quinta-feira, 30 de outubro de 2014 40 comentários

A UMBANDA E O SINCRETISMO COM O CATOLICISMO.





  A Umbanda e o Sincretismo com o Catolicismo.


    Todos os Umbandistas, sejam eles filhos de algum Terreiro ou sejam
apenas consulentes ou da assistência, com toda certeza já ouviram falar
a palavra "sincretismo".

    Mas o que seria "sincretismo"?

    No dicionário  de língua portuguesa essa palavra é representada e
explicada da seguinte forma:

SINCRETISMO: fusão de diferentes cultos ou doutrinas religiosas, com
reinterpretação de seus elementos; - fusão de elementos culturais
diversos, ou de culturas distintas ou de diferentes sistemas sociais.
( Dicionário Houaiss)

Palavra originada do grego significa sistema que consiste em conciliar
os princípios de várias doutrinas ou filosofias; é a associação
                                                       
de valores espirituais de uma determinada religião com os valores
espirituais de outra determinada religião.

    No dicionário de Umbanda, sincretismo se define simplesmente
assim:

SINCRETISMO: - Fenômeno de identificação dos orixás com os Santos
Católicos.

    E dessa forma mais simples podemos notar que ao cultuar as imagens
de santos católicos, os Umbandistas cultuam na verdade seus Orixás.

    Mas porque teve que ser trazido essas imagens para os rituais de
Umbanda ?

    Vamos voltar um pouco no tempo para entendermos.

    Tudo se originou no tempo em que os negros eram traficados da sua
terra mãe África, trazidos para o Brasil em navios negreiros, onde
esses negros eram negociados e escravizados pelos senhores
escravocratas e fazendeiros cafeicultores de várias regiões.

    Como nessas regiões a religião predominante era a católica, esses
negros eram proibidos de exaltar a fé que tinham em seus Orixás, sendo
surrados e até mortos quando tentavam demonstrar sua fé nessa força da
natureza.

    Então esses negros se utilizavam da imagem de santos cultuados
pela Igreja Católica por um fato histórico cultural, na medida em que
os negros que chegavam ao Brasil como escravos, oriundos das diversas
tribos africanas, traziam em seu interior a crença nos Orixás, porém
não podiam manifestá-la pelo preconceito de seus senhores, que
consideravam tal culto heresia e feitiçaria.

    Na África, seu culto fazia-se com o contato direto com a Natureza,
cada Orixá sendo cultuado em seu elemento. O negro africano cultuava
sua crença através de seus Otás (pedra). Cada Orixá tem a sua pedra, e
a forma encontrada pelos negros escravos foi associar a imagem do
santo católico mais representativa da força desses Orixás, colocar
seus otás dentro destas imagens e reverenciar sua crença sem tê-la
reprimida por seus senhores. A partir desse momento, dava-se início ao
sincretismo dessas duas religiões, já que a correspondência de Santos
Católicos com os Orixás africanos era a única maneira dos negros
escravos escaparem dos castigos e perseguições dos seus senhores e de
religiosos que tentavam difundir o catolicismo, impondo a crença com
as suas representações católicas.

    Os Senhores achavam graça no sincretismo e, considerando os
africanos ignorantes, consentiam na prática bem disfarçada de seus
cultos. E assim, graças à inteligência dos sacerdotes africanos, as
suas antiquíssimas e sábias ideias religiosas puderam sobreviver até
hoje, apesar da intolerância de uma ou outra autoridade da lei
atrasada.

    Portanto encontramos até hoje, as casas de culto de Umbanda
utilizando-se dessa representação sincrética, não pela necessidade do
culto à imagem, mas sendo admitida pelos zeladores de santo para que
os filhos de santo e frequentadores da casa tenham uma imagem para
direcionar suas súplicas e pedidos já que para alguns, dirigir seus
pedidos a energias da natureza, forças oriundas do ar, da água, da
terra ou do fogo, é de difícil compreensão por seu componente abstrato
e impalpável.

    Enfim, não existe imagem representativa dos Orixás na Umbanda,
razão pela qual se permite a utilização dos Santos católicos nos
Gongás, havendo o respeito tanto ao Orixá representado pela imagem,
como respeito ao santo cultuado pela mesma.

    A Umbanda é um celeiro de fé e nela cabem todas as espécies de
crenças que possam nos levar ao objetivo maior de amor e caridade
pregado pelas nossas entidades.

    O africano não abandonou as suas crenças religiosas. Simplesmente,
procurou acomodar-se a situação e o processo mais inteligente foi
exatamente o de comparar as qualidades dos seus Orixás com as dos
Santos católicos. Tomaram como base o Santo mais adorado do lugar:
daí, algumas alterações verificadas no sincretismo, especialmente na
Bahia e no Rio de Janeiro, conforme descrevemos abaixo:

Na Bahia:

OXALÁ: Senhor do Bonfim.
OGUM: Santo Antônio.
XANGÔ: São Jerônimo.
OXOSSI: = São Jorge.
OMULÚ ou OBALUAIÊ: São Lázaro e São Roque.
LOGUM EDÉ: Santo Expedito.
OXUMARÊ: São Bartolomeu
OXUM: Nossa Senhora das Candeias e Nossa Senhora Aparecida.
IEMANJÁ: Nossa Senhora da Conceição.
IANSÃ ou OIÁ: Santa Bárbara.
NANÃ BURUQUÊ: Nossa Senhora Sant'Ana.

No Rio de Janeiro:

OXALÁ: Jesus Cristo.
OGUM: São Jorge.
XANGÔ: São Pedro ou São Gerônimo.
OXOSSI: São Sebastião.
OMULÚ Ou OBALUAIÊ:São Lázaro e São Roque.
OXUM: Nossa Senhora da Conceição.
IEMANJÁ: Nossa Senhora das Candeias, Nossa Senhora da Glória ou Nossa
Senhora dos Navegantes.
IANSÃ: Santa Bárbara.
NANÃ BURUQUÊ: Nossa Senhora Sant'ana.
IBEIJI: São Cosme e São Damião.
EXÚ: Santo Antônio de Pemba.

    O sincretismo se faz entre Divindades, assim, não há sincretismo
entre as Entidades, tais como Caboclos, Pretos Velhos ou Crianças,
ainda que seja comum vermos Pais Franciscos, Antonios, Ciprianos e
tantos outros, mas que nada têm de sincrético com os santos de mesmo
nome.

    A Umbanda apresenta sincretismo também com o Candomblé, não se
confundindo com esse, no entanto. Ambas são religiões com base em um
culto ancestral africano, com crença em Orixás africanos, mas cada um
encontra seu diferencial na forma de manifestação de sua crença.

    As datas de festejos aos Orixás dentro da Umbanda também são
representadas ´pelas datas que se homenageiam os Santos Católicos,
conforme descrevemos abaixo, frisando que estamos falando das datas
que seguimos no Rio de Janeiro:

Oxalá: 25 de dezembro. (Dia do nascimento de Jesus Cristo).
Ogum: 23 de abril. (Dia de São Jorge).
Xangô: 29 de Junho (Dia de São Pedro), e 30 de Setembro. (Dia de São
Gerônimo).
Oxossi: 20 de Janeiro. (Dia de São Sebastião).
Obaluaiê: 16 de Agosto (Dia de São Roque).
Omulú: 17 de Dezembro. (Dia de São Lázaro).
Oxum: 08 de Dezembro. (Dia de Nossa Senhora da Conceição).
Iemanjá: 02 de Fevereiro (Dia de Nossa Senhora das Candeias).
15 de Agosto. (Dia de Nossa Senhora da Glória).
Iansã: 04 de Dezembro. (Dia de Santa Bárbara).
Nanã Buruquê: 26 de Julho. (Dia de Nossa Senhora Sant'ana).
Ibeiji: 27 de Setembro. (Dia de São Cosme e São Damião).
Exú: 13 de Junho. (Dia de Santo Antônio de Pemba).

    E assim é dado o sincretismo entre a religião Umbandista e a
religião Católica. E para terminarmos esse texto, abaixo descreveremos
a definição de sincretismo feito pelo Caboclo 7 Espadas:

    "Fenômeno místico religioso que visa tornar inteligível um Culto
que possa ser praticado por vários povos ou grupos étnicos, que até o
momento tinham rituais e concepções diferentes. É um mal necessário,
pois se formos analisar profundamente o Sincretismo vamos ver que ele
faz com que vários Cultos se identifiquem em um só Culto (…)”."

    E com essa bela colocação e definição do Caboclo 7 Espadas,
terminamos pedindo a todos Umbandistas ou não para que respeitem
profundamente as imagens Católicas, fazendo delas o teor da fé nos
Orixás representadas por elas.

    Salve Pai Oxalá, salve todos os Orixás!

Salve Jesus Cristo, salve todos os Santos Católicos que emprestam suas
imagens para que possamos através delas cultuar  nossos sagrados Orixás.

Carlos de Ogum.


Obs.: Esse tema foi sugerido pelo nosso querido Cristyann de Oxossi.
Ogã e encaminhador do TUPOM.

