações.

    Finalmente ao cambono é dada uma oportunidade especial de conhecer mais a Umbanda e a forma das Entidades trabalharem porque seu contato é direto. Como o cambono tem como obrigação ouvir o que o espírito ouve e fala, seu conhecimento, em cada consulta, aumenta consideravelmente.

     Então resumindo, Cambonagem ou cambonar é uma das principais e mais complexas funções na Umbanda. No trabalho de cambonagem o cambono acaba por receber influências diversas de vibrações dos médiuns e consulentes, alem disso o cambono acaba por aprender a diferenciar as Entidades, o que usam como: fumo, bebidas, a própria fala, a incorporação, desincorporação, o que manipulam para auxiliar a consulta, os materiais de trabalho da Entidade de Luz.

Os Cambonos acabam aprendendo sobre a importância do sigilo, pois o que é ouvido durante uma consulta, não pode e nem deve ser passado adiante, sendo assim como se fosse um sigilo profissional, tendo que ser respeitada esse silêncio, independente do qual for o assunto tratado com a Entidade de Luz e
seu consulente, dentro dos termos da espiritualidade e as regras da casa.

    E em se tratando do lado espiritual podemos falar em sigilo espiritual. O cambono é como se fosse uma espécie de orientador, ou seja, que orienta o consulente na hora da consulta, no fato de deixá-lo à vontade para expor seus problemas e suas duvidas. Mais deixando claro que tudo tem que haver respeito, que não se pode brincar, conversar durante uma sessão, pois acaba por atrapalhar a sessão e até mesmo as próprias Entidades. Sem falar que os cambonos precisam ter respeito com os médiuns e as Entidades, cuidando de tudo quanto for necessário para o bom trabalho de caridade a ser feito.

    Uma das mais importantes coisas que está presente nas funções de um Cambono é ficar atento as mensagens ou recados para os consulentes, na qual se tem que ter atenção redobrada para ouvir, traduzir, se preciso for, e explicar, não dando opinião mais explicando o que foi passado pela Entidade de Luz. E o mais importante estar sempre atento a tudo e a todos, estar de coração e mente aberta para servir, ter respeito ao próximo, responsabilidade, comprometimento, amor pelo o que vai fazer. Em resumo cambonar é servir com amor, dedicação e humildade. Compromisso feito com Amor Humildade e Sabedoria Ato Construído com Atenção e Responsabilidade.


Abaixo vamos expor resumidamente para entendimento algumas das funções de um Cambono preparado para assumir seu trabalho dentro de um terreiro.

- Auxiliar a Entidade de Luz e ao médium dentro das normas da espiritualidade e regras da casa na qual são filhos.

- Colaborar materialmente e espiritualmente com o médium e com a Entidade de Luz, antes, durante e depois do trabalho de caridade.

- Orientar os consulentes quando não for entendido por ele o que foi determinado pela Entidade de Luz, como por exemplo algum banho, entregas, novas consultas, vibrações e o que for necessário.

- Prestar extrema atenção na consulta, para não ser infringida nenhuma regra ou regulamento da casa, e notando alguma anormalidade deve ser comunicado ao Chefe de Cambonos ou ao Pai Pequeno ou Mãe Pequena do Terreiro, e, conforme o caso, o Pai de Santo.

- Deve apresentar honestidade e sigilo absoluto, não devendo nunca contar a ninguém o teor das consultas.

- Não pode incorporar quando está atendendo a uma Entidade, exceto quando autorizado pela Entidade a quem estiver servindo, ou se essa Entidade o trouxer junto ao consulente para um provável descarrego. Mas tudo isso com a autorização prévia da Entidade incorporada no
momento.


          Funções do Cambono antes e durante os trabalhos:

- Levar todo material da Entidade para seu respectivo lugar no terreiro (Como por exemplo: pemba, velas, ponteiros, bebida, fósforo, tabua, charutos, palheiros, cigarros, ervas, e eventuais outros materiais).

- Servir a Entidade em tudo que ela precisar dentro das regras da Umbanda e da casa.

- Não deixar de ouvir, mesmo que por solicitação do consulente, as consultas feitas às Entidades e as respostas por elas dadas. Em caso de determinação da Entidade para se afastar durante uma consulta, avisar imediatamente o Pai de Santo ou a Entidade que nele estiver incorporada.

