quarta-feira, 30 de março de 2016 83 comentários

A HISTÓRIA DE VOVÓ BENEDITA.




   A História de Vovó Benedita.

    Vovó Benedita das Almas,
luz das Almas brilhou lá no céu,
luz das Almas brilhou lá no mar.
Vovó Benedita Preta Velha de fé,
vem lá da Bahia trazendo bençãos de Pai Oxalá.

    Vovó Benedita das Almas,
filha protegida de Mãe Iemanjá,
tem a luz na sua caminhada,
vovó linda que abençoou nosso Gongá.

Saravá Vovó Benedita,
saravá o seu Jacutá,
saravá a nossa Umbanda,
Onde Vovó Benedita vem trabalhar.

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    Vovó Benedita é uma bela negra que foi escravizada nos primórdios
de sua infância. Viveu por toda sua vida em uma fazenda na região
Sudeste do Brasil. Em sua caminhada na vida terrena teve muitos
sofrimentos, mas nenhum deles fez com que a negra Benedita perdesse o
que ela tinha de mais lindo, sua fé, sua alegria e coragem de caminhar
adiante.

    Quando menina ainda ficou sem a proteção de sua mãe, que
desencarnou por um forte mal nos pulmões, e como seu pai teria sido
vendido para atuar como escravo trabalhador em roças de grãos de café
em uma distante fazenda, ela se encontrou só ainda em tenra infância.

    Mas na verdade não estava só, pois Oxalá colocou no caminho da
menina uma negra que tinha o dom de amar a todos como mãe. Essa
negra, já com a idade madura, não se fez de rogada em assumir com um
grande amor maternal a pequena menina Benedita.

    E com o passar do tempo a negra que protegia a menina passou a
ensinar-lhe tudo sobre as crenças, a fé e as magias dos negros
africanos, para que assim ela crescesse sem se sentir desprotegida.

    O tempo foi passando a menina Benedita já era uma linda moça
sorridente, por demais brincalhona e extremamente feliz, mesmo estando
na condição de escrava.

    A sua protetora, a negra Joaquina, já com uma idade bastante
elevada, tinha a jovem Benedita como uma afilhada amada, a ensinava
tudo que podia, todas as magias, todas as rezas e benzeduras. E claro
que com isso seu apego cresceu bastante.

    Na fazenda já havia nascido a sinhazinha filha do coronel
cafeicultor, uma bela menina de pele branca como um copo de leite, e
foi designado a função a Benedita a ser sua mucama, que cumpriu muito
bem essa função desde a tenra infância da bela sinhazinha.

    A sinhazinha tinha adoração pela mucama, onde ia a negra deveria
estar junto, caso contrário ela reclamava. E com o passar do tempo as
duas ficaram inseparáveis, principalmente que junto a elas sempre
estava um primo consanguíneo da jovem Benedita, o menino Benedito,
negrinho falante, brincalhão e esperto, que junto com sua prima mais
velha faziam tantas travessuras, fazendo assim a sinhazinha
gargalhar, em uma felicidade extrema.

    Sempre observados pela velha Joaquina, os três passeavam
alegremente, sorrindo e pulando de um lado para o outro, como se
aquele mundinho deles fosse mágico.

    Anos e anos se passaram, a sinhazinha, e o negro Benedito
cresceram, a negra Benedita envelheceu, mas continuavam as suas
aventuras como crianças. Uma amizade grandiosa, uma menina branca e
dois negros, juntos como uma família.

    A negra Benedita era respeitada e amada dentro da fazenda, seu
sorriso, mesmo cansado era encantador, seu modo de demonstrar a
felicidade contagiava a todos em volta. O próprio coronel e sua sinhá
tinha um carinho enorme pela negra.

    Certa vez, ao visitar uma fazenda de um amigo de seu pai, a jovem
sinhazinha se encontrava nos aposentos de uma amiga, filha do
fazendeiro, quando ao anoitecer tiveram a triste ideia de se
aventurarem pelas matas próximas da região, sem avisar aos pais da
amiga, ou mesmo levarem uma companhia mais experiente para essa
aventura. Saíram as escondidas com um sorriso infantil nos rostos,
como se fossem descobrir o mundo lá fora.

    Mas as matas tem muitos perigos e mistérios, principalmente ao
cair da noite.

    Em certo momento, as duas jovens, já adentrando pela floresta,
sentem um certo receio, e decidem voltar a segurança dos aposentos da
amiga. Contudo a jovem amiga da sinhazinha se espanta com um ruído e
diz a sinhazinha que ouviu uma criança chamando seu nome. A sinhazinha
diz não ter ouvido nada, e pede para saírem rumo a fazenda. A jovem
replica e sem dar ouvidos a sinhazinha se embrenha pelas matas
escuras, como se estivesse em transe, e nos seus ouvidos uma voz
infantil suplicando ajuda e chamando por seu nome.

    A sinhazinha implorava que ela voltasse, que não tinha nada e nem
ninguém lhe chamando ou em perigo. Mas a jovem não ouvia mais nada,
saia em disparada sem olhar para trás, sem dar atenção a mais nada,
sem recear o que poderia vir pela frente.

    A jovem sinhazinha sem ter o que fazer, foi atrás da amiga para
tentar detê-la, não poderia deixar que ela se perdesse nas matas
escuras.

    Correndo foi adentrando pela floresta a procura da amiga, parecia
ver vultos gargalhando, mas colocou esses fatos como sua imaginação e
o grande temor de estar naquele lugar. Apavorada chamava pela amiga,
mas nenhuma resposta era obtida.

    Nesse mesmo momento, na casa grande, residência da sinhazinha, a
negra Benedita estava impaciente, angustiada, extremamente nervosa,
como isso não era de seu costume, tentou se acalmar, sem entender o
que se passava.

    Fechou os olhos, tentava descansar, mas a lembrança da sinhazinha
vinha em sua mente todo o tempo.

    Se levantou de sua esteira, caminhou até uma pequena janela, olhou
para o céu, e rezou firmemente para Zambi, Oxalá e todos os Orixás
para que protegessem a sua sinhazinha.

    Num ímpeto saiu em disparada indo ao encontro de seu primo e
grande amigo, o negro Benedito. Chegando a ele pediu-lhe ajuda para
que de alguma forma saísse da fazenda sem que fosse vista. Sem muitas
perguntas, o amigo e primo, lhe ajudou dizendo que não entendia o
porque ela desejava sair assim, mas ajudaria pela confiança que nela
tinha. A negra disse que depois explicaria, mas naquele momento
deveria seguir sua intuição e tinha que partir.

    De passos apressados ela se foi, como em transe ela seguia
caminhos como que se uma força maior a levasse. Chegando até a entrada
da floresta, ela sem receio se embrenhou pelas matas escuras. A cada
passo que dava seu coração acelerava, sua boca estava seca, não tinha
muito controle de seus membros, como que realmente estivesse sendo
tomada por uma energia divina.

    Em outra parte da floresta, a sinhazinha ainda buscava sua amiga,
quando sem que ela esperasse uma sombra, que parecia com a de um homem
a chama e diz: "Em busca de sua amiga minha jovem? Me siga que a
levarei até ela." E sem esperar resposta da menina sinhá, a sombra
entra cada vez mais pelas matas. A Sinhazinha como que encantada segue
aquele vulto escuro, indo parar em uma pequena clareira na qual viu
sua amiga caída. Seu desespero foi intenso ao ver essa cena, e correu
em direção da moça. Surpreendida novamente pelo vulto da escuridão,
que saiu do nada, ela se assusta e para, receosa do que poderia
acontecer.

    A sombra negra vem de encontro a jovem, estende-lhe a mão e diz:
"Jovem menina, nesse momento você só tem uma maneira de salvar sua
amiga das garras sombrias da morte. E para isso basta você apenas
falar com toda sua convicção que aceita entregar seu espírito a mim.
Com esses dizeres, prometo-lhe que sairá daqui com segurança e
proteção, levando sua amiga. E só vai novamente se reencontrar a mim
quando fizer sua passagem dessa vida terrena."

    Ao ouvir essas palavras, a jovem sinhazinha lembrou-se das
histórias sobre obsessores de almas, espíritos da escuridão que
tentavam induzir as pessoas encarnadas a entregarem seus espíritos a
escuridão, histórias essas que eram contadas pela negra Joaquina, pela
negra Benedita, e claro pelo seu grande amigo, o negro Benedito.

    Ao perceber a intenção do obsessor, a jovem sinhá com um grito
desesperado, diz não aceitar tal acordo, e que o Deus dos negros ia
salvar a ela e sua amiga das garras daquele espírito sem luz.

    Diante dessa ação da menina, o vulto negro solta uma enorme e
assustadora gargalhada, e diante dos olhos da jovem se transforma em
uma descomunal cobra, de tamanho grandioso que nunca o mais valente
caçador poderia imaginar.

    Antes mesmo que a menina sinhá pudesse se defender, o obsessor em
forma da gigantesca cobra, ataca e se enrola no corpo da menina,
tentando assim fazer seu esmagamento.

    Ela desesperada, sem poder gritar ou qualquer outra ação, se pôs
a chorar e mentalmente rezava, as mesmas orações que aprendera com
seus amigos negros.

    Nesse instante, do meio da mata, surge a negra Benedita, que ao
ver aquela cena de desespero, se ajoelha na mãe terra, e roga a todos
Orixás pedindo que salvem sua menina branca das garras da morte.

    O vento veio fortemente balançando as árvores, o céu se abriu para
a saída de uma luz de imensidão grandiosa, essa luz desceu sobre o
corpo da negra, ela se levanta com um salto, fica frente a frente com
a imensa sucuri ainda enrolada ao corpo da jovem sinhá. E de braços
abertos a negra fala palavras e palavras não entendíveis, mas que
tinha um grandioso poder sobre toda a floresta. Suas palavras como em
oração, foram arrancando toda as energias e forças daquele animal
peçonhento, deixando-o enfraquecido de tal forma que fora soltando o
corpo da jovem.

    A jovem se solta, mas cai sem sentidos, ficando junto ao corpo de
sua amiga, que também se encontrava em um sono profundo.

    O raio de luz que antes estava sobre o corpo de Benedita, passa a
iluminar a grande sucuri, e com tamanha intensidade que o couro do
animal passa a exalar um terrível cheiro de enxofre, e como se
estivesse sendo queimado, fumaça negra saía das rachaduras feitas pela
intensidade do calor.

    Em pouco tempo o obsessor que estava em forma de animal era apenas
um pó negro espalhado pelo chão da floresta.

    A negra Benedita tenta superar a fraqueza e buscar forças para se
aproximar das duas moças. E arrastando seu corpo chegou até elas,
observando que a amiga de sua sinhazinha estava apenas com um profundo
sono, mas a pobre menina sinhá estava inerte, com partes do corpo
dilacerado, ossos partidos, sangue se demonstrando através dos poros.

    De um pequeno embornal que trazia em sua cintura, Benedita pegou
duas ou três ervas, macerou, fazendo sair o sumo, e dando para a amiga
da sinhá tomar, que em poucos segundos desperta do encanto do
obsessor.

    Em lágrimas Benedita pede ajuda a menina, que ela trague água
fresca, pois precisaria para fazer emplastros para serem colocados
pelo corpo da sinhazinha.

