segunda-feira, 22 de setembro de 2014 49 comentários

Salve Ibeijada, Doces Crianças da Umbanda







Ô Erê, ô Erê onde está o Erê?
Ô Erê, ô Erê onde está o Erê?

Onde está a Rosinha?
Está na cachoeira.
Onde está a Aninha?
Na nuvem a brincar.
Onde está Mariazinha?
No mar com a Sereia.
Onde está a Julinha,
que não veio trabalhar?

Ô Erê, ô Erê onde está o Erê?
Ô Erê, ô Erê onde está o Erê?

Onde está o Zezinho?
Na prainha a nadar.
Onde está o Joãozinho?
Saiu para caçar.
Onde está o Pedrinho?
Foi no mar para pescar.
Onde está Cosmezinho,
que não para de pular?

Ô Erê, ô Erê onde está o Erê?
Ô Erê, ô Erê onde está o Erê?


    Doces crianças de Umbanda, nossas Ibeijadas ou Erês amados, estão
sempre por perto para nos ajudar a abrir caminhos, nos mostrar que
tudo tem um sentido, nos dar esperanças para não desanimarmos por mais
difícil que seja a situação na qual estamos.

    As Ibeijadas, são aquelas pequenas Entidades de Luz, que são
festejadas normalmente no mês de setembro no dia 27, mesmo dia de São
Cosme e São Damião, os santos irmãos. E na Umbanda eles são os
Ibeijis, os Orixás gêmeos.

    Estas entidades representam a alegria, a sinceridade, a inocência,
tudo que é puro. Representam as crianças, são alegres, travessos,
manhosos, cheios de dengo e manias infantis. São a síntese da pureza.
Geralmente são muito ligados a linha das almas, Pretos e Pretas
Velhas, sempre pedindo suas bênçãos e se referindo à eles como vô e
vó.

    Quando estão em terra sempre esperam muitos agrados, adoram doces,
guloseimas, balas, pirulitos e adoram um grande bolo todo confeitado e
um "Parabéns à você" para eles cantarem e apagarem as velinhas.

    São muito sensíveis, então, por esse motivo nunca devemos
deixá-los vir sem uma festinha, um agrado, uma guloseima, um
brinquedo, um afago. Eles adoram e sempre esperam por isso.

    Essas entidade são de grande sabedoria, que entre brincadeiras
soltam as "verdades" que muitas vezes precisamos ouvir.

    Para agradá-los sirva uma boa porção de doces regados a bastante
mel, num parque ou num jardim bem florido. Com certeza eles virão para
ouvir seus pedidos.

    O trabalho dessas Entidades se consiste em fazer abertura de
caminhos, saúde, limpeza espiritual, proteção, entre outras várias
coisas.

    Nas festas de Ibeijada, na qual as crianças espirituais incorporam
em seus médiuns, não falta alegria, sorrisos, brincadeiras, e a
felicidade que contagia os terreiros de Umbanda, a singeleza entre
essas Entidades tão divertidas é enorme.

    São Entidades que de forma nenhuma vão fazer mal a alguém, eles,
caso algum consulente tente pedir para atrapalhar a caminhada de
algum semelhante, logo tentam mostrar que não se deve agir com
maldade, não se deve buscar escuridão a nenhum filho de Deus, e assim
eles demonstram através de suas brincadeiras e sorrisos, que devemos
agir com amor independente de qualquer contratempo.

     São espíritos que já estiveram encarnados na terra e que optaram
por continuar sua evolução espiritual através da prática de caridade,
incorporando em médiuns nos terreiros de Umbanda. Em sua maioria,
foram espíritos que desencarnaram com pouca idade terrena, por isso
trazem muitas características de sua última encarnação, como os
trejeitos e a fala de criança, o gosto por brinquedos e doces.

     Assim como todos os servidores dos Orixás, elas também tem
funções bem específicas, e a principal delas é a de mensageiro dos
Orixás, sendo extremamente respeitados pelos Caboclos e pelos
Pretos Velhos.

     É uma falange de espíritos que assumem em forma e modos, a
mentalidade infantil. Como no plano material, também no plano
espiritual, a criança não se governa, tem sempre que ser tutelada. É a
única linha em que a comida de santo (Amalás), leva tempero especial
que é o açúcar.

    É conhecido nos terreiros de Nação e Candomblé, como ERÊS
ou IBEiJI.

    Na representação nos pontos riscados, Ibeiji é livre para utilizar
o que melhor lhe aprouver, em muitas das vezes seus pontos riscados
apresentam bonequinhas, carrinhos, folhinhas, frutas, chupetas,
cruzinhas, ondinhas, florzinhas, , entre outros vários símbolos. A
linha de Ibeiji é tão independente quanto à linha de Exú.

    Na Umbanda essas Entidades são espíritos que desencarnaram, na
maioria das vezes, na fase infanto-juvenil, elas são meigas, mas
extremamente barulhentas assim como os Erês, também ´podendo ser
muitas delas comportadíssimas e bastante tranquilas.


    As Ibeijadas normalmente tem nomes relacionados com os nomes
comuns brasileiros, como Cosmezinho, Rosinha, Mariazinha, Zezinho,
Joãozinho, Aninha, Julinha, Ritinha, Pedrinho entre vários outros.

    Seu colar de contas tem as cores rosa e azul, sendo determinado
por cada Ibeijada a forma de ser feito, podendo ser metade rosa e
metade azul, uma conta azul e uma rosa até fechar a guia, três rosas e
três azuis ou sete rosas ou sete azuis, tudo isso determinado pela
Criança ou pela Entidade responsável, podendo ser um Preto Velho ou
um Caboclo, incorporado por um médium preparado.

     Quando incorporadas em um médium, gostam de brincar, correr e
fazer brincadeiras muita arte como qualquer criança. É necessária
muita concentração do médium que seja consciente, para não deixar que
estas brincadeiras atrapalhem na mensagem a ser transmitida.

     Os "meninos" são em sua maioria mais bagunceiros, enquanto que as
"meninas" são mais quietas e calminhas. Alguns deles incorporam
pulando e gritando, outros descem chorando, outros estão sempre com
fome, etc... Estas características, que às vezes nos passam
desapercebido, são sempre formas que eles têm de exercer uma função
específica, como a de descarregar o médium, o terreiro ou alguém da
assistência.


    Independente de Ibeijada ser quieta ou bagunceira, ser menino ou
menina, ser de qual for a linha e irradiação de Orixá, todos tem o
encanto no olhar, a meiguice como instrumento de trabalho, a verdade
como lema e o amor por Deus, um amor grandioso que se espalha nas
giras e festas do Dia de Ibeijada.

Oni Crianças divinas de Umbanda.

"Seja No Mar Ou Nos Jardins, Na Mata, Cachoeira Ou Afins, De Olho Seu
Erê Vai Estar, Cuidando Protegendo A Brincar. Oni Ibeijada."

Um salve especial as crianças de nosso terreiro:

Cosmezinho de Oxum.
Joãozinho das Matas.
Rosinha de Omulú.
Joãozinho de Xangô.
Zezinho da Beira da Praia.
Mariazinha da Beira da Praia.
Aninha Estrelinha do Mar.

    Peço a proteção para minha família e para todos irmãos
Umbandistas.

Saravá Ibeijada!