Colaboração: Mariana de Oxum.






quarta-feira, 22 de outubro de 2014 88 comentários

A História de Pai Cipriano

                   

    "Cipriano Quimbandeiro, chorou no cativeiro. Hoje chora de alegria o Rosário de Maria. Chora, chora, saravando Angola..."


    Lá pelos meados do século XVIII, existiu um negro que foi
escravizado pelos senhores brancos, que era conhecido pelo nome de
Cipriano, o bruxo da senzala do sul.

    E por que levava esse nome?

    Cipriano foi escravizado na tenra idade, trabalhou nas roças de
café, cana de açúcar e trigo de sol a sol por longos e longos anos.
Contudo, a noite na senzala, ele se empenhava com os mais velhos em
aprender as magias, benzeduras e todas as coisas místicas  com todos
os negros mais velhos, que eram, cada um especialista em determinada
coisa desse gênero.

    E Cipriano, por ser extremamente dedicado ao que fazia, se apegou
em todas as formas de magia e benzeduras, aprendia um pouco com cada
um dos seus mestres negros.

    E foi assim que se tornou um grande benzedor e entendedor de
magias africanas, fazendo delas um ponto positivo para auxiliar a
todos que delas necessitavam, e que ele procurava ajudar com toda a
dedicação e carinho.

    Por esse motivo Cipriano ficou conhecido por toda região, como o
negro que retirava espíritos sem luz, que curava com suas magias, que
acalmava as dores com suas benzeduras, além de ser um dos mais
entendidos sobre ervas e suas benevolências.

    Nos dias de hoje Cipriano se apresenta como Entidade de Luz nos
terreiros de Umbanda, onde trabalha na linha das Almas, sendo um Preto
Velho muito solicitado pela sua atuação dentro do encaminhamento de
obsessores e quebra de magia negra.

    Ele quando chega ao terreiro, muitas pessoas parecem temer por
saber quem ele é, e o que ele representa na Umbanda. Muitos assemelham
esse Preto Velho com um bruxo, ou o senhor da cruz de caravaca, cruz
essa que se é utilizada pelos senhores da alta magia.

    Mas Pai Cipriano é apenas uma bela Entidade de Luz, que foi
abençoada por Deus, Pai Oxalá e todos os Orixás, para poder retornar
como Entidade para auxiliar os necessitados, e isso ele faz
extremamente bem.

    Uma característica desse Preto Velho e chegar nos terreiros de
Umbanda de joelhos, ou arrastando uma das pernas ou mesmo as duas, e
isso tem um motivo que faz parte de sua história na vida terrena,
ainda como escravo.

    Como foi dito nos meados do século XVIII , Cipriano era um negro
escravizado, mas extremamente respeitado pela fama que corria a
região, na qual dizia que ele era o bruxo das senzalas.

    Essa fama não só trazia respeito para Cipriano, mas também trazia
o carinho de seus irmãos negros, pois todos sabiam que além da fama de
bruxo, ele tinha outra fama, de sempre fazer o possível e o impossível
para auxiliar alguém que necessitava de sua ajuda, sendo nas magias e
benzeduras simples, como a mais alta magia que por mais complicada e
difícil de ser realizada, se fosse para curar, sanar mazelas,
retirar obsessores, ou qualquer coisa que necessitasse da sua ajuda
ele o faria, sem temer obstáculos.

    Dentro desse pensamento, certa vez ele foi solicitado pelos pais
de uma criança negra, que se esvairia em sangue, numa hemorragia sem
motivo físico. Os seus pais desesperados sem condição de procurar
ajuda como sanar aquela hemorragia de seu pequeno filho, pois ao
pedirem desesperadamente ajuda aos feitores, foram ameaçados de serem
levados ao tronco.

    Diante do fato gravíssimo, um dos negros se lembrou das bruxarias
e benzeduras que Cipriano fazia, e ao falar aos pais da criança,
foram imediatamente pedir ajuda ao negro.

    Cipriano foi até a criança, que nesse momento já estava com a
respiração pesada, olhos cerrados e perdendo sangue por entre
orifícios.

    Cipriano, com galhos de arruda, guiné e benjoim, fez uma
benzedura, fazendo com que a respiração da criança se acalmasse, e
assim ele colocou as mãos abertas no peito do menino, fechou os olhos,
como se examinasse a criança espiritualmente.

    Após alguns minutos em um transe profundo, Cipriano é jogado ao
chão por uma força descomunal, que vinha do corpo da criança. Essa
força invisível, faz com que Cipriano acordasse do transe, não
deixando com que ele terminasse o tratamento espiritual sobre o
menino.

    Novamente ele tenta, e novamente acontece a mesma coisa. E nessa
segunda tentativa ele pressente que ali existe muito mais que uma força
que não aceita que ele tentasse curar a criança, mas algo demoníaco
que obsediava o menino, tentando tomar conta de seu espírito ao ponto
de induzi-lo a que sua alma o seguisse a escuridão eterna.

    Ao sentir que a mazela do menino negro não era apenas um mal
físico, Cipriano se fechou em oração junto a Pai Oxalá e aos Orixás,
nos quais ele tinha extrema fé. Dali ele tem uma visão das ervas que
deveria utilizar para um banho que levaria aquela força do mal para
longe do menino, e assim poderia, com sua benzedura e magia fazer com
que ele tivesse êxito na cura do corpo físico, já tão debilitado.

    Cipriano diz aos presentes que ficassem em oração, pois ele teria
que ir as matas fechadas, em um local único, para apanhar as ervas e
assim dar continuidade a cura do menino. E assim foi feito.

    Cipriano se embrenhou pela mata, seguindo o caminho que lhe foi
indicado por meio de visão espiritual. Cada vez mais distante da
fazenda na qual estava a criança, Cipriano via a mata se fechando cada
vez mais, chegando ao ponto de certos lugares ele ter que passar
totalmente abaixado.

    Enfim ele encontra o local indicado pela suas visões e no local
todas as ervas necessárias para fazer o banho, o chá e as benzeduras
para salvar a vida da criança.

    Após recolher todas as ervas que necessitava, Cipriano tenta se
apressar para chegar em tempo de salvar a pequena criança. E ao se
embrenhar na mata novamente, ele sente que estava sendo observado, e
logo em seguida consegue ver por quem. Um enorme vulto negro, rodeado
de menores vultos da mesma negritude, começam a ficar ao seu redor
tentando fazer com que Cipriano perdesse o rumo do caminho de retorno.
Como ele se fixou no caminho, sem se deixar a ser induzido pelos
maléficos vultos, continuou a caminhar, deixando assim o grande vulto
negro com mais ódio ainda.

    O grande vulto negro passa novamente por Cipriano, fazendo menção
de ataque. E como novamente Cipriano não se deixou abalar, o vulto
maior e negro reúne os demais comandados do mal tentando novamente
atormentá-lo. E enquanto os menores vultos vinham de todos os lados
para cima de Cipriano, o vulto maior segue até um covil de cobras,
fazendo com que a mais venenosa das serpentes ficasse em posição de
bote para atacar o negro quando passasse por ali.

    E assim aconteceu, Cipriano foi atacado pela venenosa serpente, um
ataque rápido e certeiro em sua perna esquerda, fazendo com que ele
caísse já delirando de tanta dor pelo veneno que se espalhava.

    Nesse instante Cipriano se lembra do pequeno menino, que era
tomado pelos espíritos do mal, e ele se fechou em oração pedindo aos
Orixás força para conseguir chegar a seu objetivo e assim curar a
criança.

    Com sua fé grandiosa, juntamente com uma vontade descomunal,
Cipriano busca forças, e olhando ao redor, nota que já não está mais
sendo ameaçado pelos vultos negros. Desse momento em diante ele se
arrasta por meio da mata fechada, junto ao chão e as folhas e raízes
que se sobressaiam por todas as fendas da terra.

    Cada vez mais cansado, com dores terríveis, já não sentindo suas
pernas, uma pelo veneno da serpente e a outra pelo esforço extremo de
levar seu corpo adiante, Cipriano desaba mais uma vez ao chão.

    Ele olha para o céu, clama por misericórdia, com olhos
lacrimejados tentando buscar na sua fé a força que necessitava para
seguir o caminho de volta.

    E nesse momento uma luz muito forte aparece diante de seus olhos,
e dessa luz vem uma voz forte, mas serena, que lhe disse:

    "Cipriano, você tem nas mãos as ervas necessárias para acalentar sua dor física. Essas ervas podem curar sua perna ferida e envenenada pela serpente do mal. Basta pegar todas, e numa sequência esfregar uma a uma no local da picada, porém terá que usar todas as ervas que tens
em mãos nesse momento.
Sabendo disso, você não terá como salvar o corpo físico da criança da morte, e consequentemente também não terá como salvar o espírito desse menino da escuridão na qual ele está sendo levado pelos espíritos sem luz, que estão nessa constante busca por esse menino por ele ser um espírito puro e iluminado, que virá no futuro ser um grande aliado do bem contra obsessores e kiumbas.

    Você tem que usar seu livre arbítrio nesse momento, poderá usar as ervas para se curar, ou poderá arriscar sua vida e seguir em frente para salvar a vida e a alma do menino.