    A jovem obedece sem pensar, saindo em direção de um rio próximo
que vira ao passar até aquela clareira. E retorna rapidamente,
enquanto a negra buscava mais folhas e raízes da santa mãe floresta,
para que assim pudesse salvar a vida de sua sinhá menina.

    Com tudo que necessitava nas mãos, com as lições que aprendera com
a velha Joaquina na mente, e com a fé que tinha em todos Orixás, a
negra Benedita se pôs a fazer suas benzeduras, emplastros, cura e
orações. Com lágrimas nos olhos se colocou de joelhos, clamando a Deus
que salvasse a jovem. E suas orações foram atendidas, pois a mesma
luz que antes dera forças a negra para chegar até a grandiosa cobra,
e  após fizera desaparecer o animal como por encanto, agora estava
iluminando o corpo da jovem sinhá, aquecendo-o, introduzindo pelos
poros as forças e energias das ervas benditas que eram utilizadas para
curar as feridas e as quebraduras do frágil corpo de menina.

    Na fazenda cafeeira, o negro Benedito tem um encontro incomum,
pois diante dele, no momento em que fazia uma oração, aparece a imagem
de um negro com ar sereno, de sorriso fraternal, lhe dizendo que sua
sinhazinha corria perigo, e que ele deveria interceder ao coronel da
fazenda, para junto com ele, sair para buscar a jovem.

    Benedito saindo em disparada, chamando a velha Joaquina, lhe conta
rapidamente o que se passou, e ela prontamente vai até os aposentos do
coronel e de sua sinhá, que seguem a negra até Benedito.

    Rapidamente o coronel reúne seus feitores e jagunços, e partem
seguindo o negro Benedito, e esse segue as orientações da imagem do
negro de olhar sereno, que os leva até a clareira onde está a negra e
as duas jovens.

    Ao chegar no local, o coronel vendo sua filha ainda deitada ao
chão, busca entendimento, e fazendo perguntas deseja saber o que houve
e como as jovens foram parar nesse lugar e nessa situação, e porque a
negra Benedita, que ele acreditava que estaria na fazenda estava ali.

    Mas antes de qualquer resposta explicativa, Benedita observa que
a sinhazinha abre os olhos. Lágrimas nascem e se espalham  pelo rosto
daquele rosto de menina. Ela se ergue, abre os braços e abraça a
negra, agradecendo por ter salvado sua vida, as duas choram
copiosamente abraçadas.

    Benedito chorando intensamente, agradece a imagem do velho negro
de olhar sereno, e esse parte dando um leve sorriso.

    Após as explicações dadas ao coronel, tanto pelas jovens e pela
negra Benedita, ele se atira a seus pés agradecendo pela coragem e fé
da mucama, que salvou sua única filha das garras da morte. Mas ela
humildemente diz que nada fez, e que deveria sim agradecer a Deus e
aos Orixás que a encaminharam até as profundezas das matas. E assim o
coronel o fez.

    Ao retornarem a fazenda, fizeram uma grande festa, e nessa festa
homenagearam os negros, os Orixás, as Entidades de Luz (como o velho
negro de olhar sereno), e claro, também a Benedita, ao seu primo
Benedito e a velha Joaquina, que mesmo na fazenda ficando, estava em
orações em prol da vida da sinhazinha.

    Muitos e muitos anos se passaram, o coronel da fazenda, em estado
crítico de saúde física, já não podendo mais administrar suas terras,
não tendo mais como conduzir seus feitores e jagunços, passou o
comando para um afilhado seu, um homem de poucos sorrisos e sem
coração. Odiava os negros como se esses não fossem de carne e osso
como os brancos. E esse ódio foi derramado sobre o negro Benedito
quando um fato inusitado ocorreu.

    Podemos entender esse acontecimento vendo a história de Vô
Benedito, no qual anexamos o link abaixo:

A História de Vovô Benedito da Calunga.



    Após açoitar e torturar o negro no tronco, o jovem coronel manda
arrancar os dentes de Benedito, deixando-o praticamente sem vida.

    Ao saber de toda covardia do jovem coronel com seu primo e amigo,
a velha negra Benedita não se fez de rogada, foi até o rapaz e
expressou seu descontentamento de uma forma raivosa, o jovem coronel a
empurra e diz que se ela voltasse a importunar com aquele assunto, ela
que iria ao tronco. Mas mesmo essas ameaças não intimidaram a velha
Benedita, que continuou falando sobre a covardia intensa do coronel
afilhado.


    O jovem coronel enraivecido, manda seus feitores levarem a velha
negra ao tronco, dizendo que será lá que ela iria morrer. Ao saber do
fato, sua protetora, a sinhazinha, implora pela vida da negra, e sem
dar atenção ao clamor da sinhá, o coronel afilhado continua observando
seus feitores arrastar a negra para longe da casa grande sobre os
gritos de desespero da sinhazinha.

    Como percebeu que nada adiantaria seus pedidos de clemência pela
vida da negra, a jovem sai ao encontro de seu pai acamado em seus
aposentos, conta-lhe todo o sucedido, inclusive o fato sobre o negro
Benedito, e pede para ele interceder e ordenar a seu afilhado a parar
imediatamente com as covardias sobre os negros.

    O coronel, muito fraco, manda que tragam o seu afilhado até ele, e
que soltem imediatamente a negra Benedita do tronco. E assim foi
feito.

    Com uma longa e árdua conversa, o velho e doente coronel ordena
que as coisas sejam feitas de acordo com o desejo dele, e que não ia
ser admitido mais o uso da chibata e de torturas no tronco em seus
negros.

    O coronel afilhado fez menção de compreender as palavras do velho
adoentado, mas dentro de si corria um ódio descomunal, mas conforme
ordenou seu padrinho, ele obedeceu. Mandou tirar o tronco das
senzalas, não mais açoitava os negros, não perseguia mais a velha
Benedita.

    Mas seu olhar era de vingança, seu coração não entendia o que
seria entender um semelhante, sua mente perversa imaginava o dia no
qual pudesse se vingar da velha negra, aquela negra que entrava e saía
da casa grande como se fosse da família. Ele odiava ver a sinhazinha
dando largos sorrisos a sua mucama, odiava a proteção dada por ela
aos negros.

    Algum tempo se passou, e o coronel adoentado fez seu desencarne, e
naquele momento o afilhado viu a oportunidade de se vingar dos negros.
Pelo motivo que só existia na cabeça doentia dele, mas usou desses
motivos sem nexo, e do desencarne do seu padrinho para no dia após da
passagem do velho coronel, mandar recolocar o tronco de torturas nas
senzalas, demonstrando assim suas intenções.

    Sete dias se passaram, e assim o jovem coronel da fazenda ordena a
seus feitores que tragam a velha Benedita até o tronco, e assim foi
feito. Sem que a sinhazinha soubesse do fato, levaram a negra para uma
distante senzala abandonada, e lá, com a chibata nas mãos, a negra
acorrentada ao tronco, o jovem coronel com um sorriso irônico diz a
negra, que demorou mas ele iria se vingar da vergonha que ela o fizera
passar diante da família do velho coronel.

    Ele com todo ódio reprimido dentro de seu ser, açoita a velha
negra, e cada vez mais forte e mais rápido. Após várias chibatadas,
seu corpo dilacerado, sangue escorre pelas vestes, lágrimas rolam na
face.

    O coronel entrega o açoite nas mãos de um dos feitores, mandando
que ele faça todo o serviço, pois ele desejaria apenas ficar olhando,
e saborear o sofrimento da negra.

    A cada chibatada o coronel dizia a velha negra, que se ela
implorasse por sua vida, talvez ele a poupasse. Mas ela deveria o
convencer disso.

    A negra o olha firmemente nos olhos e diz:

    "Não posso implorar, pois estaria implorando não pela minha vida,
mas sim pela sua. Pois a cada chibatada que me defere no corpo, está
deferindo contra sua própria alma. E sua alma não mais tem salvação."

    O coronel ao ouvir isso ficou com muito mais ódio. E gritando
ordenou ao feitor que açoitasse a negra com mais força, pois queria
ver se ela não ia implorar pela sua vida.

    A cada chibatada deferida, a negra olhava mais fixamente ao
coronel. Seu semblante, antes de dor, se transformava em um olhar
sereno, tranquilo, em paz.

    Novamente o coronel afilhado diz a negra:

"Implore negra maldita, implore pela sua vida."

    Ela apenas sorriu. E em palavras serenas e lentas disse ao
coronel:

"A cada chibatada dada em meu corpo e a cada gota de sangue derramado
pela covardia do senhor branco, será a perda das forças do seu andar.
Implore senhor coronel, implore a Deus que eu não desencarne, pois
assim se acontecer, eu partirei para o reino de Deus, mas o senhor
ficará se arrastando como uma cobra peçonhenta pelas terras ferventes
desse mundo de branco e senhores de escravos."

    E nesse instante o feitor açoita firmemente a velha negra, que
fecha os olhos e faz seu desencarne, no mesmo momento que o coronel
sente suas pernas fraquejarem, e ele desaba ao chão, sem forças para
se mover.

    Nesse dia a velha negra Benedita foi para o reino de Deus, foi
abençoada em se tornar uma Entidade de Luz trabalhadora pela
espiritualidade, e o coronel afilhado nunca mais deu um passo. Passou
seus últimos anos de vida se rastejando pelos entornos da casa grande
da fazenda cafeeira.

    Na mesma noite do desencarne da velha negra, ela em espírito vai
até a seu primo Benedito, a velha Joaquina e a sua amada sinhazinha,
dizendo-lhes que estaria sempre junto a eles, e que logo eles estariam
junto a ela no reino de Pai Oxalá.

    Nos dias de hoje a sorridente, amável, brincalhona e caridosa
Vovó Benedita das Almas, vem trabalhar junto a espiritualidade nos
Terreiros de Umbanda, trazendo paz, caminhos abertos, saúde e muita
alegria a seus filhos, consulentes e protegidos.


    Salve a linda Vovó Benedita das Almas!

    Adorei as Almas!


Carlos de Ogum.



domingo, 20 de março de 2016 76 comentários

ENTENDENDO SOBRE DESENVOLVIMENTO MEDIÚNICO E ESPIRITUAL




    Sempre nos falam de desenvolvimento mediúnico, por muitas vezes
vamos a terreiros de Umbanda e uma Entidade de Luz, um Pai ou Mãe de
Santo nos diz que devemos nos desenvolver mediunicamente para podermos
trabalhar com nossas Entidades de Luz, para que possamos caminhar em
caminhos iluminados, para que possamos sanar alguns males que achamos
que poderia ser do corpo, enfim, é uma frase que podemos ouvir
periodicamente, que as vezes pode ser real, e em outras vezes nada tem
a ver com o fundamento de algum problema que estamos passando naquele
momento.

    Mas o que vem a ser o desenvolvimento mediúnico?

    Abaixo vamos tentar deixar um pouco mais claro e compreensível
essa ação tão importante para nós, médiuns de sensibilidade um pouco
mais ativa.

    Para iniciar gostaria de esclarecer que todos os seres humanos são
médiuns, independente de raça, cor, opção de vida, religião, com ou
sem fé em algo, todos somos. O que diferencia um médium de outro e o
grau de mediunidade, o quanto de sensibilidade essa mediunidade
representa para o médium, e claro, o quanto de desenvolvimento
mediúnico tem esse médium no caminhar de sua vida.