- Durante a vibração, ficar atento à Entidade e ao trabalho que ela realiza, sem contudo ser necessário ficar ao lado da Entidade, a não ser que a mesma solicite.

- Conversar com a Entidade quanto ao número de consultas e o tempo disponível.


            As Funções dos Cambonos após os atendimentos:

Sempre conversar com a Entidade, pedindo orientações quanto ao destino das sobras de materiais utilizados.

- Levantar o ponto riscado da seguinte forma: Retirar ponteiros (caso houver), assim também com as velas e outros materiais do ponto, e jogar cachaça sobre o ponto riscado, em forma de cruz, e com as mãos, apagar o ponto riscado. Depois pode retirar do local e limpar na torneira da pia com água.

- Guardar e recolher o material, deixando o local limpo.


Algumas orientações gerais:

- Ao se locomover pelo ambiente onde está sendo firmado trabalhos de corrente, dando passes magnéticos ou consultas entre Entidade e consulente, não atravessar na frente ou ficar costurando passagens entre as firmezas. Evite bater em médiuns, derrubando velas, pisando em pontos.

- Ao afastar-se da função, seja por um período ou não, auxiliar o novo Cambono, passando orientações a respeito do trabalho com as Entidades.

- Não aproveitar-se da função para fazer consultas em nome de parentes, amigos, sobrecarregando o trabalho das Entidades. Desejando falar algo particular aguarde o momento final, e peça a autorização do Pai de Santo ou da própria Entidade.

- Qualquer dificuldade em orientar os consulentes, pedir auxilio ao Pai ou Mãe Pequenos ou mesmo ao Pai de Santo, não tente resolver um problema que não faz parte da ossada de sua função.

- Não atrapalhar o encerramento dos trabalhos levantando o ponto ou guardando os materiais.

- Durante a abertura e encerramento dos trabalhos, todos devem estar na corrente.

- Não ficar com conversas fora dos trabalhos com a assistência, não se deve ´parar os trabalhos nem a concentração para cumprimentar algum consulente, mesmo que seja amigo de longas datas, quando esse chega ou se retira do terreiro, afinal estamos ali em uma missão religiosa não numa festa de confraternização.


    Muitos médiuns acham que o Cambono é algo inferior dentro de um terreiro, que seu trabalho pode ser substituído por qualquer pessoa. Pois não é, o Cambono é extremamente necessário para o bom caminhar de toda uma Gira. Basta dizermos que por muitas das vezes uma Entidade de Luz entrega toda a confiança a seu Cambono, falando-lhe e ensinando-lhe milhares de coisas, que um médium um tanto mais distante dos afazeres dentro de um terreiro nunca aprenderia se não passasse por um bom tempo como Cambono.

Portanto o trabalho do Cambono é tão importante quanto ao do médium e Entidade.

    A responsabilidade mediúnica do cambono é tão importante quanto a de qualquer outro médium.

    O médium que camboneia, não atrapalha seu desenvolvimento. A experiência como cambono lhe é importantíssima no aprendizado.


    Então que nosso Pai Oxalá, todos nossos Orixás e nossas Entidades de Luz abençoem e protejam todos nossos Cambonos, para que assim possamos seguir tranquilamente com nossas Giras para que possamos ser abençoados também.

Um Salve especial a todos os Cambonos de nossa amada Umbanda de Luz.

Carlos de Ogum

quinta-feira, 14 de agosto de 2014 150 comentários

ENTENDENDO O QUE SÃO PONTOS RISCADOS NA UMBANDA.

  Entendendo o Que São Pontos Riscados na Umbanda.


    A Umbanda tem muitas coisas que pode nos passar despercebidas, mas
que tem extrema importância para o ritual tão maravilhoso voltado a
caridade dessa religião divina.

    E uma dessas coisas são os Pontos Riscados.

    Mas o que seriam Pontos Riscados, quais os seus significados, qual
a sua representação?

    Abaixo vamos colocar resumidamente um pouco dessa demonstração de
várias coisas para todos os Umbandistas.


    Pensando da forma do ser humano, do ser físico poderemos colocar
da seguinte forma:

    Uma pessoa tem identificações no caminhar de sua vida,
identificações documentadas que representam o ser alguém.

    Como poderemos usar como exemplo, o nascimento de uma pessoa, logo
teremos a sua primeira identificação documentada, que seria a sua
certidão de nascimento, e a partir dai teremos, carteiras de
estudante, carteira de motorista, certidão de casamento, carteira de
identidade (RG), CPF entre outras identificações da pessoa, e assim
quando chegarmos em um local que não somos reconhecidos fisicamente,
apresentamos nossa documentação para que possamos ser vistos como o
ser eu, e não sermos confundidos com um outro alguém.