    Você poderia se curar e retornar em busca de mais ervas no localindicado, mas contudo não  teria tempo hábil para retornar a tempo de salvar a vida da criança."

    Ao fim dessas palavras a luz desapareceu da mesma maneira que
apareceu. Cipriano cerra os olhos, e os abre lentamente, olhando seu
embornal com as ervas. Olha também para suas pernas, a esquerda já com
um grande edema, e a direita com feridas abertas por estar sendo
arrastada pelo terreno tão danificado.

    Cipriano fecha novamente os olhos, faz uma oração e segue seu
caminho, rastejando por entre as folhas caídas, indo ao encontro do
menino na senzala da fazenda.

    Durante longo tempo ele se rastejou, até que se deparou com a
pequena trilha que ligava a mata a fazenda. Que para ele foi um alívio
e uma vitória.

    Conseguiu chegar até a fazenda, e lá foi auxiliado pelos seus
irmãos negros a ir até a senzala onde estava a criança.

    Chegando diante do menino, Cipriano rapidamente se pôs a fazer
suas orações, suas benzeduras e suas mágicas curas por intermédio das
ervas que tinha em mãos. Delas também fez chás, e logo que se iniciou
o trabalho de cura física e espiritual do menino, já pôde se observar
uma melhora grandiosa.

    Quando Cipriano se aproximou do menino colocando suas mãos em seu
peito para dar continuidade a limpeza dos obsessores, o grande vulto
negro, visto na mata, apareceu diante dele, mas já sem forças, e foi
conduzido para longe dali e do menino para sempre.

    A criança se recuperou rápido, deixando os seus pais eternamente
agradecidos a Cipriano. Ele porém, após controlar o veneno que agia
maleficamente em seu corpo, ficou com as pernas sem movimento, a
esquerda pela picada da serpente, e a direita pelo esforço extremo que
foi obrigado a fazer para chegar até a fazenda.

    Pai Cipriano desencarnou com mais de 80 anos. E no dia de seu
desencarne, ele, sabendo que estava chegando seu momento de partir da
vida terrena, pediu aos negros que se reunissem em sua volta, e
juntos fizessem orações aos Orixás, para que o recebesse de braços
abertos, no local que Pai Cipriano chamava de "Paraíso dos Bruxos".

    Ao fazerem o que ele desejava, Pai Cipriano desencarnou nos braços
do menino negro, que nessa época já era um homem feito, que ele salvou
da morte e das garras de obsessores da escuridão.

    Esse menino cresceu com um respeito grandioso por Pai Cipriano,
tanto que ele seguiu os passos de seu mestre, e com ele aprendeu todas
as benzeduras, mandingas e o domínio das ervas, sendo para curas
físicas ou espirituais, e que mais tarde também, como seu mestre
viraria uma Entidade de Luz trabalhadora da Umbanda, e levaria o nome
de Pai José.

    E essa é a história de nosso Preto Velho Pai Cipriano, como ele
ficou conhecido, como ele salvou da morte Pai José, ainda na tenra
idade.

    Saravá Pai Cipriano, o grande mestre em retirar eguns, kiumbas e espíritos zombeteiros de pessoas obsediadas por esses espíritos malignos.

Adorei as Almas!

Adorei Pai Cipriano!


Carlos de Ogum

segunda-feira, 13 de outubro de 2014 201 comentários

AS GUIAS DE CONTAS DA UMBANDA.

 


 
As Guias de Contas da Umbanda.

    Uma das coisas que mais chamam atenção nos médiuns trabalhadores
da Umbanda, são as guias ou colares de contas por eles utilizados.

    Mas qual a finalidade desses colares?

    O que eles representam?

    Abaixo vamos falar um pouco dessas guias, suas cores, formas, o
que se faz representar, como devemos utilizar, como devem ser feitas,
quem as pede, as diferenças de cada uma.


    As guias ou colares de contas, representam a força vibracional de
um Orixá ou de uma Entidade de Luz, também demonstram o grau de
mediunidade de cada filho da casa , de cada linha que se trabalha,
assim como também podem ser utilizadas para proteção do médium fora do
terreiro.

    Guias de trabalho e guias de proteção.

    As guias poder servir para o trabalho de um médium dentro de um
terreiro e também para proteção do mesmo fora do terreiro ou casa
espírita.


                          Guias de Trabalho.

    As guias de trabalho, são de uso exclusivo para dentro do
terreiro, nos dias de gira, nos dias de festas, nos dias de batismo,
entre as outras coisas feitas dentro da casa umbandista.

    Elas devem ser feitas de acordo com os Orixás do ori do médium,
de acordo com o pedido de alguma Entidade da coroa do médium, nas
cores determinadas de cada Orixá ou Entidade, de contas leitosas para
a Umbanda, e cristal para o Candomblé. Como vamos nos frisar em
Umbanda, nossas colocações serão de acordo com as regras Umbandistas.

    As guias de trabalho devem ser firmadas, ou seja, elas terão no
ponto mais alto (parte inferior da cabeça, sendo encostado a nuca) uma
firma, que é uma peça feita com o mesmo material das contas
leitosas, sendo essa comprida e cilíndrica, onde deve ser terminado o
fechamento da guia, que ficará encostada a nuca do médium, quando for
utilizada a guia de trabalho.

    Essa guia de contas leitosas devem ter as cores indicadas de cada
Orixá da coroa do médium, sendo algumas de uma só cor, outras
bicolores ou na quantidade de cores conforme a necessidade de cada
Entidade de Luz.

    Essas guias também podem ser feitas com outros tipos de materiais,
dentro dos pedidos das Entidades trabalhadoras, sendo esses materiais
como contas de sementes (lágrimas de Nossa Senhora), cruzes e figas de
madeira, couro, palha. Tudo isso dentro da necessidade de cada
Entidade de Luz.

                         Guias de proteção.

    As guias de proteção são feitas a pedido de uma Entidade de Luz ou
pelo próprio médium ou consulente, para que possa ser usada dia a dia
para proteção nas ruas, contra assaltos, acidentes, inveja entre
outras coisas.

    Essas guias também são feitas da mesma forma das guias de
trabalho, porém não se é utilizado as firmas, e normalmente é feita
nas cores da quais a Entidade que foi solicitada a fazer se utiliza.
Podendo também ser feita nas cores dos Orixás da coroa do médium ou
consulente, assim como também com sementes (lágrimas de Nossa Senhora)
ou mesmo em couro.

                      Cores e Formas de Guias.

    As cores, como já foi dito vai de acordo com o Orixá da coroa do
Médium ou a Entidade que pediu. Abaixo vamos descrever algumas guias
da Umbanda.

GUIA COM FIRMA E CONTAS LEITOSAS BRANCAS:

    Essa guia vibra a força de Pai Oxalá, normalmente todos os filhos
ao entrar para trabalhar em uma casa de Umbanda, já devem estar com a
guia de Oxalá. Mesmo sem saber quais são os Orixás de Ori, mesmo sem
ter desenvolvimento mediúnico, o médium já deverá estar usando a guia
branca. É a primeira guia da vida de um médium pela regra da Umbanda.

GUIA COM FIRMA E CONTAS LEITOSAS VERMELHAS:

    É a Guia para vibração do Orixá Ogum, sendo ele o pai da coroa de
um médium. Ela normalmente é toda vermelha com firma da mesma cor,
podendo ser utilizada pequenas espadas de aço, para a simbologia desse
Orixá. Contudo isso não vai de acordo com a vontade do médium, e sim
pela determinação da Entidade que solicitou esses símbolos.

GUIA COM FIRMA E CONTAS LEITOSAS MARRONS:

    São guias para os filhos de Xangô, elas normalmente são todas
marrons com firma da mesma cor, podendo também, em alguns casos ser
divididas em 3 marrons e uma branca. Também pode ser inserida o
símbolo de Xangô, que é o machado pequeno em aço, isso quando
determinado pela Entidade solicitante.

GUIA COM FIRMA E CONTAS LEITOSAS VERDES:

    Essas guias são utilizadas normalmente pelos filhos de Oxossi,
sendo toda em contas verdes e firma também da mesma cor. Como nos
casos acima, também pode ser inseridos o símbolos desse Orixá, que
nesse caso pode ser um arco e flecha ou uma pequena flecha de aço.

    Essas guias verdes também podem ser utilizadas por Caboclos, sendo
da mesma forma as contas e a firma, porém em alguns casos podem
incluir outras cores nas contas, e também ´podem ser pedido dentes de
animais, penas, sementes, etc.
Da mesma forma também aos Boiadeiros, sendo que podem ser inclusos
pedaços de couro, olho de boi (semente), etc.

GUIA COM FIRMA E CONTAS LEITOSAS BRANCAS E PRETAS:

    É utilizada nas guias dos filhos de Obaluaiê, sendo divididas
conforme a solicitação da Entidade, podendo ser uma branca e uma
preta, ou três brancas e três pretas ou mesmo sete brancas e sete
pretas, fechando com a firma branca raiada de preto. Pode ser
solicitado o uso de pequenas cruzes em aço, como simbologia desse
Orixá.