Carlos de Ogum.




quinta-feira, 11 de setembro de 2014 79 comentários

Uma Carta e Uma Lição de Senhor Tranca Ruas

.


    Muitas pessoas já buscaram ajuda com uma Entidade de Luz, que gira
na linha da esquerda e que chefia a linha dos Exús. Essa Entidade de
grande força espiritual é respeitada extremamente por todos
Umbandistas e dentro de todos os Terreiros.

    Muitas pessoas menos instruídas, sem um conhecimento básico sobre
a religião de Umbanda, sem a mínima noção de que seja uma Entidade de
Luz e por muitas vezes sem a menor moral para dizer algo,
principalmente pessoas fanáticas religiosas, determinam que a Entidade
de Luz em questão seja a figura demoníaca criada em suas próprias
mentes doentias.

    A Entidade divina, de grande força espiritual, com grande ligação
a caridade na qual estou me referindo é o nosso grande lutador contra
o mal, o Senhor Tranca Ruas.

    E hoje estou fazendo esse texto apenas como uma pequena
demonstração da grandiosidade dessa Entidade maravilhosa, para mostrar
a todos interessados uma carta ditada pelo nosso amigo, Senhor Tranca
Ruas, para, não defender a ele das maledicências que saem das bocas
incrédulas e dominadas pelo ´poder de ditos líderes religiosos, que
usam de palavras insanas contra a nossa Umbanda e nossas Entidades de
Luz apenas para induzir a fiéis a patrocinar o bem estar desses tais
"líderes", através de dízimos, doações ou qualquer forma de retirar
dinheiro desse povo que crê em muitas falácias, mas apenas para
demonstrar a verdadeira grandiosidade de uma Entidade na qual é
descriminada apenas por fazer a caridade sem cobrar nada a ninguém.

    Para isso basta escrever as palavras de Senhor Tranca Ruas, e
dizer que para o bom entendedor palavras reais valem muito mais que
simples ataques a religião alheia.

Carta de Senhor Tranca Ruas.

    "Cá estou hoje, diante de um grupo de pessoas que veem a mim para
buscar algum tipo de ajuda.

    Dentre essas pessoas temos algumas realmente necessitadas por uma
ajuda espiritual, pessoas que estão obsediadas, algumas doentes
espiritualmente, algumas em busca de aberturas de caminhos para
conseguirem uma ocupação trabalhista e muitas em busca apenas de uma
palavra amiga, um abraço ou uma conversa com a Entidade que tem
apreço.

    Todos esses serão bem recebidos, todos esses terão seu momento de
falar, pedir, desabafar, chorar ou lamentar.

    Temos também nesse grupo outras pessoas. Pessoas essas que vieram
com a mesma intenção, de uma busca de ajuda em algo.

    Mas essas não serão atendidas.

    Pelo simples fato que eu, Exú Tranca Ruas, não sou uma Entidade
das Trevas, não sou um torturador do tempo medieval, não sou um ser
que vende aberturas de caminhos, não sou um ditador que condena uma
pessoa a obrigação de amar a outra pelo simples fato que a outra
determina assim.

    Não quero seu marafo, não quero seu charuto, não quero sua vela,
não quero sua tuia.

    Você não pode comprar a minha ajuda, pois ela só será dada através
da caridade, e apenas para fazer a caridade.

    Não adianta me pedir para trancar os caminhos de seu semelhante,
pois não venho a terra para isso.

    Não adianta me pedir para torturar alguém, pois meu caráter não se
iguala com o seu.

    Não adianta me pedir para amarrar seu "amor", pois se precisa
fazer isso é porque não tem amor próprio, e se não tem amor próprio
não tem o merecimento de ter um amor verdadeiro.

    Não adianta me pedir para fazer algum mal a um irmão, pois não sou
um escravo das trevas que deve obedecer suas sandices.

    Não tente me enganar com seus falsos sorrisos, tentando induzir-me
como faz com seus semelhantes, pois eu nesse momento ao olhar em seus
olhos estou na verdade observando sua alma negra cheia de rancor.

    Não tente me oferecer seus ebós  com o sangue de um ser vivo,
pois eu não necessito de nada orgânico para poder me fortalecer.

    Não tente me enganar com palavras que julgam seu semelhante,
tentando demonstrar a mim que você é uma vítima de alguma
maledicência, pois quando ao pisar em minha casa já observei a maldade
em seus olhos e corri gira em sua mente buscando suas reais intenções.

    Portanto a todos que couberam essas palavras, já sabem o rumo a
tomar. Se vieram para o bem, fiquem a vontade dentro de nossa casa, e se
estão aqui para fazer o mal, deem as costas a esse Exú, pois não
cederei por mais que implorem.

    Sou o Exú Tranca Ruas, o senhor da luz, o que luta contra
espíritos das trevas, o encaminhador de Kiumbas, o chefe das
tronqueiras.

    Não desejo que me comparem com um demônio, não desejo que me
ofereçam uma vida em troca de algo, não desejo ser escravo do mal, não
desejo ser visto como o terror da escuridão, não desejo que tenham
pavor de mim.

    Não me façam parecer um ser monstruoso que espalha ódio e terror,
assim como criaram lendas em mentes doentias e imperfeitas,
espalhando-se pelos quatro cantos de nosso planeta.

    Sou apenas uma Entidade de Luz, que busca evolução como todos
buscam, a cada dia, a cada trabalho, a cada gesto.

    Meu nome é Tranca Ruas, o ser que obedece a Deus, que trabalha
para Deus, que ama a Deus, e que infelizmente muitos seres humanos
fazem questão de tentar levar meu nome de encontro ao ser demoníaco
apenas para satisfazer seus desejos sem moral e sem caráter envoltos
na maldade extrema.


    Trabalho pela caridade, em nome de Deus, vou até as profundezas
sim, mas com ordens de Deus, e apenas para tentar salvar mais uma
alma perdida, perdida assim como poderá ficar a alma de quem tenta
fazer o mal usando o meu nome, o nome de Senhor Tranca Ruas.

    Não ache que não estou vendo sua alma, seja ela branca como um dia
de sol, ou negra como as profundezas donde ficam as almas perdidas.
Independente de tudo. Eu estou vendo dentro de seu ser.

Que Zambi e Pai Oxalá possam iluminar o caminho de todos.

Senhor Tranca Ruas."



    Com essa excelente lição, termino esse texto, e digo com muito
orgulho que tenho o prazer de trabalhar com Senhor Tranca Ruas a mais
de 20 anos, e em todo esse tempo, nunca foi aceito por ele que algum
consulente tentasse levar um pedido que pudesse fazer mal a alguém,
nunca foi aceito fazer amarrações, nunca foi pedido matança de nenhum
ser e nunca foi cobrado nada pelas suas ajudas e orientações.

    E ainda tem pessoas que o chamam de "demônio".

    Saravá Senhor Tranca Ruas!

    Senhor Tranca Ruas é Mojubá!

    Carlos de Ogum

sexta-feira, 5 de setembro de 2014 83 comentários

VOVÓ JOAQUINA E SUA HISTÓRIA.





 Vovó Joaquina e Sua História.


    "Saravá Vovó Joaquina,
Saravá o seu Gongá,
ela vem de Aruanda,
ela vem pra trabalhar.

    Com suas mirongas,
com seu Patuá,
Saravá Vovó Joaquina,
na fé de Oxalá."