    Bem, isso na Umbanda, dentro de uma gira, na chegada de uma
Entidade de Luz, estando incorporada em um médium, a Entidade faz com
que ela seja reconhecida, e para isso usa-se o Ponto Riscado, que a
grosso modo é a identificação da Entidade de Luz para seus
consulentes. Para assim ser demonstrado que quem está ali é realmente
uma Entidade de Luz e não um Espirito sem luz tentando enganar o
consulente e o próprio médium.

    Esses Pontos Riscados são constituídos de riscos e símbolos
gráficos, e as Entidades de Luz se servem deles para tal
identificação.

    Eles normalmente são traçados ou riscados em tábuas ou no próprio
chão. Essas ditas tábuas podem ser de madeira ou até mesmo em
mármore, e são feitos com uma espécie de giz, que na Umbanda se da o
nome de Pemba.

    Essas pembas podem ser de várias cores, e a Entidade usa a cor
determinante a linha que trabalha e ao Orixá que a rege.

    Essas Entidades se utilizam de símbolos como: Sóis, Estrelas,
Luas, Flechas, Arcos, Lanças, Triângulos, Folhas, Raios, Ondas, Cruzes
entre outros.

    Pode não parecer, mas os Pontos Riscados são os instrumentos dos
mais poderosos dentro da Umbanda, pois uma vez sem ele, nada se
poderia ser feito com segurança, uma vez que é com a Pemba que se tem
o poder de fechar, trancar e abrir os terreiros conforme seja a
exigência determinada do trabalho que será praticado.

    É também através do Ponto Riscado que uma determinada Entidade de
Luz demonstra a sua graduação hierárquica, na qual também mostra toda
a Falange de trabalhadores, que a suas ordens trabalham em prol a
caridade e auxilio num trabalho que foi determinado ou pedido por
alguém que necessita de uma ajuda espiritual.

    Os Pontos Riscados nos demonstram, se a Entidade é um Preto Velho,
um Caboclo, um Exú ou qual for a Entidade presente, essa demonstração
nos é dada através da grafia, dos símbolos utilizados, e ainda ´por
esse meio poderemos identificar qual seria o Caboclo, ou o Preto Velho
ou qualquer Entidade de Luz manifestada no médium.

    Os Pontos Riscados são extensos códigos registrados, firmados e
sediados no plano espiritual, e cada um deles tem sua função
específica.

    Normalmente somente os Pais de Santos, realmente preparados, ou a
Entidade firmada que sabem identificar com certeza e segurança, qual a
Entidade de Luz riscou o ponto, da mesma forma em dizer com segurança
qual Falangeiro de Orixá está na incorporação no momento a trabalho da
caridade.

    Através do Ponto Riscado se pode dizer e confirmar a identificação
da Falange da Entidade, também seus poderes e suas atividades.

    Cada linha e traço tem seu significado e muita importância no
Ponto Riscado pela Entidade, portanto não se pode ser riscado por
alguém  não preparado, sem conhecimento devido, ou por alguém que não
seja a Entidade de Luz atuante. Caso não for dessa forma, o que será
feito não passará de apenas riscos e rabiscos, sem a menor
importância para as regras da Religião de Umbanda, a segurança de
suas Giras, e a demonstração de suas Entidades.

    Conforme dito acima, os Pontos Riscados são traçados pelas Pembas,
e essas Pembas são uma espécie de giz, elas são confeccionadas com
calcário, ela tem uma forma cônica arredondada e diversas cores.

    A Pemba é dita dentro da Umbanda que é um elemento puro, e ´por
essa pureza é um dos poucos elementos que pode tocar na cabeça do
médium, sendo ela utilizada para as lavagens de cabeça, assim como
também em banhos de descarrego entre outras coisas.



    Abaixo vamos deixar alguns exemplos de Pontos ou Representações
dos Orixás na Umbanda.


- OXALÁ: Tudo que representa a presença de Luz. (Sol, por exemplo).

- OGUM: A espada, a lança, a bandeira usada pelos cavaleiros, vários
instrumentos de combate.

- XANGÔ: O machado.

- OXUM: A lua, o coração, etc.