GUIA COM FIRMA E CONTAS LEITOSAS AMARELAS E PRETAS:

    As guias bicolores em amarelo e preto em suas contas, são
utilizadas para médiuns filhos de Omulú, sendo também conforme
Obaluaiê, divididas de uma a uma, ou de três em três, ou também de
sete em sete contas intercaladas, com a firma preta raiada de amarelo.
E como o símbolo de Omulú é o mesmo de Obaluaiê, também pode ser
solicitado pequenas cruzes em aço, para ser colocado na guia, conforme
instrução da Entidade solicitante.

GUIA COM FIRMA E CONTAS LEITOSAS AZUIS ANIL OU AZUIS CLARO:

    Essas guias são utilizadas para filhos de Oxum, sendo toda em azul
anil ou mesmo em azul claro, com firma da mesma cor das contas. A
diferença do azul claro ou do azul anil, vai depender da sequencia dos
outros Orixás da coroa do médium, e é determinado pela Entidade
solicitante. Poderá ser pedido pequenos corações de aço para a guia do
filho de Oxum, sendo essa a simbologia dessa Orixá.

GUIA COM FIRMA E CONTAS LEITOSAS AZUIS CLARO:

    Essa guia é para os filhos de Iemanjá, ela deve ser feita toda em
azul claro, com a firma da mesma cor. Em alguns casos pode ser contas
azuis e brancas, com quantidade e separação determinada pela Entidade
solicitante. Nesse caso também se usa a firma azul claro. Como Iemanjá
e a Rainha do mar, mãe dos peixes, muitas vezes podem ser pedidas para
acrescentar na guia pequenos peixes em aço ou mesmo cavalos-marinhos,
também do mesmo material.

GUIA COM FIRMA E CONTAS LEITOSAS AMARELAS:

    As guias com contas amarelas e firmas da mesma cor, são utilizadas
pelos filhos da Orixá Iansã. Elas devem ser  amarelas de um tom mais
claro, e podem ter, dentro da determinação da Entidade solicitante, o
símbolo dessa Orixá, que é o Raio (Eruexim, cabo de ferro ou cobre com
um rabo de cavalo).

GUIA COM FIRMA E CONTAS LEITOSAS ROXAS:

    Para os filhos de Nanã Buruquê se utiliza a guia com contas roxas,
sendo a firma da mesma cor. Em alguns raros casos pode ser solicitado
pela Entidade que instruiu a confecção da guia a ser utilizado uma
cópia miniatura de um Ibíri (um feixe de ramos de folhas de palmeira ,
com a ponta curvada enfeitada com pequeninos búzios).

GUIA COM FIRMA E CONTAS LEITOSAS ROSAS, OU ROSAS E AZUIS, OU AZUIS:

    Essa guia é bem particular, pois ela é a guia vibracional de
Entidades de Luz na fase infantil. São utilizadas na maioria dos
terreiros por todos os médiuns, principalmente nas festas de Ibeijada,
Erês, na comemoração do dia de Ibeijis.

    Elas podem ser toda de contas rosas com firma da mesma cor
(normalmente solicitada por uma criança do sexo feminino), ou
podem ser toda com contas em azul claro, sendo a firma na mesma
cor (normalmente quando solicitado por uma criança do sexo masculino).
Mas como tanto médiuns femininos quanto masculinos podem receber na
coroa meninos e meninas, é mais comum ser utilizada a guia bicolor nas
cores rosa e azul, sendo a firma rosa raiada de azul ou azul raiada de
rosa.

    Em alguns casos pode ser solicitado pela criança trabalhadora da
Umbanda uma diferenciação em sua guia, podendo ser com contas maiores
do que as normais, algumas utilizam bonequinhos, algum brinquedinho,
podem ser fechadas ao invés de firmas com contas acima do tamanho das
contas da guia, podem fazer várias diferenciações, tudo vai da vontade
e da precisão da Ibeijada.

GUIA COM FIRMA E CONTAS LEITOSAS PRETAS OU VERMELHAS E PRETAS:

    Essas guias são utilizadas para nossos compadres Exús e nossas
comadres Pombo Giras.

    Elas são formadas e confeccionadas conforme a solicitação dessas
Entidades de Luz, sendo feitas da seguinte maneira:

Exú: O Exú pode utilizar a guia preta quanto a vermelha e preta, tudo
dentro da linha e irradiação que ele trabalha.

    Sendo de contas pretas, a firma deve ser da mesma cor., e pode ser
utilizado, dentro da determinação da Entidade, pequenos tridentes de
aço, sendo esses tridentes retos, chamados de tridente masculino.
Pode também ser pedido pelo o Exú, pequenos punhais de aço.

    Eles podem ser divididos em três, sete ou até 21 tridentes ou
punhais na confecção da guia, tudo isso dentro da irradiação e
trabalho do Exú solicitante.

    Sendo de contas vermelhas e pretas, a firma pode ser preta, preta
raiada de vermelho, vermelha ou vermelha raiada de preto. Também se
pode ser utilizada pequenos tridentes ou punhais de aço, conforme
vimos acima.


Pombo Gira: Na linha das Pombo Giras, também podemos ver guias da
mesma forma dos Exús, sendo tanto Vermelha e preta quanto apenas
vermelha, e com firmas também da mesma forma dos Exús, podendo ter
como firmamento os punhais e tridentes em aço, só detalhando que os
tridentes no caso da Pombo Gira são tridentes curvos, os chamados
tridentes femininos.

    Essas colocações para as guias de Exús e Pombo Giras foram feitas
para um modo geral, podendo tranquilamente ser diferenciada por um ou
outro detalhe, como por exemplo a quantidade de contas de cada cor, ou
outro símbolo mais particular de cada Entidade (pois são milhares e
milhares de Exús e Pombos Giras diferentes).

GUIAS COM FIRMA E CONTAS VERMELHAS E BRANCAS.

    Essa guia é utilizada para nossos companheiros Malandros e
Malandras.

    Elas são bicolores em contas vermelhas e brancas, com
firma vermelha ou branca, podendo ser raiada ou não.

    As contas podem ser divididas em uma a uma, três em três, sete em
sete, vinte e uma a vinte uma, ou até mesmo uma quantidade maior de
uma cor e menor de outra, tudo dentro da determinação da Entidade de
Luz que determinou a fazer a guia para o médium.

    Raramente se vê uma guia dos Malandros com algum símbolo,
normalmente são apenas as contas vermelhas e brancas e a firma, mas em
pouquíssimos casos pode ser pedido para ser adicionado uma ou três
piriguaia (variedade de búzio) na guia.

GUIAS DE SEMENTES (LÁGRIMAS DE NOSSA SENHORA):

    Essas guias são muito utilizadas pela linha de Preto Velho, elas
são confeccionadas de acordo com a vontade e determinação da Entidade,
muitas vezes tem a aparência de um terço para orações. Podendo ela ter
figas de guiné ou de arruda nas divisões das sementes, normalmente não
tem firma, mas pode ter uma cruz em madeira na parte central inferior
da guia.

    Alguns Pretos Velhos podem fazer uns patuás para serem colocados
em determinadas guias de sementes, em pontos demonstrados por eles, e
esses patuás podem ter uma variedade de coisas, como figas, cruzes,
medalhas de anjos, orações, sementes, entre centenas de outras coisas
que a Entidade julgue ser necessário para auxiliar o médium na hora da
incorporação.

    Essas guias também podem ser pedidas por algum Caboclo, podendo
ela ser toda de semente e com uma firma da cor normalmente verde, ou
podem ter flechas, arcos ou lanças em aço, da mesma forma das guias em
contas verdes.

GUIAS DE COURO:

    Não muito vista nos terreiros de Umbanda, pois essa guia é
utilizada por médiuns trabalhadores que incorporam Boiadeiros, e por
muitas vezes o próprio Boiadeiro, se caso pedir uma guia, a pede de
contas verdes com apetrechos, conforme já foi dito antes.


    Todas as guias devem ser confeccionadas sempre por determinação da
Entidade trabalhadora da coroa do médium, ou por uma Entidade
incorporada ao responsável pelo terreiro no qual o médium faz parte.

    As guias podem ser utilizadas de uma forma tradicional, ou seja,
pendurada ao pescoço, com as firmas voltadas a nuca do médium, mas em
alguns casos podem ser determinado pelas Entidades a serem utilizadas
cruzada ao corpo, como por exemplo se iniciando do ombro esquerdo com
o término na parte lateral inferior direita do corpo (linha da
cintura), ou vice e versa.

    É importante dizer que em algumas casas tem como regra para cada
guia de Orixá ou Entidade de Luz um determinado número de contas ou
sementes, porém essa regra traz um problema aos médiuns, pois sendo
assim elas nunca ficam de acordo com o tamanho desejado, na maioria
das vezes ficam extremamente pequenas, e com isso atrapalha, pelo
incômodo que ela causa, a concentração do médium antes da
incorporação. Por isso o mais correto a fazer e manter uma regra
simples, todas as guias devem, ao serem colocadas devem ficar na
altura do umbigo do médium, pois assim não tem como ficar algo
incômodo independente da altura de cada um.