    Vovó Joaquina é uma Preta Velha que trabalha na Umbanda fazendo
sua caridade, auxiliando a quem necessita, ensinando caminhos,,
mostrando aos filhos de fé que não basta dizer ser caridoso, tem que
realmente ser.

    Ela foi uma negra escravizada, que veio trazida de sua terra natal
juntamente com seus pais pelos traficantes de escravos em navios
negreiros pelos meados do século XVIII, quando tinha apenas entre 4 e
5 anos de idade na vida terrena.

    Ela foi levada juntamente com os pais a uma fazenda de
cafeicultores em alguma localidade na região Sudeste do Brasil, e lá
viveu até seu desencarne.

    Quando ainda criança, Joaquina era uma menina atenta a tudo e a
todos, gostava de aprender tudo que poderia com seus irmãos negros, e
essa vontade de aprender lhe deu grandes ensinamentos, tais como
algumas magias vindas por ensinamento de alguns negros mais velhos, o
dom de reconhecimento e uso das ervas, o poder de rezas e benzimentos,
o poder de encaminhar espíritos perdidos e obsessores, a magia de
leitura de destinos em borras de água misturada com mel e fumo, rezas
e benzeduras em partos dificultosos, entre tantos outros dons.

    Ela aos 12 anos teve a sua primeira gravidez, pois era uma menina
sadia, forte e que foi determinada pelo seu senhor escravocrata que
deveria ser genitora de muitos filhos para que assim seu número de
escravos aumentassem a cada ano.

    E nessa gravidez precoce nascera os primeiros negros gêmeos da
região, que seria algo de motivo de visitações intensas de coronéis a
senzala na qual vivia  então a negra Joaquina.

    Para ela aquilo tudo era muito novo, não entendia muito bem toda
aquelas pessoas que vinham na intenção já de compra de seus filhos e
dela própria, pois eram épocas que quem reinava mais, que tinha mais
poder era os escravocratas que tinham mais negros, mais terras para
plantação e mais negras reproduzindo, portanto dois recém-nascidos
gêmeos e meninos, era um feito e uma ótima oportunidade de no futuro
serem reprodutores com possibilidades de gerarem outros gêmeos.

    Além disso, a própria Joaquina era alvo dos olhares de ganância
desses escravocratas, uma pequena negra com possibilidade de gerar
duas vidas de uma vez só em seu ventre era algo muito lucrativo para
os coronéis sedentos de poder.

    Mas com a rejeição de venda, tanto dos gêmeos quanto da menina
Joaquina pelo seu senhor, ela ficou na senzala com seus filhos, sendo
já preparada para ser reprodutora de escravos para a fazenda.

    E assim foi feito, cada ano ela tinha um filho, não mais gerando
gêmeos, levando a baixar as expectativas do coronel.

    E isso foi até ela completar seus 20 anos, quando teve uma grande
tristeza. O coronel cafeicultor, sem que ela menos esperasse, vendeu
a um negociador de escravos, quatro de seus oito filhos, que foram
levados amarrados e chicoteados pelo feitor desse negociador.

    Ela chorava em desespero, ao ver suas crianças serem arrastadas
sem destino pelas mãos do feitor, e entre eles estavam os seus gêmeos,
que na época tinham apenas 8 anos de idade.

    Ela joga-se ao chão clamando ao coronel que não vendesse seus
filhos, que os deixassem na fazenda, que eles pudessem crescer junto a
ela, mas sem sucesso.

    Na saída da porteira da fazenda o pior acontece, um dos gêmeos se
solta das amarras do famigerado feitor e corre sem rumo tentando fugir
daquela situação.

    O feitor sem piedade aponta sua velha arma de fogo contra o menino
indefeso e atira, que cai já sem vida sobre o chão empoeirado da
entrada da fazenda.

    Seu irmão, chorando e dominado pelo ódio, corre mesmo atado pelas
cordas e correntes para atacar o feitor assassino, que sem pensar age
da mesma forma cruel, atirando no outro menino, vendo-o cair sem
chances de defesa.

    O menino gêmeo, com os olhos cheio de lágrimas, observa o corpo
inerte de seu irmão, e mesmo dando seus últimos suspiros grita pela
sua mãe, que desesperada se arrasta na terra seca, tentando chegar
até seus gêmeos, que pela crueldade de um feitor desumano, a faz perder
de uma só vez dois filhos para a fria e sombria morte.

    Joaquina foi tirada dali de uma forma brutal, sem piedade e sem
remorso pelo feitor assassino. Ao ser levada para a senzala, ela
desesperada pela morte de seus gêmeos e pela dor de saber que mais 3
dos seus filhos seriam levados para o comércio de escravos, ela
desmaia aos pés de seus irmãos negros, que com lágrima nos olhos não
sabiam o que fazer e nem como acalentar a imensa perda de nossa
fragilizada negra Joaquina.

    As horas passaram e ela acorda de seu desmaio, com a cabeça
confusa achando que tudo passara de um terrível pesadelo, mas ao
relembrar de tudo, chora desesperadamente, e corre até as grades da
porta da senzala implorando pelos seus filhos.

    Nesse momento as portas se abrem, e é jogado a seus pés dois
corpos inertes, os corpos inertes de seus filhos amados.

    Olhando para o céu, Joaquina com os olhos lacrimejados, toma uma
decisão e faz uma promessa: Nunca mais em quanto viver, iria gerar um
filho para ser escravizado."

    E assim ela, com os ensinamentos adquiridos e o poder das ervas
fez com que seu ventre não gerasse mais filhos.

    Ela viveu nessa fazenda por mais de uma centena de anos, e em todo
esse período se tornou guardiã de todas as crianças negras, na qual
protegia desde a saída do ventre das mães até a maior idade.

    Ela se tornou uma respeitada negra por entre seus irmãos de cor e
por todos daquela região. Era conhecida como a melhor parteira que
existiu por todas as fazendas, tinha o respeito de coronéis e de suas
famílias pelas lendas de "feitiçaria" que ela saberia fazer. Isso se
espalhou por toda a região, levando a muitas pessoas temerem a agora
velha Joaquina.

    Foi responsável por ensinar benzeduras e magias africanas a vários
negros da fazenda e da região, entre esses negros o alegre Benedito,
que ela o tinha como filho, após a morte de seus pais, e o sisudo
Antero, que era seu afilhado e confidente.

    A velha Joaquina após pegar o respeito e a admiração da família do
coronel cafeicultor, saiu da roça e da senzala para trabalhar e viver
na casa grande, sendo ela a responsável por fazer o parto da sinhá,
esposa do coronel, e também a responsável por salvar a vida da própria
sinhá e sua pequena filha nesse parto, após a sinhá ter tido problemas
gravíssimos nessa gestação.

    Com o passar do tempo a velha Joaquina, que nesse período, também
já era conhecida por "Vó Chica", nome dado por seu filho de coração o
negro Benedito, já quase nada fazia, pois o peso da idade não mais a
permitia, ficava perambulando pela fazenda fazendo suas benzeduras, e
com isso cada dia mais era conhecida como a velha feiticeira.

    Seu desencarne foi dado numa tarde de primavera, onde ela chama
sua última filha de sangue, a negra Antônia, conhecida por todos da
fazenda como "Tonha", seu filho de coração o negro Benedito, seu
afilhado Antero e a sinhazinha, filha do coronel, para andarem por
entre as flores de um grandioso jardim da fazenda.