- IANSÃ: A taça e o raio.

- Ibeijada: Carrinhos, pirulitos, brinquedos em geral, bonecos e
palhaços, etc.

- IEMANJÁ: A estrela, a âncora, as ondas, etc.

- OXOSSI: A flecha e o arco.

- NANÃ: O Íbíri (um feixe de ramos de folha de palmeira com a ponta
curvada e enfeitado com búzios) ou chave.

- OBALUAIÊ/Omulú: O cruzeiro das almas.



    Também temos outros significados dos Pontos Riscados, assim como
descrevo abaixo:

- Um Ponto: o Ser Supremo, a origem.

- Uma Linha Reta: o Mundo Material.

- Duas Linhas Retas: o Princípio de tudo , o Masculino e o Feminino.

- Uma Linha Curva: a Polaridade.

- Dois Traços Curvos: as duas polaridades - positiva e negativa.

- Um Triângulo de Lados Iguais: a Força Divina - Pai, Filho e Espírito
Santo - Santíssima Trindade.

- Dois Triângulos (Hexagrama): Estrela de seis pontas - todas as
Forças do Espaço.

- Um Quadrado: os 4 elementos (Água, Terra, Fogo e Ar).

- Um Pentagrama: a Estrela de Davi e o Signo de Salomão - a Linha do
Oriente, Oxalá, a Luz de Deus.

- Três estrelas: também podem representar os Velhos e as Almas.

- Círculo: o Universo, a Perfeição.

- Um Círculo com Dois Diâmetros Entre Si: o Plano Divino, o
Quaternário Espiritual.

- Círculos Menores e Semicírculos: as fases da lua (símbolo de
Iemanjá), forças de luz, inclui Iansã.

- Círculo com Estrias Externas: o sol (símbolo de Oxalá).

- Espiral - para fora: indica chamamento de força, retirando demanda
ou irradiação de Boiadeiro.

Seta Reta ou Curva e Bodoque: - irradiação de Oxossi (caboclo).

- Balança, Machado ou Nuvem: símbolos de Xangô e do Oriente.

- Raio (condições atmosféricas): símbolo de Iansã.

- Espada Curva reta ou inclinada: símbolo de Ogum.
Também é símbolo de Ogum a Bandeira Branca com Cruz Grega Vermelha .

- Flor ou Coração: símbolos de Oxum.

- Coração com uma Cruz no Interior: símbolo de Nanã.
Também é símbolo de Nanã os Traços Pequenos na Vertical (chuva).

- Folhas ou Plantas: símbolos de Oxossi ou Pretos velhos.

- Tridentes: símbolos para Exú e Pombo Gira. Se utilizam garfos curvos
para a Calunga, e garfos retos para a Rua, (Pode haver ou não
caveira). Também se utiliza para diferenciar entre o masculino do
feminino da seguinte forma, tridentes curvos para determinação do
feminino e retos para o masculino.

- Cruz Latina Branca: Cruz de Oxalá.

- Cruz Grega Negra com pedestal: símbolo de Omulú.

- Arco-íris: símbolo de Oxumaré.

- Estrela Branca (Oriente): Luz dos espíritos.

- Estrela Guia (com cauda): símbolo da capacidade de acompanhamento
(Oriente).

- Um Oito Deitado (Lemniscata): símbolo do Infinito.

- Cordão com Nó ou um Pano: símbolo das crianças.

- Conchas do Mar: símbolo das crianças na irradiação de Iemanjá, ,
Oxum e Nanã.

- Águas Embaixo do Ponto: símbolo de Iemanjá (mar).

- Pequenos Traços de água: símbolo de Oxum.

- Traço ou Linha Curva com Círculo nas Pontas: símbolo de força, e
descarregos.

- Rosa dos Ventos: chamada de força ou descarrego.

- Palmeiras ou Coqueiros: força dos Velhos ou Baianos.

- Traço com Três Semicírculos nas Pontas: descarrego e força  a
necessitados

Traço com uma entrada e duas saídas (como uma letra Y): Símbolo de
Preto Velho, provavelmente um mentor da coroa de um médium,
demonstrando que caminhos tem opções para a evolução.