    Gostaria também de frisar que o desenvolvimento nunca termina,
estamos em eterno aprendizado sobre tudo relacionado a espiritualidade
e claro que a mediunidade está nesse aprendizado, portanto melhoramos
a cada dia nossa condição de aparelho receptor, seja para
incorporação, para recebimentos de mensagens, para visualização e
audição do mundo espiritual, seja em nossas intuições, enfim, todo e
qualquer tipo de mediunidade que possamos ter e desenvolver, tem uma
considerável melhora, e assim podemos administrar todas essas coisas
deslumbrantes, e assim usarmos para fazer a caridade e auxiliarmos um
irmão dentro daquilo que esteja necessitando, no que diz de teor
espiritual.

    Vamos esclarecer também que devemos sempre pregar o
"Desenvolvimento Mediúnico e Espiritual", ou seja não adianta fazermos
nosso desenvolvimento mediúnico em uma casa de Umbanda, e fora dela
nosso espírito, nossa alma e nossa aura estejam totalmente indo ao
inverso daquilo que se é pregado pelos Guias, pelos Zeladores, pelos
Pais ou Mães de Santo. Assim com certeza seu desenvolvimento não
passará de algo mistificador, sem coerência, enganativo. Portanto
sempre que lermos nesse texto a palavra "desenvolvimento", podemos
considerar que é para ser entendido que estaremos falando de
"desenvolvimento mediúnico e espiritual".

    Vamos iniciar esse pequeno texto dizendo que cada casa tem suas
particularidades no que é chamado desenvolvimento de seus médiuns,
dizendo também que tem algumas casas que nem fazem o trabalho de
desenvolvimento. Mas devemos ter na consciência que esse trabalho é de
grande importância, não só em relação ao entendimento e aumento de
sensibilidades do grau mediúnico do médium que está se desenvolvendo,
mas também para o bom andamento da casa e de toda caridade cedida aos
consulentes, que estão ali em busca de um auxílio das Entidades de
Luz e não para ver apresentações teatrais de médiuns despreparados e
vaidosos.

    Normalmente quando o médium está preparado para seus trabalhos de
caridade, na qual fora visto um progresso na sua vibração mediúnica
pela Entidade de Luz responsável pelo desenvolvimento, é feito em
algumas casas o ritual de "coroação", e em outras casas se faz o
ritual do Amaci, que se consiste na lavagem da coroa (cabeça) com água
e ervas selecionadas para cada filho. Frisando que tanto a Coroação
quanto o Amaci, são rituais que demonstram que o filho está preparado
sim para os trabalhos mediúnicos de caridade, mas conforme dito acima,
o desenvolvimento continuará, e vai estar sempre progredindo de
acordo com o próprio progresso do médium diante dos trabalhos de
incorporação, para auxílio de seus semelhantes, portanto esses rituais
são feitos para demonstrar e justificar que o médium em questão está
apto a seguir em frente, podendo ser entregue a ele novas
responsabilidades, como por exemplo, o atendimento a consulentes
mediante incorporação.

    Esses rituais também é como um troféu por um bom trabalho de
condicionamento do médium, que se preparam por meses até anos e anos,
para que possam ter a benção de uma incorporação, com uma Entidade de
Luz, para prosseguir o trabalho de caridade junto aos que necessitam.

    Para chegarmos ao ponto de sermos coroados ou aptos a fazer o
Amaci, devemos participar das Giras de desenvolvimento (isso nas casas
que tem essas Giras), controlar nossa ansiedade, pois esse trabalho é
árduo e longo, em alguns médiuns pode se levar alguns meses, e em
outros levam anos a fio. Tudo dependerá do grau de mediunidade de
cada filho.

    Normalmente é observado pelas Entidades de Luz, ou Mentores, ou
Pais ou mães de Santo, as incorporações, as mensagens e o teor delas
passadas pelas Entidades da Coroa do Médium, deslocam esse médium para
alguns trabalhos na casa, como correntes, descarregos, desobsessões,
até consultas a assistência. Porém, cada procedimento varia de uma
casa para outra, e de um Pai ou Mãe de Santo para outro.

    Normalmente essas colocações, esses desenvolvimentos, esses
"testes", por não serem regrados, vai de acordo com a aprendizagem de
cada responsável pelo trabalho, no qual aprenderam com seus Zeladores
ou Mentores, e assim perpetuam em suas casas da mesma maneira do
aprendizado.

    Muitas pessoas que buscam o desenvolvimento, acreditam que estão
ali apenas para fazer presença, aguardar o grande dia da coroação, mas
na verdade não é bem isso, pois a coroação do médium não se limita
apenas a um ritual do Amaci, ou mesmo a raspagem, ou qualquer tipo de
demonstração a assistência. Devemos considerar isso apenas um ponto do
desenvolvimento, pois a grandeza de tudo está contida nos meses ou
anos a fio de aprendizagem, de trabalhos de ascensão das ondas de
vibração da coroa de um médium, para chegar nas proximidades das ondas
vibracionais de uma Entidade de Luz, para que assim seja feita o
aceite de uma provável incorporação.
    Na maioria dos casos, um grande erro de um médium, ou mesmo do
responsável por seu desenvolvimento, é deixar que a ansiedade extrema
tome conta da mente do médium, ou seja, se perde muito tempo
imaginando o dia da coroação ou da lavagem do que estabelecer um
processo de trabalho correto de desenvolvimento, independente do tempo
que isso leve.

    Essa ansiedade pode demonstrar que o médium deseja muito estar ser
preparado, mas isso com certeza torna o aprendizado extremamente
deficiente, pois certamente a ansiedade, a intemperança e a
impaciência são obstáculos para um processo de aprendizagem e manuseio
de seu instrumento de trabalho em prol da caridade, que é a
mediunidade.

    A corrente de Umbanda tem como forma básica de trabalho, os médiuns
em desenvolvimento (os que estão se preparando para assimilar sua
mediunidade), os médiuns desenvolvidos (que já fizeram o ritual do Amaci
ou a coroação) e as Entidades de Luz.

    Temos também os médiuns escolhidos para servir como instrumento
aos Mentores Espirituais da Umbanda, e esses devem ter a compreensão
de que são partes de grande importância, pois essas etapas de escolha,
de ensinamentos, de desenvolvimento, até chegar uma possível coroação,
são importantíssimas para o bom e seguro trabalho de uma Gira
(corrente) umbandista.

    Essa preparação é tão grandiosa, com tantos preceitos, englobando
tantos passos, que uma boa parte dos médiuns em desenvolvimento
desistem do serviço de sacerdote que iriam desempenhar, e isso
simplesmente porque não conseguiram controlar seus impulsos de
ansiedade, e desejam extremamente estar trabalhando com suas
Entidades, fazendo assim com que todo o desenvolvimento possa ser
perdido. Em fatos assim, normalmente acreditam que um simples
sentimento da vibração intensa da Entidade, ou um simples arrepio, ou
uma falsa intuição, já é o suficiente para se dizer incorporado,
fazer atendimento a consulentes, aplicar passes e rezas, receitar
obrigações, oferendas, banhos de descarregos, acreditando até que seja
possível a realização de trabalhos de desmanches de magias. Com isso
se inicia a mistificação, crescendo a vaidade, demonstrações de
diálogos sem noção e sem nexo, fazendo assim uma constante soma de
erros espirituais, tornando esses atos extremamente perigosos para os
consulentes, para todo andamento do terreiro, para o corpo de médiuns
trabalhadores de uma casa, e claro, principalmente para o médium
mistificador e mal desenvolvido, pois esse não tem a percepção de que
a mediunidade pode ser de extrema valia, com grande feitos e útil ao
médium desenvolvido, mas em caso contrário pode ser algo desastroso,
sendo ela um salto para um precipício infinito.

    Como podemos notar, muitas pessoas brincam em demasia com a
mediunidade, mas devemos compreender que a mediunidade sem o devido
preparo, é como um homem que empunha uma espada sem o treino da
habilidade para a luta, assim, fatalmente alguém sairá ferido no
findar do combate, e muitas das vezes é o próprio homem, ou alguém que
não se encontrava destinado a fazer parte dessa luta.

    Então para que um médium tenha um bom desenvolvimento, deverá
antes de qualquer coisa, cultivar a paciência e controlar seus
impulsos de ansiedade. pois a paciência deve ser prioridade a todos os
filhos e filhas que desejam servir a Deus e trabalhar com suas
Entidades de Luz de uma forma correta e acertada.

    Muitas pessoas vão a uma Gira uma ou duas vezes, e imaginam estar
preparados para um trabalho de incorporação as suas Entidades de Luz,
e isso não é bem assim, não se enganem, e pior não tentem enganar as
Entidades, pois isso não vai acontecer. O desenvolvimento não tem
tempo limite para se findar, como já foi dito, enquanto ser humano
estaremos em evolução espiritual, sabendo que todos humanos são
médiuns, certamente estamos em dois caminhos, evolução espiritual e
desenvolvimento mediúnico. Portanto não adianta ter pressa, não
adianta mistificar, não adianta induzir, não adianta achar que já tem
preparo para esse lindo trabalho de caridade, sem realmente o tê-lo.

    O tempo de início de um trabalho de desenvolvimento propriamente
dito, até a coroação, não pode ser marcado a esmo, vai depender
exclusivamente de cada ser, do grau, sensibilidade, de cada tipo de
mediunidade, e consideramos também, logicamente, o modo de agir e ser
durante o dia a dia. Pois o médium em desenvolvimento, para acelerar o
trabalho de desenvolvimento de sua coroa, não basta apenas fazer parte
de uma casa umbandista, se deve deixar para trás alguns conceitos e
sentimentos ruins, que fizeram parte de sua vida e nunca lhe ajudaram
a evolução e desenvolvimento, tais como a crença sem limites, o
julgamento e condenações eternas a seus semelhantes, ou o medo temor e
pregações de um Deus vingativo e cruel, que troca suas bençãos por
certas quantias em dinheiro, ou mesmo a unicidade da existência, ou
ainda a religiosa supremacia de uma única raça e a demonização de
irmãos e amigos desencarnados ou até mesmo encarnados. Conceitos que
afastam o médium de sua importância no intercâmbio espiritual e o
lança a um mundo materialista, obscuro, sem fundamentos, levando-o a
escuridão eterna.

    O próximo passo nesse processo chamado de desenvolvimento é
aprender e aceitar ser guiado por seu mestre (Pai ou Mãe de Santo,
Zelador, Mentor, ou Entidade de Luz que está auxiliando no
desenvolvimento), ou seja, caminhar com as regras determinadas por
seu mestre, entender cada passo, aceitar essa caminhada, mesmo que
seja árdua, certamente não será só flores, pode se esperar que as
lições dadas, as mensagens passadas, as cobranças, por algumas vezes
vem de forma simplificada, mas em outras vezes virá de uma forma
extrema, com demonstrações que possam parecer uma cobrança sem
limites, que até achamos que não conseguiremos finalizar nossa
caminhada, mas certamente tais lições vão, além de fazer seu
desenvolvimento mediúnico florescer com maior brilhantismo, seu
desenvolvimento espiritual, sua evolução irá dar um salto grandioso, e
assim chegar ao ponto onde é desejado pelas Entidades de Luz.

    É sábio que um médium em desenvolvimento necessita de um tempo
para assimilar todas essas coisas que ouvirá do Guia ou Zelador
responsável, todas as lições de comportamento, de controle de
sentimentos, do modo de agir, pensar ou falar, e todas essas
informações são levemente dosadas dia a dia, gira a gira, conversa a
conversa, ensinamento a ensinamento. Não se aprende tudo em um único
dia ou em um único mês, pois é preciso muito tempo para a assimilação
das palavras dadas, muita observação constante de tudo que estará
vivenciando ao longo dos meses e anos.