    Ao chegar nesse jardim, ela mansamente senta-se ao chão, e ao
redor dela os negros e a sinhazinha. E com um sorriso tímido ela olha
para os 4 personagens, pegando a seu lado um galho de arruda e outro
de guiné, fazendo o sinal da cruz a cada um.

    Ela já com bastante dificuldade diz:

    "Que a luz de meu Pai Oxalá ilumine a vida e o caminhar de vocês.

Desejo aqui dividir com vocês todo meu amor, minha fé, minha
esperança.

A minha querida filha Tonha, que aqui representa todos meus filhos de
sangue, peço que tenha sempre muita fé no Pai Maior.

A meu filho de coração Benedito, e meu afilhado Antero, que aqui
representam a cumplicidade e o amor de meus filhos gêmeos, peço que
espalhem a caridade pela eternidade.

E a sinhazinha, que aqui representa a esperança de nosso povo não mais
sofrer, não mais chorar, não mais perder seus filhos amados, não mais
morrer nos troncos das fazendas, peço que olhe pela nossa gente, pelos
negros que são açoitados, castigados e mortos pelos seus senhores.

    Eu imploro a Zambi que ele possa ouvir a voz dessa velha negra
castigada pelo destino de ter vivido como escrava, que foi retirada de
sua terra natal, que foi açoitada como animal, que viu seus filhos
serem arrebatados de seu convívio e assassinados sem a menor piedade,
pedir humildemente que o Pai Maior possa levar esperanças a todos que
sofrem as amarguras e dores de ser escravizados, e que sua luz ilumine
a esperança daqueles que aguentarem chegar o dia de vossa libertação."


    E assim ela abre os braços a cada um deles, num abraço carinhoso
de mãe, uma mãe protetora, cuidadora, devota, guerreira.

    Tonha é a primeira a ser abraçada, após ela abraça a Antero, seu
afilhado amado, em sequencia um abraço quase sem forças a sinhazinha,
que chora copiosamente.

    Em seguida ela olha profundamente aos olhos de Benedito, sorri.
Recorda-se de tantos momentos agradáveis junto a seu "moleque", tantas
alegrias, tantos ensinamentos. Ela abre seus braços, Benedito a abraça
fortemente, ambos choram em demasia.

    O abraço dela vai ficando menos apertado, seus olhos cerram, seu
sorriso se vai. E assim desencarna a velha Joaquina, a senhora
Feiticeira, a vó Chica, partindo de sua vida terrena, deixando seu
corpo inerte nos braços de seu filho de coração, que sem entender o
acontecido por alguns instantes, ainda a abraça firmemente junto a
lindas rosas e margaridas, flores preferidas de Joaquina, do jardim da
fazenda.

    Vovó Joaquina desencarnou no século XIX com idade incerta, mas
sabendo-se que com mais de 100 anos, sem ver seu povo libertado, sem
saber porque seus filhos tiveram que sofrer tanto, sem entender o
porque que a diferença de raça e cor fazia alguém melhor ou pior do
que o outro.

    Hoje Vovó Joaquina trabalha nos terreiros de Umbanda, trazendo
suas magias, seus dons, suas benzeduras, distribuindo sua caridade com
todas as pessoas que buscam sua ajuda espiritual, sendo essas pessoas
brancas, negras, de qualquer etnia, de qualquer crença, de qualquer
classe social.

    Ela distribui o seu amor, assim como distribuiu com centenas de
crianças que trouxe a vida sendo parteira, distribui seus ensinamentos
espirituais como distribuiu com todos seus irmãos negros e distribui
sua piedade a todos os consulentes que a procuram, assim como
distribuiu a piedade com o feitor que assassinou seus gêmeos sem a
mesma piedade que ela nos concede hoje.

Uma Benção De Vovó Joaquina: "Que Oxalá Esteja Sempre Com Você, Mas
Que Acima De Tudo Você Esteja Sempre Com Oxalá."

Frase De Vó Joaquina: "Quem Possui O Coração Cheio De Amor, Nada
Teme!"

    Adorei as Almas!

    Saravá a Linda Vovó Joaquina das Almas!

    Agradeço a oportunidade de poder participar das Giras com essa
Preta Velha divina em nosso terreiro, que é incorporada pela nossa
querida Priscila de Omulú.

Carlos de Ogum.






sábado, 30 de agosto de 2014 42 comentários

A Importância dos Cambonos na Umbanda



    A quem já acompanhou alguma Gira de Umbanda por esse imenso Brasil,
com toda certeza já observou um personagem no qual é chamado de
"Cambono" ou "Cambones".

    Esse personagem de intensa destreza e sabedoria dentro dos Terreiros
é algo que não pode faltar, aliás sem ele era quase impossível de
termos Giras tão eficientes.

    Mas, quem é esse personagem?

    Cambono ou Cambones é o auxiliar de Médiuns de Incorporação e o
Servidor dos Orixás. O cambono é o médium que teve o necessário
desenvolvimento para poder auxiliar e entender os Guias nas necessidades
das sessões.

    É uma atividade exercida nos terreiros de Umbanda e que merece uma
atenção especial dada a sua importância como auxiliar das Entidades de
Luz, dos médiuns e dos dirigentes do Terreiro.

    Sendo auxiliar das Entidades de Luz, cabe ao cambono ser o
interpretador das mensagens entre a Entidade e o consulente, além de um
defensor da Entidade e da integridade física do médium. Cabe a ele cuidar do material da Entidade, orientar o que acontece em sua volta e também ajudar o entendimento do consulente, pois a linguagem do espírito nem sempre é entendida, mas ao cambono fica claro já pela sua intimidade com o comportamento do espírito que ele serve.

    Mas nem sempre a posição do cambono é confortável, pois algumas vezes cabe a ele fiscalizar também o comportamento do Médium, que podendo não estar bem no dia, por uma razão ou outra, fugir da normalidade deve imediatamente avisar a direção do terreiro. O limite da intimidade do consulente com o espírito ou o médium deve ser fiscalizado pelo cambono para evitar mal entendidos e desajustes de informações.

    Finalmente ao cambono é dada uma oportunidade especial de conhecer mais a Umbanda e a forma das Entidades trabalharem porque seu contato é direto. Como o cambono tem como obrigação ouvir o que o espírito ouve e fala, seu conhecimento, em cada consulta, aumenta consideravelmente.

     Então resumindo, Cambonagem ou cambonar é uma das principais e mais complexas funções na Umbanda. No trabalho de cambonagem o cambono acaba por receber influências diversas de vibrações dos médiuns e consulentes, alem disso o cambono acaba por aprender a diferenciar as Entidades, o que usam como: fumo, bebidas, a própria fala, a incorporação, desincorporação, o que manipulam para auxiliar a consulta, os materiais de trabalho da Entidade de Luz.

Os Cambonos acabam aprendendo sobre a importância do sigilo, pois o que é ouvido durante uma consulta, não pode e nem deve ser passado adiante, sendo assim como se fosse um sigilo profissional, tendo que ser respeitada esse silêncio, independente do qual for o assunto tratado com a Entidade de Luz e
seu consulente, dentro dos termos da espiritualidade e as regras da casa.