    Esses exemplos não devem ser levados a uma determinação de que
tenhamos o entendimento concreto em relação as identificações,
avisos, falangeiros, linha ou trabalho de uma determinada Entidade de
Luz, isso deve ser feito apenas por pessoas preparadas, no caso um Pai
de Santo, ou pelas próprias Entidades de Luz. Esses exemplos dados
acima foi um pequeno estudo, e nesse caso só serve apenas para
ilustrar nosso texto, não sendo assim determinante para que ninguém
que não seja qualificado e preparado fique tentando decifrar os
"códigos" dos Pontos Riscados de nossas queridas Entidades de Luz.

    A melhor coisa a se fazer quando estamos curiosos sobre um
determinado traço ou símbolo de um Ponto Riscado, não é tentar
adivinhações, e sim indagar com a Entidade em questão o significado de
que ela está querendo nos demonstrar.


    Só gostaria de deixar bem frisado para finalizar que é através do
ponto riscado que os guias contam toda sua história, sua origem e
passagem do mundo material e astral.

    Uma das grandes provas de incorporação na Umbanda é o ponto riscado,
com toda a certeza  que se um médium não estiver realmente bem
incorporado ele não saberá riscar o ponto que identificaria com
segurança a origem, o nome, a linha e tudo mais relacionado a Entidade
que esse médium estava disposto a demonstrar a seus consulentes.

    Portanto a honestidade é essencial num trabalho de caridade dentro
da Religião de Umbanda, na demonstração dos Pontos Riscados, para que
assim as pessoas que estão em busca de ajuda não sofram nas mãos de
espíritos sem luz, que possam estar tentando se passar por uma
Entidade de Luz, ou mesmo o médium não passe vergonha em meio a seus
companheiros, caso o Pai de Santo seja bem preparado, e venha anunciar
que o médium em questão está apenas fazendo riscos e rabiscos sem
noção e sem nexo, não deixando que a Entidade de Luz se aproxime e
descreva, através de seu Ponto Riscado, quem ela é, de qual linha
pertence, e todas as outras informações ´preciosas que o Ponto Riscado
possa nos fornecer.

    Então vamos ser honestos com nossas Entidades de Luz, com nossos
consulentes, com nossa Umbanda Sagrada e principalmente conosco.

    Saravá Umbanda, salve todos os Pontos Riscados.

Carlos de Ogum.













terça-feira, 5 de agosto de 2014 87 comentários

A HISTÓRIA DE PAI ANTERO.











    A História de Pai Antero.

Saravá o Pai Antero!

"Pedi licença Mamãe Oxum, pedi licença para Pai Oxalá, pedi licença ao
Senhor do Bomfim para Pai Antero vir trabalhar.

    Quem vem lá, é de lá, quem vai chegar e encontrar, é um boiadeiro
bondoso, é Pai Antero que vem saravar."

    Vamos fazer um resumo da história dessa grande Entidade de Luz
chamado de Pai Antero, frisando que estaremos falando do Pai Antero
da Encruzilhada, no qual é uma Entidade que tenho o prazer imenso de
poder trabalhar em prol da caridade.

    Pai Antero é um Preto Velho que faz sua caridade nos terreiros de
Umbanda, uma Entidade de poucas palavras, muito sensato, de fala
pausada e pensamentos rápidos.

    Ele tem uma característica diferenciada da maioria dos Pretos
Velhos, que é ficar ereto, enquanto a maioria de nossos Vovozinhos
chegam bem curvados.

    Pai Antero tem uma ligação grandiosa com o Povo da Esquerda, no
quais estão sempre a trabalho da caridade por intermédio desse grande
Preto Velho.

    Ele em sua vida terrena foi condutor de boiadas nas fazendas
pecuaristas e cafeeiras entre a região sudeste e sul do Brasil.

    Filho de negros escravizados, traficados da África, ele nasceu no
Brasil, dentro de uma senzala da fazenda na qual viveu toda sua vida.

    Na infância já demonstrando um dom especial junto aos animais,
logo foi conduzido pelos boiadeiros da fazenda a trabalhar junto a
grandes boiadas.

    O dom referido de nosso Pai Antero, era conseguir entender os
animais, fazendo assim que mesmo o mais feroz animal, ficasse dócil e
se deixasse conduzir pelo nosso incrível Antero.

    Por várias oportunidades ele teve que demonstrar esse dom, sendo
com touros indomáveis, sendo com serpentes venenosas e traiçoeiras ou
sendo com qualquer animal que por ora atacava os trabalhadores da
fazenda.

    Ele com apenas o olhar amansava o animal, e por outras vezes com o
toque de suas mãos faziam esses ferozes animais até adormecerem.