    Se deve também refletir e compreender as diferentes opiniões e
modo de agir de seus irmãos de corrente, de seus semelhantes,e saber
tirar disso o principal de tudo: A paciência.

    O desenvolvimento mediúnico e espiritual envolve, mesmo que seja
dificultoso para uns, ou doloroso para outros, a aceitação das
diferenças comportamentais, ideológicas, religiosas, morais e sociais,
não só de seus irmãos de corrente, dos consulentes e assistentes dos
rituais umbandistas, mas de todos seus semelhantes. Pois mesmo que se
tenha um pouco mais de conhecimento no que se diz sobre a religião,
suas regras, seus rituais e toda fascinação que envolve a
espiritualidade, não deverá se colocar acima dos demais como senhor da
verdade, apontando-lhes as falhas e tropeços da caminhada.

    Devemos constantemente nos manter ligados na oração, buscar a
essência divina e o esforço por uma vida espiritual elevada e pessoal
mais regrada, devem fazer parte do trabalho de desenvolvimento para o
serviço mediúnico nos terreiros de Umbanda.

    Para conseguirmos certa elevação espiritual e assim preciosas
inspirações e intuições dos Mentores de Aruanda, o médium em
desenvolvimento, deverá se colocar na posição de humildade,
demonstrando a alma necessitada que é, para assim buscar a força e
energia necessária através de horas de conexão com a força
vibracionais das Entidades de Luz e assim chegar a um plano superior.

    Assim, terá experiência suficiente para discernir entre a
comunicação de um Guia Superior ou a ardilosa verborragia de uma
Entidade sem luz, como Kiumbas, Eguns ou Zombeteiros. Assim sendo a
confirmação para o trabalho mediúnico chegará no tempo certo não sem
antes a verdadeira compreensão do trabalho honesto, verdadeiro e sem
mistificação.

    Após essa confirmação íntima de sua responsabilidade como médium a
serviço da Espiritualidade Maior, virá das ordens de Zambi (Deus) o
poder necessário aos responsáveis pelo desenvolvimento (Mentores,
Zeladores, Entidades de Luz) para demonstrar que esse médium está apto
a desempenhar o trabalho corretamente. É quando descem da Corrente
Astral as irradiações poderosas dos Orixás que formam as Sete Linhas
de Umbanda. A partir daí, o médium poderá ter sua coroa confirmada
pelo Guia Chefe e pelos seus próprios Mentores.

    Muitas pessoas me perguntam se são médiuns ou não, como frisei
acima, todos nós somos médiuns, e a explicação é simples, pois é
extremamente natural nos comunicarmos com espíritos desencarnados, e
eles conosco, pois como é sábio nós também somos um espírito, apenas
diferenciando que ainda estamos encarnados. Sendo assim, como uma
relação entre espíritos encarnados com espíritos encarnados, temos a
mesma condição de termos esse contato de espírito encarnado com
espírito desencarnado, sem que algumas das vezes, tirando claro
algumas exceções, não o vemos, mas o ouvimos, e em outras vezes o
vemos mas não o ouvimos, ou vemos, ouvimos, sentimos, ou qualquer
outro contato espiritual de um plano para o outro, isso claro com a
dependência de grau, tipo e sensibilidade mediúnica.

    Portanto todas as pessoas recebem as influências dos espíritos, a
todo dia, hora e momento, mas a maioria não percebe esse intercâmbio
oculto, pois em seu mundo íntimo, no seu dia a dia, em sua forma de
agir, no seu estado de alma, nos seus pensamentos, pressentimentos,
intuições, e toda forma de ser, não é taxado como coligação entre
espírito encarnado e desencarnado, e sim uma colocação simples de
apenas ser, como se fosse algo não coligado, portanto muitas pessoas
não entendem que essa captação diária de fatos tem a ver com a ligação
com um plano oculto, e se todos nós temos esses impulsos, podemos
afirmar que todos nós somos médiuns.

    Sendo dessa forma, algumas dúvidas surgem, como por exemplo, se
somos todos médiuns, como não são todas as pessoas que se possibilitam
ao trabalho da incorporação por exemplo?

    Essa resposta vem dos fatos mencionados acima, como o grau e o
tipo de mediunidade de cada um, pois existem pessoas que essa
mediunidade passa desapercebida, enquanto em outras que o intercâmbio
é ostensivo. Nelas os fenômenos são marcantes e frequentes, como ´por
exemplo a psicografia ou a psicofonia, e com o passar do tempo dentro
de um trabalho de desenvolvimento, a incorporação de Entidades de Luz.

    A palavra "médium" serve para os dois gêneros, quer dizer
"medianeiro", ou seja, que está no meio. E como de fato é assim que é
visto o médium, pois ele fica entre o mundo físico e o mundo
espiritual como intermediário, podendo ele ser o intérprete ou
instrumento tanto para o espírito quanto para uma Entidade de Luz
(espírito já evoluído).

    A mediunidade é algo natural, sendo algo natural manifesta-se
espontaneamente, mas pode ser exercitada e claro, desenvolvida.

    E esse desenvolvimento não depende de idade, de sexo, de condição
social, filiação religiosa, ou determinadas casas, ou seja, não há uma
casa de Umbanda que seja melhor que a outra para esse trabalho, claro
levando em conta a honestidade dos responsáveis por essa casa.

    A importância de um bom desenvolvimento se dá, pois normalmente
uma pessoa com um grau de mediunidade elevada, que tenha uma
sensibilidade mediúnica um tanto demonstrativa, pode por muitas vezes,
sem ter o preparo adequado, atrair espíritos sem luz, obsessores,
conhecidos como Eguns, Zombeteiros ou Kiumbas, e assim sendo esses
espíritos sem luz, trazendo grandes perturbações ao médium em questão,
em seu corpo físico, sua vida social e pessoal. E essas perturbações é
simplesmente uma falta de equilíbrio emocional e a ignorância de
entendimento do que seja a mediunidade.

    E como saberemos que nosso grau de mediunidade é um tanto elevado,
de tal tamanho que devemos tomar a decisão de buscarmos um trabalho de
desenvolvimento?

    Bem, para tomarmos uma decisão desse nível, devemos ficar atentos
a alguns sintomas, sintomas esses que podemos presenciar dia a dia de
nossa caminhada na vida terrena, e esses são:

Sensação de presenças invisíveis: Quando estamos em algum ambiente
qualquer, podendo estarmos sós ou não (falando de companhia encarnada,
e sentimos a presença de mais  alguém, não o vemos, mas sentimos e
sabemos que está ali. E essa presença nos prende a atenção, muitas
vezes nos sentimos incomodados, um tanto sem explicação.

Sono profundo demais, síncope inexplicáveis (perda repentina da
consciência com suspensão aparente das funções vitais de circulação e
de respiração), desmaios: Tendo esses sintomas, a primeira providência
a ser tomada deve ser buscar ajuda e diagnóstico de um profissional na
área de saúde. Após esse passo, caso não tenha nenhum mal físico ou
psicológico, nenhum problema aparente em exames laboratoriais, e
sempre indicado buscar uma casa de Umbanda para o trabalho de
desenvolvimento mediúnico, com aval, claro, do responsável pelo
atendimento no Terreiro.

Sensações ou ideias estranhas, mudanças repentinas de humor, crises de
choro: Quando um espírito sem luz, um obsessor percebe em uma pessoa o
seu grau de mediunidade elevado, e a sensibilidade aflorada para tal,
esse espírito sem luz busca de todas as formas afastar esse médium de
uma casa de Umbanda e de seu desenvolvimento, pois assim ele poderá
tomar conta de seus atos, modo de agir e pensar. E essa atitude é
tomada fazendo com que o médium se torne agressivo, deprimido, com
atitudes de uma pessoa com desequilíbrio mental e até suicida. E isso
é feito para que esse médium seja desacreditado pela sociedade e por
ele mesmo, não fazendo o desenvolvimento, e assim não tendo chances de
trabalhar com uma Entidade de Luz em prol da caridade, e com esses
fatos, logicamente o bem que deveria ser feito não o será, dando
forças para o trabalho do mal desses obsessores.

Ballonement (sensação de inchar, dilatar) nas mãos, pés ou em todo o
corpo, como resultado de desdobramento perispiritual: Essa sensação é
bem incômoda, e temos realmente a sensação de estarmos com os membros
inchados de uma tal maneira que nos sentimos até com o corpo pesado.
Frisando que isso não é visto pelas pessoas em nosso convívio, e sim
apenas nós sentimos.

Adormecimento ou formigamento nos braços e pernas: Quando estamos com
a sensibilidade mediúnica em uma grandeza que nos faz captar vibrações
de outras pessoas, que também se encontram no mesmo nível de
sensibilidade que estamos, e não estamos em trabalho de
desenvolvimento, sentimos um grande formigamento e adormecimento nos
membros inferiores e superiores, e isso se dá pela força da energia de
cada médium, como se fosse um imã. Logicamente ao sentirmos esses
sintomas, deveremos em primeiro lugar buscar um profissional na área
médica, caso não tivermos nenhum problema físico partiremos para a
busca de um desenvolvimento.

Arrepios como os de frio, tremores, calor, palpitações: Esses
sintomas, não sendo males de saúde do corpo físico, é uma
característica clara que devemos buscar um desenvolvimento. Esse
sintoma se dá tanto pelo encontro vibracional de outros médiuns na
mesma situação, como um possível ataque de espíritos sem luz (Eguns,
Kiumbas e Zombeteiros), tentando destabilizar o médium para que esse
acredite estar adoentado.

    E como é o básico de tudo?

    Como desenvolver a mediunidade?

    Algumas pessoas acham impossível, outras acham simples até demais,
mas na verdade como estamos no meio de tudo, vamos dizer que não é tão
fácil desenvolver a mediunidade, mas também não é impossível, pois
dentro do ponto de vista umbandista, o desenvolver não é apenas se
dizer estar com uma Entidade de Luz, puxar um consulente e dizer o que
vier a cabeça (isso para médiuns conscientes ou semi-conscientes),
não é apenas dizer que recebeu uma mensagem, que teve uma intuição, um
sonho de revelação, que ouviu ou viu um espírito. O desenvolvimento
se consiste em apurar e disciplinar a sensibilidade espiritual a fim
de tê-la nas melhores condições possíveis de manifestação ou
incorporação, e claro, aprender a empregá-la da melhor maneira visando
sempre o bem estar do consulente, do assistente, dos irmãos de
terreiro, das causas umbandistas, das Entidades de Luz, e de todo
trabalho de caridade de uma casa de Umbanda.

    O caminho mais acertado a fazer esse desenvolvimento deve abranger
três partes importantes, que são: Doutrinária, técnica e moral.

DOUTRINÁRIA

    Um médium deve conhecer e entender a doutrina espírita umbandista
para compreender o universo, a si mesmo e a todos os seres como
criaturas evolutivas que são regidas pela lei de causa e efeito, ou
seja, você recebe aquilo que você doa. Dentro da Umbanda não se pode
fazer o mal, não é aceito que um médium se prepare, se desenvolva com
intenções mesquinhas, prepotentes, injustas, que vão  contra as leis
de Deus.
Toda a atenção especial será dada à compreensão do intercâmbio
mediúnico, ação do pensamento sobre os fluidos, natureza e situações
dos espíritos no Além, perispírito e suas propriedades na comunicação
mediúnica, tipos de mediunidade, em especial o respeito extremo as
Entidades de Luz.