    E em se tratando do lado espiritual podemos falar em sigilo espiritual. O cambono é como se fosse uma espécie de orientador, ou seja, que orienta o consulente na hora da consulta, no fato de deixá-lo à vontade para expor seus problemas e suas duvidas. Mais deixando claro que tudo tem que haver respeito, que não se pode brincar, conversar durante uma sessão, pois acaba por atrapalhar a sessão e até mesmo as próprias Entidades. Sem falar que os cambonos precisam ter respeito com os médiuns e as Entidades, cuidando de tudo quanto for necessário para o bom trabalho de caridade a ser feito.

    Uma das mais importantes coisas que está presente nas funções de um Cambono é ficar atento as mensagens ou recados para os consulentes, na qual se tem que ter atenção redobrada para ouvir, traduzir, se preciso for, e explicar, não dando opinião mais explicando o que foi passado pela Entidade de Luz. E o mais importante estar sempre atento a tudo e a todos, estar de coração e mente aberta para servir, ter respeito ao próximo, responsabilidade, comprometimento, amor pelo o que vai fazer. Em resumo cambonar é servir com amor, dedicação e humildade. Compromisso feito com Amor Humildade e Sabedoria Ato Construído com Atenção e Responsabilidade.


Abaixo vamos expor resumidamente para entendimento algumas das funções de um Cambono preparado para assumir seu trabalho dentro de um terreiro.

- Auxiliar a Entidade de Luz e ao médium dentro das normas da espiritualidade e regras da casa na qual são filhos.

- Colaborar materialmente e espiritualmente com o médium e com a Entidade de Luz, antes, durante e depois do trabalho de caridade.

- Orientar os consulentes quando não for entendido por ele o que foi determinado pela Entidade de Luz, como por exemplo algum banho, entregas, novas consultas, vibrações e o que for necessário.

- Prestar extrema atenção na consulta, para não ser infringida nenhuma regra ou regulamento da casa, e notando alguma anormalidade deve ser comunicado ao Chefe de Cambonos ou ao Pai Pequeno ou Mãe Pequena do Terreiro, e, conforme o caso, o Pai de Santo.

- Deve apresentar honestidade e sigilo absoluto, não devendo nunca contar a ninguém o teor das consultas.

- Não pode incorporar quando está atendendo a uma Entidade, exceto quando autorizado pela Entidade a quem estiver servindo, ou se essa Entidade o trouxer junto ao consulente para um provável descarrego. Mas tudo isso com a autorização prévia da Entidade incorporada no
momento.


          Funções do Cambono antes e durante os trabalhos:

- Levar todo material da Entidade para seu respectivo lugar no terreiro (Como por exemplo: pemba, velas, ponteiros, bebida, fósforo, tabua, charutos, palheiros, cigarros, ervas, e eventuais outros materiais).

- Servir a Entidade em tudo que ela precisar dentro das regras da Umbanda e da casa.

- Não deixar de ouvir, mesmo que por solicitação do consulente, as consultas feitas às Entidades e as respostas por elas dadas. Em caso de determinação da Entidade para se afastar durante uma consulta, avisar imediatamente o Pai de Santo ou a Entidade que nele estiver incorporada.

- Durante a vibração, ficar atento à Entidade e ao trabalho que ela realiza, sem contudo ser necessário ficar ao lado da Entidade, a não ser que a mesma solicite.

- Conversar com a Entidade quanto ao número de consultas e o tempo disponível.


            As Funções dos Cambonos após os atendimentos:

Sempre conversar com a Entidade, pedindo orientações quanto ao destino das sobras de materiais utilizados.

- Levantar o ponto riscado da seguinte forma: Retirar ponteiros (caso houver), assim também com as velas e outros materiais do ponto, e jogar cachaça sobre o ponto riscado, em forma de cruz, e com as mãos, apagar o ponto riscado. Depois pode retirar do local e limpar na torneira da pia com água.

- Guardar e recolher o material, deixando o local limpo.


Algumas orientações gerais:

- Ao se locomover pelo ambiente onde está sendo firmado trabalhos de corrente, dando passes magnéticos ou consultas entre Entidade e consulente, não atravessar na frente ou ficar costurando passagens entre as firmezas. Evite bater em médiuns, derrubando velas, pisando em pontos.

- Ao afastar-se da função, seja por um período ou não, auxiliar o novo Cambono, passando orientações a respeito do trabalho com as Entidades.

- Não aproveitar-se da função para fazer consultas em nome de parentes, amigos, sobrecarregando o trabalho das Entidades. Desejando falar algo particular aguarde o momento final, e peça a autorização do Pai de Santo ou da própria Entidade.

- Qualquer dificuldade em orientar os consulentes, pedir auxilio ao Pai ou Mãe Pequenos ou mesmo ao Pai de Santo, não tente resolver um problema que não faz parte da ossada de sua função.

- Não atrapalhar o encerramento dos trabalhos levantando o ponto ou guardando os materiais.

- Durante a abertura e encerramento dos trabalhos, todos devem estar na corrente.

- Não ficar com conversas fora dos trabalhos com a assistência, não se deve ´parar os trabalhos nem a concentração para cumprimentar algum consulente, mesmo que seja amigo de longas datas, quando esse chega ou se retira do terreiro, afinal estamos ali em uma missão religiosa não numa festa de confraternização.


    Muitos médiuns acham que o Cambono é algo inferior dentro de um terreiro, que seu trabalho pode ser substituído por qualquer pessoa. Pois não é, o Cambono é extremamente necessário para o bom caminhar de toda uma Gira. Basta dizermos que por muitas das vezes uma Entidade de Luz entrega toda a confiança a seu Cambono, falando-lhe e ensinando-lhe milhares de coisas, que um médium um tanto mais distante dos afazeres dentro de um terreiro nunca aprenderia se não passasse por um bom tempo como Cambono.

Portanto o trabalho do Cambono é tão importante quanto ao do médium e Entidade.

    A responsabilidade mediúnica do cambono é tão importante quanto a de qualquer outro médium.

    O médium que camboneia, não atrapalha seu desenvolvimento. A experiência como cambono lhe é importantíssima no aprendizado.


    Então que nosso Pai Oxalá, todos nossos Orixás e nossas Entidades de Luz abençoem e protejam todos nossos Cambonos, para que assim possamos seguir tranquilamente com nossas Giras para que possamos ser abençoados também.

Um Salve especial a todos os Cambonos de nossa amada Umbanda de Luz.

Carlos de Ogum

quinta-feira, 14 de agosto de 2014 150 comentários

ENTENDENDO O QUE SÃO PONTOS RISCADOS NA UMBANDA.

  Entendendo o Que São Pontos Riscados na Umbanda.


    A Umbanda tem muitas coisas que pode nos passar despercebidas, mas
que tem extrema importância para o ritual tão maravilhoso voltado a
caridade dessa religião divina.

    E uma dessas coisas são os Pontos Riscados.

    Mas o que seriam Pontos Riscados, quais os seus significados, qual
a sua representação?

    Abaixo vamos colocar resumidamente um pouco dessa demonstração de
várias coisas para todos os Umbandistas.


    Pensando da forma do ser humano, do ser físico poderemos colocar
da seguinte forma:

    Uma pessoa tem identificações no caminhar de sua vida,
identificações documentadas que representam o ser alguém.