    E isso deixava todos da fazenda e arredores perplexos, fazendo
assim ser conhecido por muitas e muitas regiões, levando a muitos
fazendeiros oferecerem altos valores na compra como escravo, que não
acontecia pois o fazendeiro cafeeiro e pecuarista que se vangloriava
ser dono do negro Antero, dizia que poderia alugar seu escravo, mas
vender nunca. Fazendo assim uma grande corrida dos fazendeiros dos
arredores para a tentativa de alugar o negro por alguns dias, para que
assim pudessem, não só se utilizar dos serviços dele como boiadeiro
eficaz, mas também poderem observar o uso do seu dom.

    E numa dessas idas e vindas a uma dessas fazendas da região, foi
que aconteceu a grande e triste história de Antero.

    Um fazendeiro muito rico, com grandiosas boiadas sabendo da fama
de Antero, foi ao encontro dele e o alugou para que ele pudesse domar
alguns touros extremamente violentos.

    Ele foi para a fazenda, ficou em seu trabalho por alguns dias, e
encantou a todos com sua nobreza no que se diz domesticar animais.

    Esse fazendeiro, homem de pulso fraco, que só colocava seu nome
nos fatos da fazenda, pois quem dava todas as ordens e coordenadas
era a sua esposa, uma sinhá ainda jovem e bonita, mas extremamente
maléfica com todos que a rodeavam.

    Ela não tinha a mínima dó dos seres escravizados, dos feitores e
capatazes da fazenda, do seu marido e nem dos filhos. Por qualquer
motivo, até mesmo por um escravo a olhasse, esse escravo já ia para o
tronco, e lá levava chibatadas até que ela resolvesse que deveria
sair. E isso levava horas e horas, até dias.

    Essa sinhá, ao observar Antero em seu trabalho ficou encantada.
Achara que aquilo era mágico, um poder que nunca imaginara que pudesse
conhecer.

    E maior foi o seu encantamento pelo grande negro boiadeiro, quando
uma vez grávida, prestes a dar a luz, sentindo grandiosas dores sem
que um grupo de parteiras da fazenda conseguissem dar prosseguimento
ao nascimento da criança, teve a ajuda de Antero, após ele saber do
que estava ocorrendo dentro da casa grande, e pedir humildemente a
autorização para ajudar a sanar as dores e uma possível perda da
criança, pois as parteiras que já tinham feito de tudo para realização
do parto, já estavam a espera do pior, que seria do desencarne da
sinhá e de seu pequeno ser, que teimava em não nascer.

    A sinhá, em momentos de desespero e agonia, então autorizou a
entrada do negro Antero, pois para ela seria a ultima oportunidade,
sabendo-se que seu marido não chegaria a tempo para poder a conduzir
ao arraial mais próximo para ir ao encontro de um doutor médico, pois
estava nas andanças e negociatas de terras em outra região.

    Antero, olhava fixamente para a sinhá, como se estivesse em um
transe, colocando suas mãos sobre o ventre dela, fazendo uma oração de
apelo aos Orixás, que a luz de todos eles caíssem sobre aquele corpo,
e a fizessem ter forças para aguentar os instantes finais do parto.

    As dores foram se acalentando, uma calmaria se estabeleceu nos
olhos da sinhá, que ao se relaxar, deu a oportunidade da criança vir
ao mundo.

    Com todo esse fato, naturalmente Antero ficou muito mais visível
aos olhos da sinhá, que em todas as oportunidades o trazia para os
trabalhos com relação aos animais da fazenda.

    O tempo foi passando, e com as demonstrações do dom de Antero por
muitas e muitas ocasiões diante o domínio que tinha nos animais, desde
o mais manso até o mais indomável, a sinhá determinou a si própria que
queria dominar o poderoso negro que tinha tal poder.

    E por isso decidiu que queria o escravo nas suas mais entimas
intenções de mulher. Não pelo prazer carnal, mas pelo prazer de
conduzir um desejo sobre um ser que tinha um dom imaginável.

    E assim foi feito, ela com seu poder de senhora da fazenda, com
seu ar de prepotência e superioridade, querendo demonstrar que ela
poderia ter mais poder do que qualquer um naquela fazenda, se deitou
com o negro escravizado.

    Só que ela não esperava que poderia engravidar, mas assim
aconteceu. Nascendo uma menina mestiça, fazendo que todos descobrissem
seu deslize.