TÉCNICA

    O médium tem que se colocar em um trabalho de desenvolvimento
dentro do exercício prático, aproveitando todas as oportunidades para
desenvolver esse lado, pois será na prática intensa que esse médium
começará a reconhecer acertos e erros, deverá se empenhar na luz do
conhecimento espírita umbandista, dessa forma entenderá a diferença e
saberá distinguir os tipos de espíritos pelos seus fluídos,, podendo
assim trabalhar sem receio de entregar sua coroa a um obsessor ou a um
Zombeteiro, acreditando estar com uma Entidade de Luz, coisa que
acontece periodicamente em terreiros de Umbanda, principalmente com
médiuns vaidosos e sem preparo, e isso claro é extremamente
prejudicial aos consulentes que vem em busca de ajuda e ao próprio
médium, por estar atrasando sua evolução, tanto mediúnica, quanto
espiritual, e apenas fica alimentando e dando energia a esses
espíritos sem luz.

    A técnica também é muito importante para o médium aprender a se
concentrar ou desconcentrar, entender o desdobramento, controlar-se
nas manifestações (como em um trabalho de descarrego ou desobsessão)
analisando o resultado que esse trabalho vai produzir para o bom
andamento da casa, ou do bem estar do consulente e dos próprios
médiuns.

MORAL

    Muitos pensam que o desenvolvimento para ser bem feito, basta
apenas frequentar um terreiro de Umbanda, ser colocado nas vibrações
dos passes de energia de uma Entidade de Luz, tomar banhos de limpeza
de aura, fazer defumadores, auxiliar na casa em seus afazeres, enfim,
um trabalho limitado a quatro paredes. Mas não é bem assim, pois o
trabalho de desenvolvimento vai além disso, por esse motivo ele tem o
nome de "desenvolvimento mediúnico e espiritual". Temos que ter na
consciência que não só adianta a doutrina e a técnica, temos que
elevar, e elevar grandiosamente, a nossa condição moral. É
indispensável a nossa reforma íntima para elevarmos a nossa moral, e
assim nos libertemos de  espíritos perturbadores e obsessores, para
que possamos assim ter condição de sintonia com os bons espíritos e
recebermos orientações de nossas amadas Entidades de Luz para que seja
algo louvável nosso trabalho mediúnico.

    O respeito a nossos Guias, nossos Orixás, nosso amado Deus, a
orientação umbandista nos leva a vigilância, a oração, a boa conduta e
a caridade com nossos semelhantes, vai sempre atrair a nosso encontro
e nosso convívio a assistência espiritual superior.

    Por esse motivo, devemos ter sempre em mente que a elevação de
nossa vida moral, nos eleva também nossa vida espiritual e a nossa
mediunidade.


    O desenvolvimento nos traz a possibilidade de entender o nosso
tipo de mediunidade, o grau e o quanto de sensibilidade temos. Muitas
pessoas ao adentrarem a um terreiro de Umbanda acredita que vão logo
obterem uma incorporação com uma Entidade de Luz, não se apegam nas
regras do desenvolvimento bem feito, para que não haja futuras
mistificações.

    Muitas pessoas me procuram com perguntas como "Qual é minha Pombo
Gira?", "Qual meu Exú?", "Quantas e quais são as Entidades que
trabalho?"

    E quase sempre tenho que repetir as mesmas e velhas perguntas:

    "Você é de algum terreiro de Umbanda?"

    "Está em desenvolvimento mediúnico e espiritual a quanto tempo?"

    E normalmente a grande maioria das pessoas respondem ou que estão
a poucos meses, ou mesmo a poucas semanas, e ainda temos os que
respondem que nunca foram a um Terreiro de Umbanda, e nem sabem o que
é um desenvolvimento.

    Só desejam saber sobre os "Guias" por curiosidade.

    Tem ainda algumas pessoas que me procuram desesperadas, e não são
poucas, que dizem: "Fui a um terreiro, o Pai de Santo disse que sou
médium, preciso desenvolver. Entrei para o Terreiro, já estou lá a
quase um mês e já senti arrepios, mas vejo e ouço tudo que acontece,
acho que meu desenvolvimento está sendo feito errado."

    Como disse anteriormente, a ansiedade é uma palavra que não cabe
juntamente com a palavra desenvolvimento. Temos que ter muita, mas
muita paciência, pois sem ela certamente não chegaremos lugar algum. E
para esses amigos tão ansiosos, gostaria de falar um pouco sobre a
incorporação em si.

    Caso um médium tenha a mediunidade de incorporação, ele não vai
entrar hoje no terreiro e já vai estar incorporado (claro que isso é
para os iniciantes, não serve para os médiuns já desenvolvidos que
por algum motivo trocou de casa). Entendendo que um arrepio, uma
vibração, não é uma incorporação, devemos ficar atentos a esse
detalhe, pois já observei médiuns sentirem arrepios ao ouvirem o som
do sagrado Atabaque, e se dizerem incorporados, isso é apenas seu
emocional vibrando com as belas melodias do som sagrado.

    Agora para entendimento sobre a incorporação propriamente dita,
como sabemos ela pode ser de três tipos: Consciente, semi-consciente e
inconsciente.

CONSCIENTE:

    Na mediunidade de incorporação consciente, a Entidade se aproxima
do médium fazendo ligações apenas junto a seu cérebro, enviando a ele
seus pensamentos e alguns comandos. Nesse tipo de incorporação o Guia
se valerá também de outros tipos de mediunidade do médium, como por
exemplo, a mediunidade intuitiva, auditiva e sensitiva.

    A Entidade de Luz que trabalha com um médium consciente, vai
sempre se utilizar de todos os meios que tiver ao alcance para se
fazer compreendido e transmitido ao seus consulentes.

    Nesse caso o médium permanecerá consciente e notará todas as
situações que ocorram no ambiente dos trabalhos, e quando desenvolvido
corretamente, e que ele esteja ciente do seu papel como médium a
atuação de seu Guia aumentará. gradativamente através da assiduidade
do médium nos trabalhos, situação em que o médium quanto mais assíduo
nos trabalhos, mais passa a perceber movimentos dos seus braços,
pernas e da boca sem o seu comando e nesse patamar caminha para
semi-consciência.

    A mediunidade consciente é a mais comum, e sendo assim ela é o
tipo de mediunidade que mais faz confusão na mente de um médium no
início do desenvolvimento, fazendo assim que muitas vezes esse médium
duvide das comunicações enviadas em sua mente, imaginando estar
transmitindo, com suas próprias palavras, as comunicações que lhe
chegam a mente, e isso não corresponde a realidade de um médium
consciente quando integrado a uma corrente séria. O médium consciente
quando firme e convicto de sua missão mediúnica não dá importância ao
fator consciência de sua mediunidade e segue com naturalidade na sua
missão, adaptando-se aos meios que seu Guia usa para se comunicar e se
fazer compreendido. E isso deve ser colocado bem exposto pelo
responsável pelo desenvolvimento do médium iniciante.

SEMI-CONSCIENTE:

    É chamado de mediunidade semi-consciente quando a Entidade de Luz
atua sobre o cérebro e o duplo etéreo do médium, movimentando também
com maior facilidade e naturalidade os órgãos da fala e os membros do
mesmo, mas mesmo assim o médium poderá ter grande parte da visão do
que ocorre a sua volta, percebendo também em grande escala os
acontecimentos dentro do ambiente de trabalho.

    Nesta situação, o médium ao final da incorporação, terá vagas
lembranças dos fatos e pessoas que com o seu guia tiveram
contato.                                          A manifestação da
Entidade de Luz será forte e claramente sentida pelo médium, porém, a
lembrança dos fatos desaparece rapidamente, podendo-se comparar a um
sonho, rapidamente esquecido. Esse tipo de mediunidade já é menos
comum, ou seja, a cada 100 médiuns em início de seu desenvolvimento,
15 ou 20 estarão desta forma classificados.

INCONSCIENTE:

    Chamamos de incorporação inconsciente quando as Entidades de Luz
atuam de forma ampla no espírito, no cérebro e no duplo etéreo do
médium, ocasião que esse médium adormece, mas permanece ao lado de seu
corpo, ligado fortemente por um cordão magnético, conhecido como
"cordão prateado".

    Em casos de incorporação inconsciente, a posse do corpo, mente e
espírito, pela Entidade de Luz, ao médium é total. E ao término da
incorporação. o médium de nada recordará dos fatos, atos ou pessoas
que com seus Guias tiveram contato. Esse tipo de mediunidade não é
comum. Na média podemos observar que a cada 500 médiuns em seu
trabalho de desenvolvimento, entre um a três médiuns podem ter a
mediunidade de incorporação inconsciente total. Esses médiuns
normalmente tem um trabalho de desenvolvimento diferenciado, em muitos
casos não tem a coligação de sua coroa com um Zelador de Santo, mas a
normalidade é que esse tipo de mediunidade seja desenvolvida pelo
próprio Mentor do Ori do médium. Só frisando que esses casos são
raros, não se deve criar uma imaginação de que se pode desenvolver
sozinho, pois como foi dito a quantidade de médiuns conscientes são
extremas.

    Gostaria de frisar também que em todos os três tipos de
incorporação, ao se aproximar o Guia que deseja fazer a ligação
necessária entre ele e seu médium, é muito comum os tremores do corpo
e o aumento forte da respiração do médium, pois esse fato ocorre
devido ao deslocamento sutil do duplo etéreo do médium em questão,
portanto não devemos nos enganar tentando demonstrar uma incorporação
diferente daquela que estamos aptos, pois todas elas tem o mesmo tipo
de sintomas.

    Gostaria de frisar também algo muito importante durante o trabalho
de desenvolvimento mediúnico e espiritual, demonstrando que mesmo após
a confirmação e a  coroação do médium, devemos nos manter em estado de
desenvolvimento eterno, pois nas incorporações, independente dos
tipos, contribuem para um bom resultado o estado emocional do médium
nos dias dos trabalhos, pois quanto mais desequilibrado estiver o
médium, menor ou mais fraca será a atuação de suas Entidades de Luz.
Portanto é muito recomendado estarmos com a aura livre, sem
sentimentos ruins, sem rancores, com nossa alma em paz, sem vaidade,
sem desejarmos mostrar a influencia de nosso ego, para que assim
compreendamos o significado do desenvolvimento, e de nossos futuros
trabalhos de caridade.

    Para finalizar resumidamente frisamos que o desenvolvimento é de
extrema necessidade, ninguém deve buscar o desenvolvimento com
ansiedade, devemos aprender cultivar a paciência, não devemos buscar
desenvolver para tentar resolver nossos próprios problemas (pessoas
que acham que assim vão conversar com Entidades de Luz e assim sanar
coisas sem nexo ou noção de nossas cabeças), devemos respeitar cada
Entidade trabalhadora, não tentar fazer do desenvolvimento um ponto
de falsa incorporação (mistificação), de demonstração de vaidade e
ego.

    Somos todos médiuns, mas somos humanos, e com isso sabemos que
temos muitos erros, busquemos o desenvolvimento para sanar esses erros
e assim podermos evoluir não só como médiuns trabalhadores em prol da
caridade, mas como seres humanos em busca da luz e da paz que somente
Deus, os Orixás e todas as Entidades de Luz tem para oferecer.