    Como poderemos usar como exemplo, o nascimento de uma pessoa, logo
teremos a sua primeira identificação documentada, que seria a sua
certidão de nascimento, e a partir dai teremos, carteiras de
estudante, carteira de motorista, certidão de casamento, carteira de
identidade (RG), CPF entre outras identificações da pessoa, e assim
quando chegarmos em um local que não somos reconhecidos fisicamente,
apresentamos nossa documentação para que possamos ser vistos como o
ser eu, e não sermos confundidos com um outro alguém.

    Bem, isso na Umbanda, dentro de uma gira, na chegada de uma
Entidade de Luz, estando incorporada em um médium, a Entidade faz com
que ela seja reconhecida, e para isso usa-se o Ponto Riscado, que a
grosso modo é a identificação da Entidade de Luz para seus
consulentes. Para assim ser demonstrado que quem está ali é realmente
uma Entidade de Luz e não um Espirito sem luz tentando enganar o
consulente e o próprio médium.

    Esses Pontos Riscados são constituídos de riscos e símbolos
gráficos, e as Entidades de Luz se servem deles para tal
identificação.

    Eles normalmente são traçados ou riscados em tábuas ou no próprio
chão. Essas ditas tábuas podem ser de madeira ou até mesmo em
mármore, e são feitos com uma espécie de giz, que na Umbanda se da o
nome de Pemba.

    Essas pembas podem ser de várias cores, e a Entidade usa a cor
determinante a linha que trabalha e ao Orixá que a rege.

    Essas Entidades se utilizam de símbolos como: Sóis, Estrelas,
Luas, Flechas, Arcos, Lanças, Triângulos, Folhas, Raios, Ondas, Cruzes
entre outros.

    Pode não parecer, mas os Pontos Riscados são os instrumentos dos
mais poderosos dentro da Umbanda, pois uma vez sem ele, nada se
poderia ser feito com segurança, uma vez que é com a Pemba que se tem
o poder de fechar, trancar e abrir os terreiros conforme seja a
exigência determinada do trabalho que será praticado.

    É também através do Ponto Riscado que uma determinada Entidade de
Luz demonstra a sua graduação hierárquica, na qual também mostra toda
a Falange de trabalhadores, que a suas ordens trabalham em prol a
caridade e auxilio num trabalho que foi determinado ou pedido por
alguém que necessita de uma ajuda espiritual.

    Os Pontos Riscados nos demonstram, se a Entidade é um Preto Velho,
um Caboclo, um Exú ou qual for a Entidade presente, essa demonstração
nos é dada através da grafia, dos símbolos utilizados, e ainda ´por
esse meio poderemos identificar qual seria o Caboclo, ou o Preto Velho
ou qualquer Entidade de Luz manifestada no médium.

    Os Pontos Riscados são extensos códigos registrados, firmados e
sediados no plano espiritual, e cada um deles tem sua função
específica.

    Normalmente somente os Pais de Santos, realmente preparados, ou a
Entidade firmada que sabem identificar com certeza e segurança, qual a
Entidade de Luz riscou o ponto, da mesma forma em dizer com segurança
qual Falangeiro de Orixá está na incorporação no momento a trabalho da
caridade.

    Através do Ponto Riscado se pode dizer e confirmar a identificação
da Falange da Entidade, também seus poderes e suas atividades.

    Cada linha e traço tem seu significado e muita importância no
Ponto Riscado pela Entidade, portanto não se pode ser riscado por
alguém  não preparado, sem conhecimento devido, ou por alguém que não
seja a Entidade de Luz atuante. Caso não for dessa forma, o que será
feito não passará de apenas riscos e rabiscos, sem a menor
importância para as regras da Religião de Umbanda, a segurança de
suas Giras, e a demonstração de suas Entidades.

    Conforme dito acima, os Pontos Riscados são traçados pelas Pembas,
e essas Pembas são uma espécie de giz, elas são confeccionadas com
calcário, ela tem uma forma cônica arredondada e diversas cores.

    A Pemba é dita dentro da Umbanda que é um elemento puro, e ´por
essa pureza é um dos poucos elementos que pode tocar na cabeça do
médium, sendo ela utilizada para as lavagens de cabeça, assim como
também em banhos de descarrego entre outras coisas.



    Abaixo vamos deixar alguns exemplos de Pontos ou Representações
dos Orixás na Umbanda.


- OXALÁ: Tudo que representa a presença de Luz. (Sol, por exemplo).

- OGUM: A espada, a lança, a bandeira usada pelos cavaleiros, vários
instrumentos de combate.

- XANGÔ: O machado.

- OXUM: A lua, o coração, etc.

- IANSÃ: A taça e o raio.

- Ibeijada: Carrinhos, pirulitos, brinquedos em geral, bonecos e
palhaços, etc.

- IEMANJÁ: A estrela, a âncora, as ondas, etc.

- OXOSSI: A flecha e o arco.

- NANÃ: O Íbíri (um feixe de ramos de folha de palmeira com a ponta
curvada e enfeitado com búzios) ou chave.

- OBALUAIÊ/Omulú: O cruzeiro das almas.



    Também temos outros significados dos Pontos Riscados, assim como
descrevo abaixo:

- Um Ponto: o Ser Supremo, a origem.

- Uma Linha Reta: o Mundo Material.

- Duas Linhas Retas: o Princípio de tudo , o Masculino e o Feminino.

- Uma Linha Curva: a Polaridade.

- Dois Traços Curvos: as duas polaridades - positiva e negativa.

- Um Triângulo de Lados Iguais: a Força Divina - Pai, Filho e Espírito
Santo - Santíssima Trindade.

- Dois Triângulos (Hexagrama): Estrela de seis pontas - todas as
Forças do Espaço.

- Um Quadrado: os 4 elementos (Água, Terra, Fogo e Ar).

- Um Pentagrama: a Estrela de Davi e o Signo de Salomão - a Linha do
Oriente, Oxalá, a Luz de Deus.

- Três estrelas: também podem representar os Velhos e as Almas.

- Círculo: o Universo, a Perfeição.

- Um Círculo com Dois Diâmetros Entre Si: o Plano Divino, o
Quaternário Espiritual.

- Círculos Menores e Semicírculos: as fases da lua (símbolo de
Iemanjá), forças de luz, inclui Iansã.

- Círculo com Estrias Externas: o sol (símbolo de Oxalá).

- Espiral - para fora: indica chamamento de força, retirando demanda
ou irradiação de Boiadeiro.

Seta Reta ou Curva e Bodoque: - irradiação de Oxossi (caboclo).

- Balança, Machado ou Nuvem: símbolos de Xangô e do Oriente.

- Raio (condições atmosféricas): símbolo de Iansã.

- Espada Curva reta ou inclinada: símbolo de Ogum.
Também é símbolo de Ogum a Bandeira Branca com Cruz Grega Vermelha .

- Flor ou Coração: símbolos de Oxum.

- Coração com uma Cruz no Interior: símbolo de Nanã.
Também é símbolo de Nanã os Traços Pequenos na Vertical (chuva).

- Folhas ou Plantas: símbolos de Oxossi ou Pretos velhos.

- Tridentes: símbolos para Exú e Pombo Gira. Se utilizam garfos curvos
para a Calunga, e garfos retos para a Rua, (Pode haver ou não
caveira). Também se utiliza para diferenciar entre o masculino do
feminino da seguinte forma, tridentes curvos para determinação do
feminino e retos para o masculino.