    As guias são o ponto de vibração entre a Entidade e o médium, elas
não são adornos ou enfeites. Use-as sempre por determinação da
Entidade e sempre dentro da linha de trabalho, nunca esquecendo que
guias de Umbanda são de Umbanda e de Candomblé são de Candomblé, não é
porque achou uma guia mais bonita que ela serve para sua coroa ou sua
vibração junto a Entidade.

    Respeite as guias, respeite sua coroa, respeite suas Entidades.

Carregar Guias No Pescoço É Muito Bonito, Difícil É Saber Respeitar O
Que Elas Representam. (Vô Tião)

Carlos de Ogum.





terça-feira, 30 de setembro de 2014 69 comentários

Vovó Anita, A Preta Velha Doceira




    Na Umbanda temos muitas Entidades de Luz que nos fazem pensar
muito sobre a vida, sobre a caridade, sobre o amor a nossos
semelhantes, sobre a fé em nosso Pai Maior, e entre essas Entidades
divinas está uma Preta Velha que demonstra muito tudo isso para nós
Umbandistas ou não.

    O nome dessa Preta Velha é Anita, ou melhor dizendo, Vovó Anita a
Preta Velha Doceira.

    Portanto hoje falaremos um pouco dessa Entidade de Luz, mostrando
o seu carinho e amor com a natureza, com seus irmãos negros
escravizados como ela, mostrando suas magias, benzimentos e a sua
grande fé em Deus, nos Orixás e nas forças que esses Orixás
representam diante da natureza.


    Anita nasceu no Brasil, em uma fazenda cafeeira,  décima segunda filha
de uma negra escrava e procriadora, seu pai era escravo, também
procriador, sendo ele de outra fazenda vizinha.

    Ela não sabia ao certo o números de irmãos que tinha, pois a
maioria foram vendidos as fazendas da região ainda na fase infantil.

    Seu pai ela só viu duas vezes quando ele voltou a fazenda na qual
Anita cresceu, para que fosse conduzido a uma nova procriação, e entre
essas duas únicas vezes ela não sabia como se portar, o que dizer, o
que pensar sobre tudo aquilo, então se passou despercebido esses
encontros e para ela é como se nunca tivesse existido em sua vida
aquele contato entre pai e filha.

    Anita era uma menina muito dedicada a seus afazeres, tudo que era
Ensinado e demonstrado a ela aprendia facilmente, guardava todos os
detalhes, e criava coisas novas adicionando mais outros detalhes.

    Com isso Anita cresceu na fazenda com a responsabilidade de usar
seus dons para fazer os deliciosos doces com frutas, na qual ela
misturava um a um com paciência e dedicação, até se formar algo
inexplicável, extremamente saboroso e insubstituível.

    Com essa dedicação, ela com o passar dos anos e com mais
experiência, certa noite acorda um tanto assustada com uma voz que
chamava por seu nome.

    Ela subitamente se levanta de sua tarimba, tentando buscar de onde
veio a voz, olhando para os lados e vendo todos seus irmãos negros
dormindo, fica um pouco assustada ao voltar a ouvir a voz a chamando.

    Nesse instante ela tem uma visão de um fecho de luz vindo em sua
direção, e dentro dessa luz uma linda imagem de uma velha senhora
sorridente.

    A senhora a olha com carinho e lhe entrega um pequeno galho de
arruda juntamente com um ramo de guiné, dizendo-lhe:

    "A partir de hoje você usará esse galho de arruda e esse ramo de
guiné amarrado em seu braço direito, fazendo-se assim uma porta para
que as divindades da natureza possam utilizar de teus talentos como
a senhora da frutificação e a mãe de suculentos doces, não só para
agradar o paladar de pessoas famintas pelo sabor inigualável provindo
dessas iguarias, mas sim, que a partir de hoje terás o dom de cura se
utilizando desse poder natural.

    E usará esse dom, além de benzeduras, para curar pestes de seus irmãos negros e de seus senhores brancos, sem recuar ou fraquejar por mais que tu aches difícil a peste que possa ser espalhada dentre teu povo e senhores."

    Ao dizer isso a imagem desaparece diante dos olhos de Anita,
que segura firmemente as ervas dadas a ela.

    A partir desse dia Anita passou a usar os ramos em seu braço
direito amarrado com uma fina palha de milho.

    Ela decidiu então contar toda a história a Joaquina, uma velha
escrava que por mais de uma centena de anos vivia na fazenda, e por
ser uma negra muito respeitada por todos e por ter conhecimentos
diversos, inclusive de feitiçaria, Anita acreditou que seria o melhor
caminho para que tivesse entendimento sobre tudo aquilo.

    A Velha Joaquina, olhando ao ramo no braço de Anita, diz:

    "Minha filha, está para chegar tempos difíceis nessa região,
teremos uma grande nuvem negra sobre nossas cabeças, uma peste vai
aparecer e poderá tomar conta de nossos corpos. Você tem a luz para
salvar muitos de nossos irmãos e nossos senhores. Vá até seu pomar, e
dele traga as frutas que você desejar, pois essas frutas misturadas
com algumas ervas vai ser o remédio de cura de nosso povo e senhores.
Antes disso, se firme em Oxalá e em todos os Orixás trazendo as forças
da natureza junto ao que você ira fazer."

    Anita foi ao pomar recolheu várias frutas, foi recolhendo também
muitos tipos de ervas. Foi para a senzala e ficou em oração junto ao
pai maior. E 3 dias se passaram, quando os primeiros negros desabaram
com a força da peste, foi uma doença que se espalhava pelos pulmões,
levando aos mais fortes dos negros caírem sem condição de respiração.

    Anita como em transe, fez todas as misturas possíveis, e dessas
misturas saiu um chá de frutas e ervas, e uma pasta da mesma mistura.

    E a peste chegou a casa do Coronel fazendeiro e senhor dos
escravos.

    Ele foi o primeiro a se acamar, levando logo em seguida a sinhá
sua esposa.

    Vários doutores médicos vieram a fazenda, mas nenhum deles tinham
a solução, e alguns deles saiam dali com a peste.

    Nas senzalas vários negros se amontoavam sem nenhuma condição de
uma cura. E foi ai que a negra Joaquina foi ao encontro do coronel
fazendeiro, e falou sobre a possível cura, que se encontrava nas mãos
da negra Anita.

    O Coronel manda buscar Anita, que já era famosa pelas suas
deliciosas iguarias, e agora seria ainda mais conhecida por usar
dessas iguarias um modo de trazer a cura para todos que sofriam da tal
peste.

    Ela chega a casa grande da fazenda, indo ao encontro do Coronel,
que foi o primeiro a utilizar a magia provinda das frutas e ervas,
todas passadas pelas mãos da eficiente e tão cuidadosa Anita.

    Ela faz com que o Coronel bebesse do chá, sendo em pequenos goles,
enquanto ela passava a pasta com frutas e ervas espalhando sobre a
altura dos pulmões dele. Nesse momento Anita novamente entra em uma
espécie de transe, fazendo uma oração na qual lhe parecia um linguajar
familiar, mas que na verdade só ela mesma entendia.

    E assim a respiração do senhor Coronel, que até esse momento era
pesada e muito difícil, foi ficando mais calma, leve entrando em ritmo
de uma normalidade extrema.

    Ele olhando nos olhos de Anita, sente uma paz imensa, as dores
cessaram, e o corpo não mais estava febril.

    Agradecido pela melhora imediata, ele com lágrimas nos olhos
suplica a negra Anita que curasse a sua esposa também, que ele seria
eternamente agradecido.

    E assim foi feito, Anita da mesma forma feita ao Coronel, fez a
tão querida sinhá, que em pouco tempo já estava recuperada. E ela por
sinal, estava por demais preocupada com os negros que adoentaram
juntamente com seus senhores, pedindo carinhosamente a Anita que fosse
as senzalas levar aquela tão milagrosa cura a todos os enfermos.

    E ela foi, pacientemente, caridosamente a cada um dos seus irmãos
de raça, e entre um transe e outro, Anita findou com a peste dentro da
fazenda, sem uma só morte entre todos que adoeceram, diferentemente de
outras fazendas que tiveram muitas perdas de vida, tanto de negros
quanto de senhores de escravos.

    As falas sobre as curas feitas por Anita se espalharam por toda
região, e assim todos os Coronéis fazendeiros foram em busca da ajuda
dessa divina senhora doceira. E ela cuidou e curou centenas de
pessoas, sendo escravos e senhores de escravos.

    O Coronel da fazenda na qual vivia Anita, ficou extremamente
agradecido por tanta dedicação e caridade da negra Anita, dando-lhe de
presente dentro da fazenda uma choupana e a chance dela sair das
senzalas abarrotadas.

    E assim ela viveu até seus 90 anos, dentro da fazenda cafeeira, em
sua choupana e em volta todo seu pomar de frutas e ervas mágicas que
utilizava para curar diversos tipos de males do corpo e do espírito,
pois a Velha Anita também se tornou uma das mais conhecidas negras
curandeiras de toda a região.