    Deem valor ao desenvolvimento e se afastem da vaidade e da
ansiedade.

    Aos que buscarem o desenvolvimento mediúnico e espiritual
verdadeiro, que Oxalá abra seus caminhos para que possam se encontrar
nessa jornada longa, mas tão bela e tão estimulante.

Paz e um desenvolvimento de luz a todos!

Carlos de Ogum.



quinta-feira, 10 de março de 2016 45 comentários

POEMA A PAI OXOSSI - POR CARLOS DE OGUM.



 

 Poema a Pai Oxossi - Por Carlos de Ogum.

Nas matas verdejantes iluminada pela Lua,
uma força suprema fui encontrar,
sem destino andando por vielas e ruas,
sabia que seria na mata que essa força deveria buscar.

De olhos atentos comecei minha caminhada,
com a intenção de ser abençoado, pelo Senhor das Matas clamei,
penetrando fui sem fazer parada,
pois sabia que nas matas encontraria o Orixá rei.

A Lua de grande beleza me iluminava,
sons da noite me fizeram refletir,
por todo canto sentia olhos que me observava,
mas o medo não me fazia desistir.

Procurava o senhor da Floresta,
aquele que deveria me abençoar,
e como o som de uma celesta,
com voz suave passou a me chamar.

Respondi como por encantamento aquela voz,
deslumbrado fiquei com sua luz,
um Orixá divino que abençoa a todos nós,
um Orixá guerreiro da paz em nome de Jesus.

Sua força contagiou minha alma,
suas palavras me deram ânimo a viver,
prossegui minha caminhada com calma,
em busca de suas bençãos a meu ser.

divindade do reino de nosso querido Oxalá,
Rei das matas tenho certeza que ele é,
divino mestre que traz caboclos a nosso Gongá,
busco esse Orixá sempre com amor e fé,

Oxossi é seu nome glorioso,
protetor das matas e animais,
entrego meu caminho ao todo poderoso,
a ti Pai Oxossi que não me abandona jamais.

Senhor da caça e das florestas magistrais,
Anjo iluminado que faz brilhar meu Gongá,
associado a Ossãe e suas folhas medicinais,
lutando e caçando trazendo nas mãos seu Ofá.

Caçador valente irmão de Ogum Guerreiro,
Orixá que não deixa seus filhos para trás,
dentro e fora das matas será sempre grande companheiro,
esse é Oxossi o Pai que sempre luta pela paz.

Seu santo nome será mantra em minha caminhada,
sua força será a energia que me faz reinar,
seu grito que ecoa por toda minha jornada,
trazendo sempre paz e luz no meu caminhar.

Esse é Oxossi o grande senhor das Florestas de luz,
que nas horas de desespero sempre estende a mão,
nos abraçando e levando ao bom caminho que me conduz,
nos acariciando e nos guardando no coração.

Oxossi Pai supremo de nossos Caboclos guerreiros,
que os trazem para os males vencer no Gongá,
Caboclos belos nossos índios companheiros,
que se juntam e lutam em nome de Pai Oxalá.

O verde brilha como cor que predomina minha aura,
entrego a Oxossi o meu andar e o meu viver,
recebo forças e energias que me acalma,
tomando conta de meu corpo e de todo meu ser.

Sei que toda essa força meu caminho conduz,
assim como Pai Ogum, Mãe Oxum e meu justiceiro Xangô,
todos Orixás me abençoam em nome de Jesus,
em especial Pai Oxossi no qual saúdo: Okê Arô, Oxossi eterno caçador.

Saravá Pai Oxossi!

Okê Arô!

Carlos de Ogum.









segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016 69 comentários

DEFUMADORES NA UMBANDA.






 Defumadores na Umbanda.


Ê Pai Oxossi,
dai-me licença pra defumar,
eu defumo, eu defumo,
nossa casa e o Gongá.

Defuma com as ervas da Jurema,
defuma com arruda e guiné,
benjoim, alecrim e alfazema,
defumando filhos de fé.

    Uma das grandes tradições dentro dos ritos umbandistas é a
defumação. Ela vem sendo mencionada desde que a Umbanda nasceu no
final do ano de 1908 pelo amado Caboclo das Sete Encruzilhadas. E
abaixo vamos falar um pouco sobre esse ritual divino que nos deixa
preparados, descarregados, sem obsessão, para seguirmos com nossa vida
terrena e nosso trabalho de caridade na vida espiritual.

    A defumação tem como finalidade principal limpar e energizar
ambientes e pessoas para mantê-los equilibrados dentro da necessidade
equivalentes aos trabalhos, e o bem andar do dia a dia de nossas
vidas.

    As defumações não são só feitas nos ritos da religião de Umbanda,
podemos verificar feitos em diversas religiões, sendo essa feitas de
diversas formas.

    O exemplo disso pode ser relembrado no fato em que os três Reis
Magos presentearam o divino Menino Jesus com Líbano e Mirra quando
nosso Senhor nasceu, demonstrando assim que o incenso era extremamente
sagrado e importante, e ainda vemos nas igrejas Católicas o ritual de
defumação, seguindo as tradições dos Santos Reis Magos.

    Tanto na Umbanda quanto em outras religiões adeptas aos
defumadores, a função principal desse ritual é, com a queima de ervas
e outros materiais usados, modificar as energias, tanto do ambiente
quanto das pessoas para equilibrar os mesmos mediante as necessidades
buscadas.

    Especificamente na Umbanda, a defumação é de extrema importância,
pois além de purificar o ambiente, a defumação faz toda a limpeza
necessária para os médiuns, participantes de uma Gira, assim como
toda a assistência (visitantes e consulentes que frequentam um
terreiro de Umbanda), tudo isso para purificar e depurar as más
energias existentes para que todo o trabalho espiritual seja muito bem
feito, além de harmonizar todo o local.

    Na Umbanda também e muito solicitado que sejam feitas certas
defumações em nossas residências, isso porque somos como um imã,
captamos muitas cargas de pessoas e ambientes com cargas negativas, e
alguns de nossos sentimentos podem facilitar essa captação,
sentimentos como de arrogância, ódio, ira, inveja, maledicência, e
tantos outros maus sentimentos que todo ser humano tem. Portanto,
mesmo sem desejarmos, poderemos exalar um desses sentimentos, e com
isso abrindo portais que farão a nossa aura captar certos tipos de
sentimentos de outras pessoas, fazendo de nós uma presa fácil para
obsessores e espíritos sem luz (não estamos falando de médiuns de
absorção, esses são outros casos).

    Com a captação dessas cargas negativas, e com a rotina do dia a
dia, espalhamos essas cargas em nossa moradia, e com o passar do
tempo, e de mais cargas captadas, nossa vida começa a sofrer sintomas.
Dentre esses sintomas estão a insônia, dores sem motivos, cansaço
extremo, pernas e costas pesadas, irritabilidade constante, falta de
ar, cefaleia, entre outras coisas. Em casos mais graves podemos também
ter perdas de bens, de saúde, emprego e até de relacionamentos.
Entretanto a defumação é um ponto forte a ser utilizado contra todas
essas mazelas, eliminando e expulsando de sua casa, de seu corpo
físico, de sua aura, todos esses espíritos sem luz, obsessores e
cargas negativas.

    A defumação a princípio é feita com carvão em brasas, dentro de um
turíbulo (pequeno local incensário, podendo ser de barro ou metal) no
qual colocamos sobre o carvão em brasas as ervas escolhidas, porém
poderemos fazer também com defumadores pré fabricados, do tipo
prensados, que são naturalmente comercializados em ervanários,
normalmente esses são de formas triangulares, podendo ser de uma única
erva, ou uma junção de várias ervas, dependendo do gosto e necessidade
de cada um. E na queima dessas ervas, em alguns minutos libertamos e
liberamos na defumação grandioso poder energético acumulado por meses
ou anos de absorção do solo da terra, da energia dos esplendorosos
raios do Sol, da Lua, dos ventos, e claro dos próprios elementos
constitutivos das ervas. Assim sendo é construída uma força divina e
magnânima que protegem ambientes e pessoas das forças dos grupos de
obsessores e espíritos sem luz. Grupos esses que dominam a maioria dos
ambientes humanos,produto da baixa qualidade de pensamentos e desejos,
tipos como, raiva, inveja, vingança, orgulho, mágoa, mesquinharia,
ira, entre outros.

    As escolhas das ervas para fazer uma defumação deve ser dirigida
por uma Entidade de Luz, ou um Mentor espiritual, ou um Pai ou Mãe de
Santo, pois existem diferentes tipos de ervas para cada objetivo a ser
alcançado, e diversas junções de ervas para fazer uma defumação, que
associadas, permitem energizar e harmonizar todo o ambiente e
principalmente as pessoas, pois ao queimá-las produzem reações
diversas no ar, fazendo assim uma limpeza completa.

    Não devemos fazer uma junção de ervas sem um aconselhamento, ou
pelo simples bel prazer em fazer a defumação, pois temos ervas que se
queimadas em conjunto, ou em dias impróprios, podem ao invés de fazer
uma limpeza espiritual, abrir portais para a entrada de obsessores, ou
seja, ao invés de mandá-los partir do ambiente, podemos estar chamando
e fortificando certos espíritos sem luz. Por isso é tão importante
seguir o que é dito por uma Entidade de Luz, um Mentor, ou um Pai ou
Mãe de Santo sobre as defumações.

    Dentre tantas opções de junções entre ervas, não é tão fácil saber
e entender de cada uma, pois, para entendimento vamos dar um exemplo
básico sobre uma defumação em uma residência cujo foi constatado a
presença de um obsessor. Suponhamos que um consulente foi a um
terreiro de Umbanda, conversou com uma Entidade de Luz, e essa
Entidade verificou o tipo de obsessor que se apresentava na residência
do tal consulente. Ao constatar o tipo e grau da carga deixada por
esse obsessor, foi passado um tipo de defumação, com ervas do tipo
escolhido e indicado pela Entidade de Luz. O consulente fez a
defumação, as cargas diminuíram, o obsessor foi expulso do ambiente, e
as coisas entraram nos eixos.

    Tempos depois, suponhamos que novamente temos um outro obsessor na
mesma residência do mesmo consulente, só que dessa vez nosso amigo
consulente não foi se informar com a Entidade de Luz, e por vontade
própria usou o mesmo tipo de ervas para a defumação, contudo esse
obsessor não era do mesmo grau ou tipo, portanto essa defumação nada
serviu para afugentá-lo da companhia do consulente. Podendo até abrir
outros portais para novos obsessores do tipo e grau desse segundo,
fazendo assim a vida desse consulente se transformar em algo
extremamente desagradável.

    A muitas ervas que são agressivas e repulsivas e que afastam
alguns desencarnados de vibração inferior, servindo de barreiras
fluídico magnéticas. Outras ervas ajudam os médiuns e consulentes a
captarem com mais fluidez e qualidade as energias superiores, mantendo
a mente de cada um mais propícia a essa percepção, harmonizando os
ambientes.

    Por fazer parte da tradição da liturgia da Umbanda, e ser uma das
partes mais importantes de uma Gira, pois a defumação é o processo
ativo do exercício da mediunidade de cada um dos participantes dos
trabalhos espirituais de caridade, deve ser feita com muito cuidado e
rigor.