- Cruz Latina Branca: Cruz de Oxalá.

- Cruz Grega Negra com pedestal: símbolo de Omulú.

- Arco-íris: símbolo de Oxumaré.

- Estrela Branca (Oriente): Luz dos espíritos.

- Estrela Guia (com cauda): símbolo da capacidade de acompanhamento
(Oriente).

- Um Oito Deitado (Lemniscata): símbolo do Infinito.

- Cordão com Nó ou um Pano: símbolo das crianças.

- Conchas do Mar: símbolo das crianças na irradiação de Iemanjá, ,
Oxum e Nanã.

- Águas Embaixo do Ponto: símbolo de Iemanjá (mar).

- Pequenos Traços de água: símbolo de Oxum.

- Traço ou Linha Curva com Círculo nas Pontas: símbolo de força, e
descarregos.

- Rosa dos Ventos: chamada de força ou descarrego.

- Palmeiras ou Coqueiros: força dos Velhos ou Baianos.

- Traço com Três Semicírculos nas Pontas: descarrego e força  a
necessitados

Traço com uma entrada e duas saídas (como uma letra Y): Símbolo de
Preto Velho, provavelmente um mentor da coroa de um médium,
demonstrando que caminhos tem opções para a evolução.


    Esses exemplos não devem ser levados a uma determinação de que
tenhamos o entendimento concreto em relação as identificações,
avisos, falangeiros, linha ou trabalho de uma determinada Entidade de
Luz, isso deve ser feito apenas por pessoas preparadas, no caso um Pai
de Santo, ou pelas próprias Entidades de Luz. Esses exemplos dados
acima foi um pequeno estudo, e nesse caso só serve apenas para
ilustrar nosso texto, não sendo assim determinante para que ninguém
que não seja qualificado e preparado fique tentando decifrar os
"códigos" dos Pontos Riscados de nossas queridas Entidades de Luz.

    A melhor coisa a se fazer quando estamos curiosos sobre um
determinado traço ou símbolo de um Ponto Riscado, não é tentar
adivinhações, e sim indagar com a Entidade em questão o significado de
que ela está querendo nos demonstrar.


    Só gostaria de deixar bem frisado para finalizar que é através do
ponto riscado que os guias contam toda sua história, sua origem e
passagem do mundo material e astral.

    Uma das grandes provas de incorporação na Umbanda é o ponto riscado,
com toda a certeza  que se um médium não estiver realmente bem
incorporado ele não saberá riscar o ponto que identificaria com
segurança a origem, o nome, a linha e tudo mais relacionado a Entidade
que esse médium estava disposto a demonstrar a seus consulentes.

    Portanto a honestidade é essencial num trabalho de caridade dentro
da Religião de Umbanda, na demonstração dos Pontos Riscados, para que
assim as pessoas que estão em busca de ajuda não sofram nas mãos de
espíritos sem luz, que possam estar tentando se passar por uma
Entidade de Luz, ou mesmo o médium não passe vergonha em meio a seus
companheiros, caso o Pai de Santo seja bem preparado, e venha anunciar
que o médium em questão está apenas fazendo riscos e rabiscos sem
noção e sem nexo, não deixando que a Entidade de Luz se aproxime e
descreva, através de seu Ponto Riscado, quem ela é, de qual linha
pertence, e todas as outras informações ´preciosas que o Ponto Riscado
possa nos fornecer.

    Então vamos ser honestos com nossas Entidades de Luz, com nossos
consulentes, com nossa Umbanda Sagrada e principalmente conosco.

    Saravá Umbanda, salve todos os Pontos Riscados.

Carlos de Ogum.













terça-feira, 5 de agosto de 2014 87 comentários

A HISTÓRIA DE PAI ANTERO.











    A História de Pai Antero.

Saravá o Pai Antero!

"Pedi licença Mamãe Oxum, pedi licença para Pai Oxalá, pedi licença ao
Senhor do Bomfim para Pai Antero vir trabalhar.

    Quem vem lá, é de lá, quem vai chegar e encontrar, é um boiadeiro
bondoso, é Pai Antero que vem saravar."

    Vamos fazer um resumo da história dessa grande Entidade de Luz
chamado de Pai Antero, frisando que estaremos falando do Pai Antero
da Encruzilhada, no qual é uma Entidade que tenho o prazer imenso de
poder trabalhar em prol da caridade.

    Pai Antero é um Preto Velho que faz sua caridade nos terreiros de
Umbanda, uma Entidade de poucas palavras, muito sensato, de fala
pausada e pensamentos rápidos.

    Ele tem uma característica diferenciada da maioria dos Pretos
Velhos, que é ficar ereto, enquanto a maioria de nossos Vovozinhos
chegam bem curvados.

    Pai Antero tem uma ligação grandiosa com o Povo da Esquerda, no
quais estão sempre a trabalho da caridade por intermédio desse grande
Preto Velho.

    Ele em sua vida terrena foi condutor de boiadas nas fazendas
pecuaristas e cafeeiras entre a região sudeste e sul do Brasil.

    Filho de negros escravizados, traficados da África, ele nasceu no
Brasil, dentro de uma senzala da fazenda na qual viveu toda sua vida.

    Na infância já demonstrando um dom especial junto aos animais,
logo foi conduzido pelos boiadeiros da fazenda a trabalhar junto a
grandes boiadas.

    O dom referido de nosso Pai Antero, era conseguir entender os
animais, fazendo assim que mesmo o mais feroz animal, ficasse dócil e
se deixasse conduzir pelo nosso incrível Antero.

    Por várias oportunidades ele teve que demonstrar esse dom, sendo
com touros indomáveis, sendo com serpentes venenosas e traiçoeiras ou
sendo com qualquer animal que por ora atacava os trabalhadores da
fazenda.

    Ele com apenas o olhar amansava o animal, e por outras vezes com o
toque de suas mãos faziam esses ferozes animais até adormecerem.

    E isso deixava todos da fazenda e arredores perplexos, fazendo
assim ser conhecido por muitas e muitas regiões, levando a muitos
fazendeiros oferecerem altos valores na compra como escravo, que não
acontecia pois o fazendeiro cafeeiro e pecuarista que se vangloriava
ser dono do negro Antero, dizia que poderia alugar seu escravo, mas
vender nunca. Fazendo assim uma grande corrida dos fazendeiros dos
arredores para a tentativa de alugar o negro por alguns dias, para que
assim pudessem, não só se utilizar dos serviços dele como boiadeiro
eficaz, mas também poderem observar o uso do seu dom.

    E numa dessas idas e vindas a uma dessas fazendas da região, foi
que aconteceu a grande e triste história de Antero.

    Um fazendeiro muito rico, com grandiosas boiadas sabendo da fama
de Antero, foi ao encontro dele e o alugou para que ele pudesse domar
alguns touros extremamente violentos.

    Ele foi para a fazenda, ficou em seu trabalho por alguns dias, e
encantou a todos com sua nobreza no que se diz domesticar animais.

    Esse fazendeiro, homem de pulso fraco, que só colocava seu nome
nos fatos da fazenda, pois quem dava todas as ordens e coordenadas
era a sua esposa, uma sinhá ainda jovem e bonita, mas extremamente
maléfica com todos que a rodeavam.