    Ela desencarnou duas décadas antes da libertação de seu povo
escravizado. E no dia de seu desencarne, ao saber do fato, todos os
negros da região colocaram em seus braços direito um galho de arruda e
um ramo de guiné, para que assim a Preta Velha Anita os protegessem de
todos os males físicos e espirituais.

    Hoje a vovó Anita trabalha nos terreiros de Umbanda, auxiliando os
filhos que tenham males do corpo e da alma, trazendo paz, abrindo
caminhos a todos os filhos necessitados. Nunca deixa um filho sem uma
luz no caminhar, nunca deixa de mostrar a força da fé no Pai Maior e
nunca deixa de mostrar que a natureza é a força contra muitas coisas
que viram obstáculos em nossa vida.

    Saravá a divina e caridosa Preta Velha Vovó Anita!

Adorei as Almas!

Carlos de Ogum.

(Agradecemos a nossa querida Médium Aninha de Iemanjá por nos dar a
satisfação de conhecer essa bela Entidade na linha dos Pretos Velhos,
através do trabalho de caridade e desenvolvimento mediúnico em nosso
terreiro.)


segunda-feira, 22 de setembro de 2014 49 comentários

Salve Ibeijada, Doces Crianças da Umbanda







Ô Erê, ô Erê onde está o Erê?
Ô Erê, ô Erê onde está o Erê?

Onde está a Rosinha?
Está na cachoeira.
Onde está a Aninha?
Na nuvem a brincar.
Onde está Mariazinha?
No mar com a Sereia.
Onde está a Julinha,
que não veio trabalhar?

Ô Erê, ô Erê onde está o Erê?
Ô Erê, ô Erê onde está o Erê?

Onde está o Zezinho?
Na prainha a nadar.
Onde está o Joãozinho?
Saiu para caçar.
Onde está o Pedrinho?
Foi no mar para pescar.
Onde está Cosmezinho,
que não para de pular?

Ô Erê, ô Erê onde está o Erê?
Ô Erê, ô Erê onde está o Erê?


    Doces crianças de Umbanda, nossas Ibeijadas ou Erês amados, estão
sempre por perto para nos ajudar a abrir caminhos, nos mostrar que
tudo tem um sentido, nos dar esperanças para não desanimarmos por mais
difícil que seja a situação na qual estamos.

    As Ibeijadas, são aquelas pequenas Entidades de Luz, que são
festejadas normalmente no mês de setembro no dia 27, mesmo dia de São
Cosme e São Damião, os santos irmãos. E na Umbanda eles são os
Ibeijis, os Orixás gêmeos.

    Estas entidades representam a alegria, a sinceridade, a inocência,
tudo que é puro. Representam as crianças, são alegres, travessos,
manhosos, cheios de dengo e manias infantis. São a síntese da pureza.
Geralmente são muito ligados a linha das almas, Pretos e Pretas
Velhas, sempre pedindo suas bênçãos e se referindo à eles como vô e
vó.

    Quando estão em terra sempre esperam muitos agrados, adoram doces,
guloseimas, balas, pirulitos e adoram um grande bolo todo confeitado e
um "Parabéns à você" para eles cantarem e apagarem as velinhas.

    São muito sensíveis, então, por esse motivo nunca devemos
deixá-los vir sem uma festinha, um agrado, uma guloseima, um
brinquedo, um afago. Eles adoram e sempre esperam por isso.

    Essas entidade são de grande sabedoria, que entre brincadeiras
soltam as "verdades" que muitas vezes precisamos ouvir.

    Para agradá-los sirva uma boa porção de doces regados a bastante
mel, num parque ou num jardim bem florido. Com certeza eles virão para
ouvir seus pedidos.

    O trabalho dessas Entidades se consiste em fazer abertura de
caminhos, saúde, limpeza espiritual, proteção, entre outras várias
coisas.

    Nas festas de Ibeijada, na qual as crianças espirituais incorporam
em seus médiuns, não falta alegria, sorrisos, brincadeiras, e a
felicidade que contagia os terreiros de Umbanda, a singeleza entre
essas Entidades tão divertidas é enorme.

    São Entidades que de forma nenhuma vão fazer mal a alguém, eles,
caso algum consulente tente pedir para atrapalhar a caminhada de
algum semelhante, logo tentam mostrar que não se deve agir com
maldade, não se deve buscar escuridão a nenhum filho de Deus, e assim
eles demonstram através de suas brincadeiras e sorrisos, que devemos
agir com amor independente de qualquer contratempo.

     São espíritos que já estiveram encarnados na terra e que optaram
por continuar sua evolução espiritual através da prática de caridade,
incorporando em médiuns nos terreiros de Umbanda. Em sua maioria,
foram espíritos que desencarnaram com pouca idade terrena, por isso
trazem muitas características de sua última encarnação, como os
trejeitos e a fala de criança, o gosto por brinquedos e doces.

     Assim como todos os servidores dos Orixás, elas também tem
funções bem específicas, e a principal delas é a de mensageiro dos
Orixás, sendo extremamente respeitados pelos Caboclos e pelos
Pretos Velhos.

     É uma falange de espíritos que assumem em forma e modos, a
mentalidade infantil. Como no plano material, também no plano
espiritual, a criança não se governa, tem sempre que ser tutelada. É a
única linha em que a comida de santo (Amalás), leva tempero especial
que é o açúcar.

    É conhecido nos terreiros de Nação e Candomblé, como ERÊS
ou IBEiJI.

    Na representação nos pontos riscados, Ibeiji é livre para utilizar
o que melhor lhe aprouver, em muitas das vezes seus pontos riscados
apresentam bonequinhas, carrinhos, folhinhas, frutas, chupetas,
cruzinhas, ondinhas, florzinhas, , entre outros vários símbolos. A
linha de Ibeiji é tão independente quanto à linha de Exú.

    Na Umbanda essas Entidades são espíritos que desencarnaram, na
maioria das vezes, na fase infanto-juvenil, elas são meigas, mas
extremamente barulhentas assim como os Erês, também ´podendo ser
muitas delas comportadíssimas e bastante tranquilas.


    As Ibeijadas normalmente tem nomes relacionados com os nomes
comuns brasileiros, como Cosmezinho, Rosinha, Mariazinha, Zezinho,
Joãozinho, Aninha, Julinha, Ritinha, Pedrinho entre vários outros.

    Seu colar de contas tem as cores rosa e azul, sendo determinado
por cada Ibeijada a forma de ser feito, podendo ser metade rosa e
metade azul, uma conta azul e uma rosa até fechar a guia, três rosas e
três azuis ou sete rosas ou sete azuis, tudo isso determinado pela
Criança ou pela Entidade responsável, podendo ser um Preto Velho ou
um Caboclo, incorporado por um médium preparado.

     Quando incorporadas em um médium, gostam de brincar, correr e
fazer brincadeiras muita arte como qualquer criança. É necessária
muita concentração do médium que seja consciente, para não deixar que
estas brincadeiras atrapalhem na mensagem a ser transmitida.

     Os "meninos" são em sua maioria mais bagunceiros, enquanto que as
"meninas" são mais quietas e calminhas. Alguns deles incorporam
pulando e gritando, outros descem chorando, outros estão sempre com
fome, etc... Estas características, que às vezes nos passam
desapercebido, são sempre formas que eles têm de exercer uma função
específica, como a de descarregar o médium, o terreiro ou alguém da
assistência.


    Independente de Ibeijada ser quieta ou bagunceira, ser menino ou
menina, ser de qual for a linha e irradiação de Orixá, todos tem o
encanto no olhar, a meiguice como instrumento de trabalho, a verdade
como lema e o amor por Deus, um amor grandioso que se espalha nas
giras e festas do Dia de Ibeijada.

Oni Crianças divinas de Umbanda.

"Seja No Mar Ou Nos Jardins, Na Mata, Cachoeira Ou Afins, De Olho Seu
Erê Vai Estar, Cuidando Protegendo A Brincar. Oni Ibeijada."

Um salve especial as crianças de nosso terreiro:

Cosmezinho de Oxum.
Joãozinho das Matas.
Rosinha de Omulú.
Joãozinho de Xangô.
Zezinho da Beira da Praia.
Mariazinha da Beira da Praia.
Aninha Estrelinha do Mar.

    Peço a proteção para minha família e para todos irmãos
Umbandistas.

Saravá Ibeijada!

Carlos de Ogum.




quinta-feira, 11 de setembro de 2014 79 comentários

Uma Carta e Uma Lição de Senhor Tranca Ruas

.


    Muitas pessoas já buscaram ajuda com uma Entidade de Luz, que gira
na linha da esquerda e que chefia a linha dos Exús. Essa Entidade de
grande força espiritual é respeitada extremamente por todos
Umbandistas e dentro de todos os Terreiros.

    Muitas pessoas menos instruídas, sem um conhecimento básico sobre
a religião de Umbanda, sem a mínima noção de que seja uma Entidade de
Luz e por muitas vezes sem a menor moral para dizer algo,
principalmente pessoas fanáticas religiosas, determinam que a Entidade
de Luz em questão seja a figura demoníaca criada em suas próprias
mentes doentias.