    Após serem orientados por um dos preparados a indicar uma
defumação, o consulente que desejar defumar sua moradia pode seguir
esses passos:

    Pegar um turíbulo com carvão em brasa, jogue as ervas secas
dentro, ou coloque-as por cima (dependendo do turíbulo que tiver), vá
defumando toda a casa. Se for para limpeza de aura, ambiente ou
espiritual, defume de fora para dentro (normalmente da porta da
cozinha para a porta da sala), agora se for para atrair paz, dinheiro
ou bons fluídos, defumar de fora para dentro (da porta da sala para
porta da cozinha), isso claro em casas residenciais.

    Para quem for usar os defumadores prensados, fazer a mesma coisa
(dentro para fora e vice versa) sendo que é indicado sempre vir
cruzando cada cômodo da casa, canto a canto.

    Todos os resíduos que sobrarem das defumações devem ser
descartadas fora de casa (jardins, rios, matas, etc.), mas isso pode
variar dependendo da recomendação do responsável por indicar a
defumação (Entidades de Luz, Mentores, Pais ou Mães de Santo).

    Alguns desses responsáveis pela indicação de uma defumação, podem
também solicitar que as mesmas sejam feitas pelas fases da Lua, mas
isso vai de caso a caso e de responsável para responsável.

    Normalmente um responsável por uma indicação a uma defumação, seja
em teor de ambiente ou pessoal, vai indicar também a quantidade de
vezes que deverá ser feita essa defumação, podendo apenas ser pedido
uma única vez, ou diversas vezes. Se for da necessidade de caso a
caso, poderá ser indicado também que essa defumação seja feita por um
pequeno período, e ao passar de certa quantidade de tempo seja
refeita, pois a maioria dos defumadores tem o poder fluídico de
afastar espíritos inferiores, sem luz, zombeteiros e obsessores por
determinado tempo, porém com as condições e maus sentimentos que
vivemos por todos os momentos, podem esses espíritos retornarem
demonstrando o mesmo tipo e grau vistos pelos responsáveis pela
indicação da defumação, e dessa forma ao passar do tempo deve ser
feito um novo uso dos defumadores indicados, sendo para o mesmo
intuito, pois como explicado anteriormente uma vez que nossos
pensamentos e ações poucos elevados, em pouco tempo, espíritos
atrasados, novamente poderão ser atraídos pelo ambiente de baixa luz
espiritual e vibratório inferior que poderemos voltar a criar com
nossos maus sentimentos. Portanto uma grande dica é se utilizar do
máximo o ensinamento do nosso Mestre Jesus, nosso Pai Oxalá, que para
evitar esses acontecimentos devemos: "Orai e vigiai", acabando ou
tentando exterminar esses maus fluídos que nos contaminam dia a dia,
agregando em nossa mente um extenso trabalho de pensamentos positivos.

    Com a defumação bem feita podemos evitar na maioria das vezes
alguns acontecimentos extremamente desagradáveis provocados por
energias negativas que são produzidas por nossos próprios pensamentos
ou por espíritos que possamos ter atraídos por nossas ações
impensadas, então sempre devemos buscar indicações de defumações para
nossa residência, principalmente por pessoas que desenvolvem um
trabalho espiritual mediúnico e de caridade, como por exemplo os
umbandistas, que mantém suas firmezas e instrumentos de liturgia de
culto a sua crença.

    Em nossa religião de Umbanda, a defumação deve ser feita no início
dos trabalhos, para que assim seja feita a limpeza do ambiente, dos
médiuns, dos assistentes ou consulentes.

    Dependendo do trabalho a ser realizado, devemos fazer a defumação
mais de uma vez durante o dia, isso para atrair e facilitar os
trabalhos de caridade feitos pelas Entidades de Luz.


    Abaixo vamos descrever algumas ervas e seus benefícios que podem
ser usadas ao fazer a defumação.

    Frisando que essas colocações são apenas para ilustrar o texto,
pois sempre se deve buscar orientações com uma Entidade de Luz, ou um
Mentor, ou um Pai ou Mãe de Santo para melhor indicação de caso a
caso.

    Alecrim do Campo: Retirada de olho grande, afastamento de inveja,
defesa de males, protegendo de magias negras ou feitiçarias.

Arruda: Proteção contra obsessores, espíritos sem luz, espíritos
zombeteiros, descarregos e desobsessões, proteção contra os males,
proteção e afastamento de magias negras e feitiços.

Beladona: Limpeza e descarrego de ambientes.

Benjoim: Limpeza e descarregos de ambientes, expulsando forças astrais
do mal.

Canela: Descarrega e limpa ambientes, levando para longe espíritos sem
luz e forças astrais do mal.

Cardo Santo: Defende ambiente e pessoas da obsessão e cargas
negativas, quebra olho gordo.

Cipó Caboclo: Elimina todos os males, espíritos sem luz e forças do
mal que possam estar nos ambientes.

Folhas de Bambu: Afasta todos os tipos de vampiros astrais e seus
males de cargas negativas sobre nós, sendo esses vampiros encarnados e
desencarnados.

Guiné: Atua grandiosamente como um poderoso escudo contra a inveja,
maledicência, cargas negativas e obsessão.

Incenso: Independente de ser a erva ou a resina (bastão ou pedra) são
ótimos para a limpeza geral.

Mirra: Para fazer um descarrego forte, afasta espíritos sem luz,
zombeteiros, Kiumbas e obsessores.

Palha de alho: Afasta desencarnados sem luz, más vibrações e
ajuda muito em descarregos.

    Também podemos usar os defumadores prensados, ou chamados tabletes
para defumação, dentre vários existentes podemos destacar os que levam
a nomenclatura de: Vence Demanda, Abre Caminho, Olho Grande, Arruda,
Oxalá, Ogum, Oxossi, Xangô, Obaluaiê, Omulú, Oxum, Iansã, Iemanjá,
Nanã Buruquê, Ibeijada, Preto Velho, Afasta espírito mau, Anjo da
Guarda, Caboclo da Mata, Chama boa Sorte, Chama Dinheiro, Chama
Felicidade, Comigo Ninguém Pode, Cosme e Damião, Paz na Família, Pombo
Gira, Exú, Quebra Demanda, Quebra Feitiço, Quebra Inveja, Quebra
Mandinga, Santo Antônio, São Jorge, Sete Encruzilhadas, Sete ervas,
Sete Linhas, Sete Poderes, Só Deus Pode Comigo, Tira Teima, Vence o
Olho Gordo, Vence Batalha, Vence Tudo, Zé Pilintra, entre outros.

    Independente se a sua defumação for com as ervas em si, ou com os
tabletes pré fabricados, deverá se manter em oração, com energia
elevada, se não estiver se sentindo preparado para fazer a defumação,
acenda uma vela para aumentar sua vibração com seu Anjo da Guarda,
defumando de preferência de canto a canto do ambiente a ser defumado,
cruzando todo o cômodo.

    E sempre lembrando, faça dentro das recomendações dos responsáveis
que indicaram a fazer a defumação.

    Fecharemos esse texto assim como o abrimos, demonstrando alguns
pontos para a defumação.
*********************************************************************
Jurema deu as ervas,
e Ogum deu benjoim.
Pai Oxalá mandou
Defumar você, eu vim.
Esta fumaça santa,
Ela vai lhe proteger,
De tudo que for mal,
Que alguém possa lhe fazer.
*********************************************************************
Deu um vento lá nas matas,
e jogou as folhas no chão,
os Caboclos estão apanhando,
pra fazer defumação.
Como cheira a Umbanda,
a Umbanda cheira,
cheira arruda e guiné,
alfazema e alecrim,
defumando filhos de fé.
*********************************************************************
Nossa Senhora incensou seus bentos filhos,
para o mal do seus filhos retirar,
mas eu incenso essa aldeia de Caboclo,
pro mal sair e o bem entrar.
*********************************************************************
Corre Gira Pai Ogum,
filhos quer se defumar,
Umbanda tem fundamento,
é preciso preparar,
com arruda e guiné,
alecrim e alfazema,
defumar filhos de fé,
com as ervas da Jurema.
*********************************************************************

    Finalizando, vamos todos buscar os bons sentimentos dentro de nós,
buscando também a fé, a esperança e as indicações de uma Entidade de
Luz, um Mentor ou um Pai ou Mãe de Santo para podermos fazer uma
defumação de limpeza, de descarrego, de desobsessão, de abertura de
caminhos, de paz, de amor, de uma forma mais iluminada e eficaz
possível.

    Paz a todos!

    Salve a defumação, seja nos terreiros de Umbanda, seja em nosso
lar.

Amém!

Carlos de Ogum.



sábado, 20 de fevereiro de 2016 72 comentários

HISTÓRIA DO PRETO VELHO PAI ANTÔNIO



 No Reino de meu Pai Oxalá,
em Aruanda e no Jacutá,
vi Pai Antônio chegar
para iluminar o nosso Gongá.

    Preto Velho de paz e luz,
no reino da Umbanda saravou,
trazendo o nome de Menino Jesus,
em nosso Terreiro Pai Antônio chegou.

    Sua luz intensa veio brilhar,
para salvar filhos de fé,
com seu tercinho começou a rezar,
deixando os filhos de Umbanda sempre de pé.

**********************************************************************

    Pai Antônio é um bondoso e amável Preto Velho, que trabalha nos
Terreiros de Umbanda, distribuindo a caridade, a luz, o amor e a paz
com seu tercinho abençoado por Oxalá e todos os Orixás.

    Ele de um modo tranquilo e sereno, sempre pitando seu cachimbo,
bebendo seu café com mel em seu cuité e protegendo as pessoas que nele
tem fé.

    Sua última passagem como encarnado nessa terra se passou pelos
meados do século XVIII e o século XIX, primeiramente em uma fazenda
cafeeira na região Sudeste do Brasil, onde era escravizado e obrigado
a trabalhar nas roças tanto de café quanto de cana de açúcar, sobre o
Sol forte, a chuva intensa, os maus tratos de feitores sobre o comando
do coronel que acreditava que os negros não passavam de animais, e
mereciam sofrer sobre as chibatas covardes, e os maus tratos no tronco
de torturas.

    Mesmo assim Pai Antônio não perdia a fé, acreditava em uma força
maior, acreditava que Zambi (Deus) estava ali para lhe proteger de
suas possíveis desesperanças, seu instante de pouca fé, suas
angústias. E assim clamava, rezava e orava a esse tão amável protetor
de todos os filhos, passando essa mesma fé e esperança a seus filhos e
irmãos de raça, para que assim esses também pudessem crer de verdade,
com amor e convicção, sem se deixarem ser tomados pela tristeza que
teimava em nascer dia após dia.

    Ele pregava a todos para não desanimarem, pois o desânimo os
entregariam para os braços da morte, e se entregando assim para a tão
temida morte sem lutar, estariam sendo infiéis a Zambi.

    E com essas palavras Pai Antônio conduzia a todos os negros que
muitas vezes se sentiam sem esperanças a caminhar para um novo dia e
uma nova luta.

    Pela manhã ou pela noite, dentro da senzala fétida, o amado Pai
Antônio tinha seu encontro com Zambi, e ali ele se entregava com todo
seu carinho e fé. Pedia forças não só para ele, mas para todos seus
irmãos de raça e seus filhos escravizados, que naquela época já tinha
algumas dezenas, sendo ele de boa saúde, forte e de extremo bom senso,
foi logo escolhido para ser procriador da fazenda.