    Ela com sua prepotência, seu poder de conduzir e dominar todas as
situações, conseguiu fazer com que o marido, já um tanto adoentado,
aceitasse tal fato.

    A menina foi crescendo, e se tornando a cópia da sinhá em relação
as intenções de maltratar as pessoas, inclusive aos escravos.

    Antero após mais umas vindas na fazenda para fazer seu trabalho de
doma, acabou por saber da criança mestiça, E logo concluiu que era sua
filha com a sinhá.

    Por muitas vezes ele tentou se aproximar, sem ter a mínima chance,
pois a sinhá tinha dado ordens expressas de nunca deixarem que ele
chegasse a falar com a menina mestiça.

    E ao retorno a sua fazenda de origem, ele passava dias e noites
pensando na pequena menina, querendo ao menos uma vez poder abraçá-la,
mesmo sem nunca dizer a verdadeira origem dela.

    Em uma determinada ocasião, Antero novamente foste alugado para a
realização de trabalhos de doma dos animais da fazenda na qual sua
filha com a sinhá crescia. E nisso ficou sabendo que a menina mestiça,
já com seus 10 anos de idade, era influenciada por sua mãe, a sinhá
que gostara de mostrar sua força e seu poder mandando açoitar os
negros escravizados, a fazer exatamente igual.

    A pequena mestiça fazia da maneira ensinada pela sinhá, a
maltratar os negros, a insultar os irmãos e  deixar desnorteado o
homem que estaria no lugar de seu pai, com palavras agressivas,
sempre com o aval da sinhá.

    Antero sabendo de todos esses fatos em suas idas e vindas a
fazenda, decidiu que deveria alertar a filha, que esse caminho
ensinado pela sinhá, era algo errado, que não poderia agir da maneira
que a levaria contra as leis de Zambi (Deus), de Pai Oxalá e de todos
os Orixás.

    E assim ele tentou, chegando junto a filha mestiça, sem falar que
era seu pai, disse-lhe sobre as coisas feitas por ela, que os caminhos
eram errôneos, que deveria tentar modificar esse modo de desejar
demonstrar poder, um poder que só existia na mente da sinhá, sua mãe.

    A menina, sem compreender os ensinamentos de Antero, e induzida
pela sinhá, não aceitou que um negro lhe falasse tudo aquilo, achando
que ele a tivesse faltado com respeito, mandou que os capatazes o
levassem ao feitor da fazenda, mandando açoitálo.

    Isso aconteceu pelo restante da tarde e por toda a noite, deixando
o negro Antero deveras muito machucado fisicamente, mas nenhuma dor
física foi tão intensa e tão grandiosa quanto a dor de saber que
estava ali, no tronco sendo açoitado a mando de sua filha mestiça.

    A partir desse dia Antero não mais voltou a fazenda, ficando
voltado a seus afazeres, suas orações e seus desabafos com os amigos
Benedito, e Pai José, juntamente com a sua orientadora e madrinha, a
velha e experiente negra Joaquina, que o elevava a fazer o bem a todos
que precisavam de seu dom e de sua fé demonstrada na forma de orações
e benzeduras.

    Isso durou até Antero ficar sabendo dos acontecimentos trágicos
ocorridos na fazenda vizinha. Acontecimento esse que faria com que
nosso grande guerreiro ficasse ainda mais abalado por estar distante
da sua filha mestiça.

    Em uma certa tarde de primavera, a menina mestiça andava por entre
as flores da fazenda, quando ouve um estouro por entre a boiada, que
era tocada por um dos negros da fazenda. Sendo praticamente impossível
manter a ordem entre a boiada, coisa que Antero fazia apenas com o
olhar e usando o seu dom de domínio sobre os animais, quando ocorria
essas situações, mas como ele não estava ali toda a manada ficou
desgarrada e desorientada, partindo para cima da menina mestiça com
toda a violência.

    E assim após a poeira baixar, se pôde ver os olhos assustados  dos negros,
feitores e capatazes fintando o corpo inerte da pequena sinhá mestiça
deitado ao chão e pisoteado pela boiada desgarrada que acabara de
passar por ali sem destino.

    A sinhá, mãe da mestiça, jogando-se ao chão empoeirado da fazenda,
aos gritos de lamentação, não acreditava no ocorrido, ficando a partir
desse dia com um retardo mental nunca mais solucionado.