    A Entidade divina, de grande força espiritual, com grande ligação
a caridade na qual estou me referindo é o nosso grande lutador contra
o mal, o Senhor Tranca Ruas.

    E hoje estou fazendo esse texto apenas como uma pequena
demonstração da grandiosidade dessa Entidade maravilhosa, para mostrar
a todos interessados uma carta ditada pelo nosso amigo, Senhor Tranca
Ruas, para, não defender a ele das maledicências que saem das bocas
incrédulas e dominadas pelo ´poder de ditos líderes religiosos, que
usam de palavras insanas contra a nossa Umbanda e nossas Entidades de
Luz apenas para induzir a fiéis a patrocinar o bem estar desses tais
"líderes", através de dízimos, doações ou qualquer forma de retirar
dinheiro desse povo que crê em muitas falácias, mas apenas para
demonstrar a verdadeira grandiosidade de uma Entidade na qual é
descriminada apenas por fazer a caridade sem cobrar nada a ninguém.

    Para isso basta escrever as palavras de Senhor Tranca Ruas, e
dizer que para o bom entendedor palavras reais valem muito mais que
simples ataques a religião alheia.

Carta de Senhor Tranca Ruas.

    "Cá estou hoje, diante de um grupo de pessoas que veem a mim para
buscar algum tipo de ajuda.

    Dentre essas pessoas temos algumas realmente necessitadas por uma
ajuda espiritual, pessoas que estão obsediadas, algumas doentes
espiritualmente, algumas em busca de aberturas de caminhos para
conseguirem uma ocupação trabalhista e muitas em busca apenas de uma
palavra amiga, um abraço ou uma conversa com a Entidade que tem
apreço.

    Todos esses serão bem recebidos, todos esses terão seu momento de
falar, pedir, desabafar, chorar ou lamentar.

    Temos também nesse grupo outras pessoas. Pessoas essas que vieram
com a mesma intenção, de uma busca de ajuda em algo.

    Mas essas não serão atendidas.

    Pelo simples fato que eu, Exú Tranca Ruas, não sou uma Entidade
das Trevas, não sou um torturador do tempo medieval, não sou um ser
que vende aberturas de caminhos, não sou um ditador que condena uma
pessoa a obrigação de amar a outra pelo simples fato que a outra
determina assim.

    Não quero seu marafo, não quero seu charuto, não quero sua vela,
não quero sua tuia.

    Você não pode comprar a minha ajuda, pois ela só será dada através
da caridade, e apenas para fazer a caridade.

    Não adianta me pedir para trancar os caminhos de seu semelhante,
pois não venho a terra para isso.

    Não adianta me pedir para torturar alguém, pois meu caráter não se
iguala com o seu.

    Não adianta me pedir para amarrar seu "amor", pois se precisa
fazer isso é porque não tem amor próprio, e se não tem amor próprio
não tem o merecimento de ter um amor verdadeiro.

    Não adianta me pedir para fazer algum mal a um irmão, pois não sou
um escravo das trevas que deve obedecer suas sandices.

    Não tente me enganar com seus falsos sorrisos, tentando induzir-me
como faz com seus semelhantes, pois eu nesse momento ao olhar em seus
olhos estou na verdade observando sua alma negra cheia de rancor.

    Não tente me oferecer seus ebós  com o sangue de um ser vivo,
pois eu não necessito de nada orgânico para poder me fortalecer.

    Não tente me enganar com palavras que julgam seu semelhante,
tentando demonstrar a mim que você é uma vítima de alguma
maledicência, pois quando ao pisar em minha casa já observei a maldade
em seus olhos e corri gira em sua mente buscando suas reais intenções.

    Portanto a todos que couberam essas palavras, já sabem o rumo a
tomar. Se vieram para o bem, fiquem a vontade dentro de nossa casa, e se
estão aqui para fazer o mal, deem as costas a esse Exú, pois não
cederei por mais que implorem.

    Sou o Exú Tranca Ruas, o senhor da luz, o que luta contra
espíritos das trevas, o encaminhador de Kiumbas, o chefe das
tronqueiras.

    Não desejo que me comparem com um demônio, não desejo que me
ofereçam uma vida em troca de algo, não desejo ser escravo do mal, não
desejo ser visto como o terror da escuridão, não desejo que tenham
pavor de mim.

    Não me façam parecer um ser monstruoso que espalha ódio e terror,
assim como criaram lendas em mentes doentias e imperfeitas,
espalhando-se pelos quatro cantos de nosso planeta.

    Sou apenas uma Entidade de Luz, que busca evolução como todos
buscam, a cada dia, a cada trabalho, a cada gesto.

    Meu nome é Tranca Ruas, o ser que obedece a Deus, que trabalha
para Deus, que ama a Deus, e que infelizmente muitos seres humanos
fazem questão de tentar levar meu nome de encontro ao ser demoníaco
apenas para satisfazer seus desejos sem moral e sem caráter envoltos
na maldade extrema.


    Trabalho pela caridade, em nome de Deus, vou até as profundezas
sim, mas com ordens de Deus, e apenas para tentar salvar mais uma
alma perdida, perdida assim como poderá ficar a alma de quem tenta
fazer o mal usando o meu nome, o nome de Senhor Tranca Ruas.

    Não ache que não estou vendo sua alma, seja ela branca como um dia
de sol, ou negra como as profundezas donde ficam as almas perdidas.
Independente de tudo. Eu estou vendo dentro de seu ser.

Que Zambi e Pai Oxalá possam iluminar o caminho de todos.

Senhor Tranca Ruas."



    Com essa excelente lição, termino esse texto, e digo com muito
orgulho que tenho o prazer de trabalhar com Senhor Tranca Ruas a mais
de 20 anos, e em todo esse tempo, nunca foi aceito por ele que algum
consulente tentasse levar um pedido que pudesse fazer mal a alguém,
nunca foi aceito fazer amarrações, nunca foi pedido matança de nenhum
ser e nunca foi cobrado nada pelas suas ajudas e orientações.

    E ainda tem pessoas que o chamam de "demônio".

    Saravá Senhor Tranca Ruas!

    Senhor Tranca Ruas é Mojubá!

    Carlos de Ogum

sexta-feira, 5 de setembro de 2014 83 comentários

VOVÓ JOAQUINA E SUA HISTÓRIA.





 Vovó Joaquina e Sua História.


    "Saravá Vovó Joaquina,
Saravá o seu Gongá,
ela vem de Aruanda,
ela vem pra trabalhar.

    Com suas mirongas,
com seu Patuá,
Saravá Vovó Joaquina,
na fé de Oxalá."


    Vovó Joaquina é uma Preta Velha que trabalha na Umbanda fazendo
sua caridade, auxiliando a quem necessita, ensinando caminhos,,
mostrando aos filhos de fé que não basta dizer ser caridoso, tem que
realmente ser.

    Ela foi uma negra escravizada, que veio trazida de sua terra natal
juntamente com seus pais pelos traficantes de escravos em navios
negreiros pelos meados do século XVIII, quando tinha apenas entre 4 e
5 anos de idade na vida terrena.

    Ela foi levada juntamente com os pais a uma fazenda de
cafeicultores em alguma localidade na região Sudeste do Brasil, e lá
viveu até seu desencarne.

    Quando ainda criança, Joaquina era uma menina atenta a tudo e a
todos, gostava de aprender tudo que poderia com seus irmãos negros, e
essa vontade de aprender lhe deu grandes ensinamentos, tais como
algumas magias vindas por ensinamento de alguns negros mais velhos, o
dom de reconhecimento e uso das ervas, o poder de rezas e benzimentos,
o poder de encaminhar espíritos perdidos e obsessores, a magia de
leitura de destinos em borras de água misturada com mel e fumo, rezas
e benzeduras em partos dificultosos, entre tantos outros dons.

    Ela aos 12 anos teve a sua primeira gravidez, pois era uma menina
sadia, forte e que foi determinada pelo seu senhor escravocrata que
deveria ser genitora de muitos filhos para que assim seu número de
escravos aumentassem a cada ano.

    E nessa gravidez precoce nascera os primeiros negros gêmeos da
região, que seria algo de motivo de visitações intensas de coronéis a
senzala na qual vivia  então a negra Joaquina.

    Para ela aquilo tudo era muito novo, não entendia muito bem toda
aquelas pessoas que vinham na intenção já de compra de seus filhos e
dela própria, pois eram épocas que quem reinava mais, que tinha mais
poder era os escravocratas que tinham mais negros, mais terras para
plantação e mais negras reproduzindo, portanto dois recém-nascidos
gêmeos e meninos, era um feito e uma ótima oportunidade de no futuro
serem reprodutores com possibilidades de gerarem outros gêmeos.

    Além disso, a própria Joaquina era alvo dos olhares de ganância
desses escravocratas, uma pequena negra com possibilidade de gerar
duas vidas de uma vez só em seu ventre era algo muito lucrativo para
os coronéis sedentos de poder.

    Mas com a rejeição de venda, tanto dos gêmeos quanto da menina
Joaquina pelo seu senhor, ela ficou na senzala com seus filhos, sendo
já preparada para ser reprodutora de escravos para a fazenda.