    Ele amava cada um dos seus filhos e filhas, tinha no coração a
alegria de vê-los crescer saudáveis e robustos. Mas da mesma maneira
as lágrimas nasciam em seus olhos assim como no seu coração quando por
algum motivo tinha que se separar de sua prole. E isso era constante,
seus filhos iam de senzala a senzala, e logo eram também
comercializados para outros coronéis em outras fazendas da região e
fora dela. E isso fazia Pai Antônio chorar, saber que um dos seus
filhos estaria distante, sendo açoitado, torturado, sofrendo nas roças
escaldantes.

    Pai Antônio foi o primeiro negro da Fazenda a ter filhos gêmeos,
esse fato aconteceu com o entrelace de Pai Antônio com a negra
Joaquina, que era apenas uma menina na época, mas como era saudável e
bem jovem, o coronel a escolheu para ser reprodutora juntamente com
Pai Antônio.

    Com ela Pai Antônio teve, além dos gêmeos, mais seis filhos, sendo
a última que fora chamada de Antônia em homenagem ao pai.

    Com os fatos acontecidos em relação a Joaquina, no qual podem ser
esclarecidos nesse link:

Vovó Joaquina e sua história.

Http://umbandayorima.blogspot.com.br/2014/09/vovo-joaquina-e-sua-historia.html

    Pai Antônio fica com uma grande revolta contra os feitores, e faz
disso sua força de continuar a lutar em prol da liberdade dos negros.
E começa a pregar pela liberdade de todos, sendo de uma forma
refletida, mas como não teria nenhuma chance de diálogo com os
coronéis, resolveu ele partir para a fuga, sem deixar para trás seus
irmãos e filhos.

    Começou a pregar essa ideia por entre as senzalas da fazenda, ia
em cada uma delas para aplicar seu plano de fuga, e com o idealismo de
chegar ao primeiro quilombo que conseguisse encontrar, para se
refugiar, proteger seus semelhantes e retornar com mais força e assim
continuar buscando os negros de outras fazendas da região.

    Mas infelizmente Pai Antônio não contava que um dos negros de uma
senzala que ficava dentro da área da fazenda, senzala essa que
abrigava os negros que trabalhavam nas roças de algodão, bem distante
da senzala que Pai Antônio habitava, iria revelar seus planos a um
feitor com fama de torturador de negros.

    Mas assim foi feito pelo escravo.

    Pai Antônio continuava suas andanças por toda a fazenda e por
todas as senzalas, tentando mostrar que todos deviam fugir dali, que
ele estava na busca de uma saída, na busca do Quilombo mais próximo. E
os escravos sonhavam com essa liberdade, dezenas deles apoiaram Pai
Antônio, estavam preparados para a fuga, estavam imaginando com
alegria o dia que chegariam ao Quilombo, sonhavam com o frescor e a
tranquilidade da liberdade.

    Após todo o relato ser feito ao feitor sanguinário pelo escravo
delator, esse ficou observando juntamente com seus jagunços cada passo
de Pai Antonio. E um certo dia, com a ajuda do negro delator, o feitor
junto com os jagunços chegam até o nosso amado Antônio no exato
momento que ele passava novas instruções aos outros negros.

    Ele foi amarrado e açoitado na frente de todos, foi arrastado até
o tronco de torturas, e la ficou por vários dias e noites sendo
castigado pelo feitor.

    A jovem Joaquina soube dessa tortura, ficou desesperada em busca
de ajuda, chegando até o coronel da fazenda, que ainda não sabia do
ocorrido, e a ele pediu clemência, pediu pela vida de Antônio. O
coronel foi buscar respostas com seu feitor, e ao saber do ocorrido
disse que não teria como perdoar o negro, pois ele incentivou a fuga
de dezenas de negros de sua fazenda, portanto deveria ser castigado
até a morte.

    Joaquina se lança aos pés do coronel pedindo perdão, e ao ver ele
irredutível, diz com um grande ódio no olhar:

    "Com essa maldade, senhor coronel, meus filhos foram mortos,
outros foram jogados a senzalas podres para morrer. Com essa maldade,
senhor coronel, meu ventre morreu junto com meus filhos, sobrando
apenas minha filha amada. Se agora senhor coronel, matar o pai dela,
ela morrerá também, e com essa maldita maldade que exala de seu
coração, se isso acontecer, sua própria maldade vai acabar com sua
família assim como está acabando com a minha."

    O coronel imaginando saber que muitos negros eram feiticeiros,
temeu as palavras da negra. Olhou para o feitor e mandou soltar o
negro Antônio. Ele ficaria livre do castigo mas não poderia mais viver
na fazenda.

    A negra Joaquina ajudando o negro torturado a se levantar, o levou
para a senzala, cuidando de seus ferimentos.

    Dias após o acontecido chega a fazenda um negociador de escravos,
e estava ali para levar Pai Antônio para outra fazenda, isso dito pelo
coronel, que na verdade tinha outras intenções. Antônio ia sim para
outra fazenda, mas esse negociador de escravos não só negociava a
compra e venda de negros, negociava também a morte de negros que
ousavam a desobedecer seus senhores, como o coronel não queria que
Antônio morresse dentro de sua fazenda, ele fez com que todos os
negros acreditassem que ele seria vendido para uma fazenda próxima,
sem que eles soubessem que nessa fazenda teria um cárcere que sempre
era usado para torturar e assassinar os negros que por qualquer motivo
fossem vistos como problemas aos coronéis da região.

    Pai Antônio fora levado para essa fazenda, ao chegar lá foi logo
colocado no tronco, açoitado, torturado, humilhado pelos jagunços e
feitores.

    Após muitas e muitas horas de torturas, o negro Antônio perde os
sentidos, seu corpo inerte pendurado pelas correntes do tronco,
parecendo que já estaria sem vida, quando alguns negros tentando levar
um cuité de água para buscar a reanimação do pobre sofredor também são
açoitados pelos feitores e jagunços, ele forçando as pálpebras
reabrindo os olhos, e com a voz fraca e quase incompreensível, começa
a rezar e a clamar pela ajuda de Zambi.

    Suas orações parecendo que foram levadas aos céus pelos Anjos do
Senhor traz ao negro uma força quase indescritível, que por mais
machucado, tanto fisicamente quanto moralmente, ele se ergue, sua voz
começa a ter um tom mais alto e forte. Sempre clamando a Deus, ele
olha ao céu e agradece ao Pai Maior a força concedida. E isso faz com
que os feitores ficassem um tanto  apreensivos, pois como que um negro
que após tanto tempo de tortura, que todos já jugavam estar
desencarnado poderia de uma hora para outra ter tanta força de viver?

    Alguns se afastaram do negro, imaginando ser algum tipo de
feitiçaria, outros não saíram do lugar, mas se calaram, aguardando as
ordens do chefe dos feitores. E esse chefe foi o primeiro a se
manifestar. Com ódio nos olhos, disse que o negro deveria apanhar
mais, e ele mesmo foi até o tronco com açoite na mão. Quando ia
deferir a primeira chibatada, suas mãos tremeram, no mesmo instante um
enorme facho de luz desceu do céu indo direto a seus olhos. A luz era
tão forte e intensa que seus olhos secaram, e ele sem nada enxergar,
caiu de joelhos ao chão, com as mãos tampando os olhos em gritos de
desespero.

    Um dos jagunços correu até a casa grande em busca do coronel, e
esse veio até o local do acontecido. Esbravejando, o coronel mandou
seus jagunços exterminarem o negro, mas todos se afastavam, com um
grande receio de algo parecido com que aconteceu com o feitor
acontecessem com eles.

    O coronel esbravejou mais, o ódio estava estampado em seu rosto.
Os negros que estavam em volta se ajoelharam, e junto com Pai Antônio
rezavam e clamavam a Zambi, o coronel mandava todos se calarem, mas as
orações se prolongavam. Ele enfurecido, de sua cintura pegou uma arma
de fogo, apontou para o negro que estava acorrentado no tronco, e
disparou. O zumbido oco do estampido tomou conta de todo espaço, e
logo veio o segundo som da morte, o cheiro de pólvora se espalhou no
ar, e quando todos esperavam ver o sangue do negro jorrando pela
terra, ele estava lá, firme, de olhar intenso, sereno.

    O coronel não acreditou no acontecido, sua fúria se tornou mais
intensa, seus olhos irradiavam ódio, ele no ímpeto vendo o açoite no
chão, foi até ele com intenção de açoitar o negro preso até a morte.
Ao levar a mão no açoite, uma serpente rastejante e extremamente
nociva o ataca dando um bote certeiro em sua jugular, fazendo-o cair
aos gritos de dor e desespero.

    Pai Antônio ao ver o acontecido pede aos feitores para soltá-lo,
pois ele iria salvar a vida do coronel. Atendido prontamente, ele
rapidamente corre até a entrada da mata, sem muita escolha junta um
emaranhado de ervas, raízes e casca de algumas árvores. Desse
emaranhado ele faz uma junção com um pouco de terra e água. Leva tudo
ao encontro do coronel envenenado, faz uma espécie de emplasto
colocando sobre a jugular dele. Nesse momento o coronel, já febril e
sem sentidos, não tem nenhuma reação. Pai Antônio se coloca de
joelhos, e como em transe, fala várias palavras e frases que não são
compreendidas pelos observadores.

    A sinhá, esposa do coronel, avisada por um dos jagunços sobre o
acontecido, chega rapidamente no local, em desespero, olhos tomados
pelas lágrimas, implora ao negro que ele salve o coronel.

    Antônio continua como em transe, e com as mãos sobre o emplasto
colocado, ele continua suas frases, quando de repente suas mãos tremem
numa intensidade muito maior, seus braços já não tendo como suportar
tanta energia, seu corpo tomado por aquela força invisível, ele tomba
como se perdesse os sentidos, e no mesmo instante o coronel abre os
olhos, a dor se acalma, o estado febril já não existe mais. Sente seu
corpo fraco, olha em volta, vê o negro caído, observa as pessoas de
olhares assustados, vê sua esposa com um sorriso de felicidade e
tranquilidade.

    A sinhá ordena aos que estão em volta para levarem o coronel para
a casa grande, e também deveriam levar o negro Antônio juntamente para
o mesmo local. E assim foi feito. Após algumas horas de reabilitação
Pai Antônio já estava de ´pé, sua fé e força o restabeleceu, tanto da
tortura sofrida quanto do fatídico gasto de energia utilizada para
salvar a vida do coronel.

    O coronel ficou eternamente agradecido, e deste dia em diante
mandou retirar o tronco de sua fazenda, a senzala da morte foi
queimada, Pai Antônio ficou sendo um dos braços direito do coronel nos
trabalhos na lida, muito respeitado por todos.

    Ele viveu na fazenda mesmo depois do desencarne do coronel,
muitos e muitos anos depois, e mesmo tendo um tratamento diferenciado
onde residia, sentia saudades de sua antiga fazenda, de seus irmãos de
raça, de seus filhos, em especial de sua filha, a menina Antônia,
conhecida como "Tonha", a filha da negra Joaquina.

    Com muito carinho temos a benção de ter como trabalhador na
Umbanda, em prol da caridade esse Preto Velho de luz e fé. O grande
buscador da paz e distribuidor das bençãos de Zambi, nosso Pai Maior.

    Saravá e sua benção meu amado Pai Antonio das Almas.

Carlos de Ogum.


 
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