    Antero por sua vez, culpando-se por não estar no momento crucial
na fazenda, tinha uma dor enorme dentro do peito, a dor de saber que
poderia ter salvo a sua filha da morte, sabia que seu dom era crucial
para modificar a história final da pequena  filha mestiça.

    Com isso ele se fechou em si próprio, já não mais procurava os
amigos para seus desabafos, já não buscava forças para continuar sua
caminhada, já não mais desejaria ter seu dom.

    E foi nesse ponto de desesperança que o velho Antero, negro
escravizado e boiadeiro, teve a benção cedida por Zambi e levada pela
luz de um outro negro, que tinha como missão levar esperanças a seus
irmãos negros. E foi o Preto Velho Rei Congo, já como Entidade, que
leva ao encontro de Antero, o espírito de sua filha mestiça.

    Isso acontece em uma noite bem iluminada pela lua cheia, de céu
estrelado e brisa leve. Dentro de sua choupana, Antero pensativo e sem
motivos para sorrir, tem uma visão com a imagem do Preto Velho Rei
Congo, que lhe diz:

"Irmão Antero, sua missão não acabou. Você terá uma longa jornada de
caridade. E para que você prossiga nessa caminhada, será preciso que
você perdoe e se deixe perdoar por alguém."

    Antero se levanta indo ao encontro do protetor dos negros,
ajoelha-se e com os olhos mareados, já sabendo o que estaria por vir
naquele momento, agradece a oportunidade que estava recebendo.

    E diante de seus olhos aparece a imagem de sua filha mestiça, que
com um largo sorriso e lágrimas a escorrer pela face, estende as mãos
a ele, pedindo perdão por tê-lo feito sofrer tanto. Ela se ajoelha e
chorando se desculpa pelo dia que mandou levá-lo ao tronco, e que a
cada chibatada que ele recebera, ela deveria pagar em dobro.

    Antero então abraça a filha pela primeira vez, e diz a ela que a
perdoara por tudo, mas precisaria do perdão dela por não ter estado no
momento de seu desencarne, achando ele que com seu domínio sobre os
animais ela poderia ter maiores chances de sair ilesa do ocorrido.

    A menina sorri para ele e diz:

"Se é disso que precisa para continuar vossa caminhada rumo a luz e a
caridade. Eu perdoou o senhor, meu Pai."

    E assim ela se despediu, voltando ao caminho que deveria seguir
rumo a evolução.

    Antes de partir, Rei Congo diz a Antero:

"Meu filho, agora volte a suas orações, espalhe a caridade, trabalhe
para o bem de seu semelhante. E guarde com você esse cajado."

    E então Rei Congo ´dá um cajado de madeira a Antero, cajado esse
que foi preparado para trabalhos espirituais, nele poderia se
encontrar toda a força da caridade, da fé e do dom de Antero. Cajado
no qual ele deveria usar sempre para o bem, sempre para ajudar a quem
necessitava,, nos momentos mais difíceis que pudesse passar, nas
desobsessões e descarregos mais complexos, pois nesse cajado além de
estar toda o dom dele, estaria também toda a força dos Orixás, toda as
forças das Almas Benditas e todas as forças do povo da encruza.

    Antero viveu na fazenda até seu desencarne, ocorrido quando com
seus 70 anos, dentro dos currais de adestramentos de cavalos baios,
enquanto ensinava aos novos negros a arte de montar e dominar os
animais. Ele sentado, de olhar sério, ao lado da grande porteira,
simplesmente fecha os olhos e parte para uma nova jornada de
evolução, só que dessa vez, a evolução espiritual sendo uma Entidade
de Luz.

    Com seu olhar sério, poucos sorrisos, fala mansa, pausada ele é um
dos mais respeitados Pretos Velhos da linha da Encruzilhada. Pai
Antero da Encruza, trabalha hoje firmemente nos terreiros de Umbanda,
levando ensinamentos, luz, abrindo caminhos, encaminhando espíritos
sem luz, descarregando e desobsediando os filhos que procuram por ele.

"Pai Antero Negro Boiadeiro, Lá Do Grande Sertão, Ele É Bravo
Guerreiro, Sempre Me Estendendo A Mão."

Palavras De Pai Antero: "Seja Persistente Em Suas Metas, Não Deprima
Pela Não Realização, Tudo Tem Sua Hora E Momento."

    Saravá Meu Pai Antero da Encruza.

    A sua Benção!


Carlos de Ogum.










 
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