    E assim foi feito, cada ano ela tinha um filho, não mais gerando
gêmeos, levando a baixar as expectativas do coronel.

    E isso foi até ela completar seus 20 anos, quando teve uma grande
tristeza. O coronel cafeicultor, sem que ela menos esperasse, vendeu
a um negociador de escravos, quatro de seus oito filhos, que foram
levados amarrados e chicoteados pelo feitor desse negociador.

    Ela chorava em desespero, ao ver suas crianças serem arrastadas
sem destino pelas mãos do feitor, e entre eles estavam os seus gêmeos,
que na época tinham apenas 8 anos de idade.

    Ela joga-se ao chão clamando ao coronel que não vendesse seus
filhos, que os deixassem na fazenda, que eles pudessem crescer junto a
ela, mas sem sucesso.

    Na saída da porteira da fazenda o pior acontece, um dos gêmeos se
solta das amarras do famigerado feitor e corre sem rumo tentando fugir
daquela situação.

    O feitor sem piedade aponta sua velha arma de fogo contra o menino
indefeso e atira, que cai já sem vida sobre o chão empoeirado da
entrada da fazenda.

    Seu irmão, chorando e dominado pelo ódio, corre mesmo atado pelas
cordas e correntes para atacar o feitor assassino, que sem pensar age
da mesma forma cruel, atirando no outro menino, vendo-o cair sem
chances de defesa.

    O menino gêmeo, com os olhos cheio de lágrimas, observa o corpo
inerte de seu irmão, e mesmo dando seus últimos suspiros grita pela
sua mãe, que desesperada se arrasta na terra seca, tentando chegar
até seus gêmeos, que pela crueldade de um feitor desumano, a faz perder
de uma só vez dois filhos para a fria e sombria morte.

    Joaquina foi tirada dali de uma forma brutal, sem piedade e sem
remorso pelo feitor assassino. Ao ser levada para a senzala, ela
desesperada pela morte de seus gêmeos e pela dor de saber que mais 3
dos seus filhos seriam levados para o comércio de escravos, ela
desmaia aos pés de seus irmãos negros, que com lágrima nos olhos não
sabiam o que fazer e nem como acalentar a imensa perda de nossa
fragilizada negra Joaquina.

    As horas passaram e ela acorda de seu desmaio, com a cabeça
confusa achando que tudo passara de um terrível pesadelo, mas ao
relembrar de tudo, chora desesperadamente, e corre até as grades da
porta da senzala implorando pelos seus filhos.

    Nesse momento as portas se abrem, e é jogado a seus pés dois
corpos inertes, os corpos inertes de seus filhos amados.

    Olhando para o céu, Joaquina com os olhos lacrimejados, toma uma
decisão e faz uma promessa: Nunca mais em quanto viver, iria gerar um
filho para ser escravizado."

    E assim ela, com os ensinamentos adquiridos e o poder das ervas
fez com que seu ventre não gerasse mais filhos.

    Ela viveu nessa fazenda por mais de uma centena de anos, e em todo
esse período se tornou guardiã de todas as crianças negras, na qual
protegia desde a saída do ventre das mães até a maior idade.

    Ela se tornou uma respeitada negra por entre seus irmãos de cor e
por todos daquela região. Era conhecida como a melhor parteira que
existiu por todas as fazendas, tinha o respeito de coronéis e de suas
famílias pelas lendas de "feitiçaria" que ela saberia fazer. Isso se
espalhou por toda a região, levando a muitas pessoas temerem a agora
velha Joaquina.

    Foi responsável por ensinar benzeduras e magias africanas a vários
negros da fazenda e da região, entre esses negros o alegre Benedito,
que ela o tinha como filho, após a morte de seus pais, e o sisudo
Antero, que era seu afilhado e confidente.

    A velha Joaquina após pegar o respeito e a admiração da família do
coronel cafeicultor, saiu da roça e da senzala para trabalhar e viver
na casa grande, sendo ela a responsável por fazer o parto da sinhá,
esposa do coronel, e também a responsável por salvar a vida da própria
sinhá e sua pequena filha nesse parto, após a sinhá ter tido problemas
gravíssimos nessa gestação.

    Com o passar do tempo a velha Joaquina, que nesse período, também
já era conhecida por "Vó Chica", nome dado por seu filho de coração o
negro Benedito, já quase nada fazia, pois o peso da idade não mais a
permitia, ficava perambulando pela fazenda fazendo suas benzeduras, e
com isso cada dia mais era conhecida como a velha feiticeira.

    Seu desencarne foi dado numa tarde de primavera, onde ela chama
sua última filha de sangue, a negra Antônia, conhecida por todos da
fazenda como "Tonha", seu filho de coração o negro Benedito, seu
afilhado Antero e a sinhazinha, filha do coronel, para andarem por
entre as flores de um grandioso jardim da fazenda.

    Ao chegar nesse jardim, ela mansamente senta-se ao chão, e ao
redor dela os negros e a sinhazinha. E com um sorriso tímido ela olha
para os 4 personagens, pegando a seu lado um galho de arruda e outro
de guiné, fazendo o sinal da cruz a cada um.

    Ela já com bastante dificuldade diz:

    "Que a luz de meu Pai Oxalá ilumine a vida e o caminhar de vocês.

Desejo aqui dividir com vocês todo meu amor, minha fé, minha
esperança.

A minha querida filha Tonha, que aqui representa todos meus filhos de
sangue, peço que tenha sempre muita fé no Pai Maior.

A meu filho de coração Benedito, e meu afilhado Antero, que aqui
representam a cumplicidade e o amor de meus filhos gêmeos, peço que
espalhem a caridade pela eternidade.

E a sinhazinha, que aqui representa a esperança de nosso povo não mais
sofrer, não mais chorar, não mais perder seus filhos amados, não mais
morrer nos troncos das fazendas, peço que olhe pela nossa gente, pelos
negros que são açoitados, castigados e mortos pelos seus senhores.

    Eu imploro a Zambi que ele possa ouvir a voz dessa velha negra
castigada pelo destino de ter vivido como escrava, que foi retirada de
sua terra natal, que foi açoitada como animal, que viu seus filhos
serem arrebatados de seu convívio e assassinados sem a menor piedade,
pedir humildemente que o Pai Maior possa levar esperanças a todos que
sofrem as amarguras e dores de ser escravizados, e que sua luz ilumine
a esperança daqueles que aguentarem chegar o dia de vossa libertação."


    E assim ela abre os braços a cada um deles, num abraço carinhoso
de mãe, uma mãe protetora, cuidadora, devota, guerreira.

    Tonha é a primeira a ser abraçada, após ela abraça a Antero, seu
afilhado amado, em sequencia um abraço quase sem forças a sinhazinha,
que chora copiosamente.

    Em seguida ela olha profundamente aos olhos de Benedito, sorri.
Recorda-se de tantos momentos agradáveis junto a seu "moleque", tantas
alegrias, tantos ensinamentos. Ela abre seus braços, Benedito a abraça
fortemente, ambos choram em demasia.

    O abraço dela vai ficando menos apertado, seus olhos cerram, seu
sorriso se vai. E assim desencarna a velha Joaquina, a senhora
Feiticeira, a vó Chica, partindo de sua vida terrena, deixando seu
corpo inerte nos braços de seu filho de coração, que sem entender o
acontecido por alguns instantes, ainda a abraça firmemente junto a
lindas rosas e margaridas, flores preferidas de Joaquina, do jardim da
fazenda.

    Vovó Joaquina desencarnou no século XIX com idade incerta, mas
sabendo-se que com mais de 100 anos, sem ver seu povo libertado, sem
saber porque seus filhos tiveram que sofrer tanto, sem entender o
porque que a diferença de raça e cor fazia alguém melhor ou pior do
que o outro.

    Hoje Vovó Joaquina trabalha nos terreiros de Umbanda, trazendo
suas magias, seus dons, suas benzeduras, distribuindo sua caridade com
todas as pessoas que buscam sua ajuda espiritual, sendo essas pessoas
brancas, negras, de qualquer etnia, de qualquer crença, de qualquer
classe social.

    Ela distribui o seu amor, assim como distribuiu com centenas de
crianças que trouxe a vida sendo parteira, distribui seus ensinamentos
espirituais como distribuiu com todos seus irmãos negros e distribui
sua piedade a todos os consulentes que a procuram, assim como
distribuiu a piedade com o feitor que assassinou seus gêmeos sem a
mesma piedade que ela nos concede hoje.

Uma Benção De Vovó Joaquina: "Que Oxalá Esteja Sempre Com Você, Mas
Que Acima De Tudo Você Esteja Sempre Com Oxalá."

Frase De Vó Joaquina: "Quem Possui O Coração Cheio De Amor, Nada
Teme!"

    Adorei as Almas!

    Saravá a Linda Vovó Joaquina das Almas!

    Agradeço a oportunidade de poder participar das Giras com essa
Preta Velha divina em nosso terreiro, que é incorporada pela nossa
querida Priscila de Omulú.

Carlos de Ogum.






 
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