    Ela não tinha a mínima dó dos seres escravizados, dos feitores e
capatazes da fazenda, do seu marido e nem dos filhos. Por qualquer
motivo, até mesmo por um escravo a olhasse, esse escravo já ia para o
tronco, e lá levava chibatadas até que ela resolvesse que deveria
sair. E isso levava horas e horas, até dias.

    Essa sinhá, ao observar Antero em seu trabalho ficou encantada.
Achara que aquilo era mágico, um poder que nunca imaginara que pudesse
conhecer.

    E maior foi o seu encantamento pelo grande negro boiadeiro, quando
uma vez grávida, prestes a dar a luz, sentindo grandiosas dores sem
que um grupo de parteiras da fazenda conseguissem dar prosseguimento
ao nascimento da criança, teve a ajuda de Antero, após ele saber do
que estava ocorrendo dentro da casa grande, e pedir humildemente a
autorização para ajudar a sanar as dores e uma possível perda da
criança, pois as parteiras que já tinham feito de tudo para realização
do parto, já estavam a espera do pior, que seria do desencarne da
sinhá e de seu pequeno ser, que teimava em não nascer.

    A sinhá, em momentos de desespero e agonia, então autorizou a
entrada do negro Antero, pois para ela seria a ultima oportunidade,
sabendo-se que seu marido não chegaria a tempo para poder a conduzir
ao arraial mais próximo para ir ao encontro de um doutor médico, pois
estava nas andanças e negociatas de terras em outra região.

    Antero, olhava fixamente para a sinhá, como se estivesse em um
transe, colocando suas mãos sobre o ventre dela, fazendo uma oração de
apelo aos Orixás, que a luz de todos eles caíssem sobre aquele corpo,
e a fizessem ter forças para aguentar os instantes finais do parto.

    As dores foram se acalentando, uma calmaria se estabeleceu nos
olhos da sinhá, que ao se relaxar, deu a oportunidade da criança vir
ao mundo.

    Com todo esse fato, naturalmente Antero ficou muito mais visível
aos olhos da sinhá, que em todas as oportunidades o trazia para os
trabalhos com relação aos animais da fazenda.

    O tempo foi passando, e com as demonstrações do dom de Antero por
muitas e muitas ocasiões diante o domínio que tinha nos animais, desde
o mais manso até o mais indomável, a sinhá determinou a si própria que
queria dominar o poderoso negro que tinha tal poder.

    E por isso decidiu que queria o escravo nas suas mais entimas
intenções de mulher. Não pelo prazer carnal, mas pelo prazer de
conduzir um desejo sobre um ser que tinha um dom imaginável.

    E assim foi feito, ela com seu poder de senhora da fazenda, com
seu ar de prepotência e superioridade, querendo demonstrar que ela
poderia ter mais poder do que qualquer um naquela fazenda, se deitou
com o negro escravizado.

    Só que ela não esperava que poderia engravidar, mas assim
aconteceu. Nascendo uma menina mestiça, fazendo que todos descobrissem
seu deslize.

    Ela com sua prepotência, seu poder de conduzir e dominar todas as
situações, conseguiu fazer com que o marido, já um tanto adoentado,
aceitasse tal fato.

    A menina foi crescendo, e se tornando a cópia da sinhá em relação
as intenções de maltratar as pessoas, inclusive aos escravos.

    Antero após mais umas vindas na fazenda para fazer seu trabalho de
doma, acabou por saber da criança mestiça, E logo concluiu que era sua
filha com a sinhá.

    Por muitas vezes ele tentou se aproximar, sem ter a mínima chance,
pois a sinhá tinha dado ordens expressas de nunca deixarem que ele
chegasse a falar com a menina mestiça.

    E ao retorno a sua fazenda de origem, ele passava dias e noites
pensando na pequena menina, querendo ao menos uma vez poder abraçá-la,
mesmo sem nunca dizer a verdadeira origem dela.

    Em uma determinada ocasião, Antero novamente foste alugado para a
realização de trabalhos de doma dos animais da fazenda na qual sua
filha com a sinhá crescia. E nisso ficou sabendo que a menina mestiça,
já com seus 10 anos de idade, era influenciada por sua mãe, a sinhá
que gostara de mostrar sua força e seu poder mandando açoitar os
negros escravizados, a fazer exatamente igual.

    A pequena mestiça fazia da maneira ensinada pela sinhá, a
maltratar os negros, a insultar os irmãos e  deixar desnorteado o
homem que estaria no lugar de seu pai, com palavras agressivas,
sempre com o aval da sinhá.

    Antero sabendo de todos esses fatos em suas idas e vindas a
fazenda, decidiu que deveria alertar a filha, que esse caminho
ensinado pela sinhá, era algo errado, que não poderia agir da maneira
que a levaria contra as leis de Zambi (Deus), de Pai Oxalá e de todos
os Orixás.

    E assim ele tentou, chegando junto a filha mestiça, sem falar que
era seu pai, disse-lhe sobre as coisas feitas por ela, que os caminhos
eram errôneos, que deveria tentar modificar esse modo de desejar
demonstrar poder, um poder que só existia na mente da sinhá, sua mãe.

    A menina, sem compreender os ensinamentos de Antero, e induzida
pela sinhá, não aceitou que um negro lhe falasse tudo aquilo, achando
que ele a tivesse faltado com respeito, mandou que os capatazes o
levassem ao feitor da fazenda, mandando açoitálo.

    Isso aconteceu pelo restante da tarde e por toda a noite, deixando
o negro Antero deveras muito machucado fisicamente, mas nenhuma dor
física foi tão intensa e tão grandiosa quanto a dor de saber que
estava ali, no tronco sendo açoitado a mando de sua filha mestiça.

    A partir desse dia Antero não mais voltou a fazenda, ficando
voltado a seus afazeres, suas orações e seus desabafos com os amigos
Benedito, e Pai José, juntamente com a sua orientadora e madrinha, a
velha e experiente negra Joaquina, que o elevava a fazer o bem a todos
que precisavam de seu dom e de sua fé demonstrada na forma de orações
e benzeduras.

    Isso durou até Antero ficar sabendo dos acontecimentos trágicos
ocorridos na fazenda vizinha. Acontecimento esse que faria com que
nosso grande guerreiro ficasse ainda mais abalado por estar distante
da sua filha mestiça.

    Em uma certa tarde de primavera, a menina mestiça andava por entre
as flores da fazenda, quando ouve um estouro por entre a boiada, que
era tocada por um dos negros da fazenda. Sendo praticamente impossível
manter a ordem entre a boiada, coisa que Antero fazia apenas com o
olhar e usando o seu dom de domínio sobre os animais, quando ocorria
essas situações, mas como ele não estava ali toda a manada ficou
desgarrada e desorientada, partindo para cima da menina mestiça com
toda a violência.

    E assim após a poeira baixar, se pôde ver os olhos assustados  dos negros,
feitores e capatazes fintando o corpo inerte da pequena sinhá mestiça
deitado ao chão e pisoteado pela boiada desgarrada que acabara de
passar por ali sem destino.

    A sinhá, mãe da mestiça, jogando-se ao chão empoeirado da fazenda,
aos gritos de lamentação, não acreditava no ocorrido, ficando a partir
desse dia com um retardo mental nunca mais solucionado.

    Antero por sua vez, culpando-se por não estar no momento crucial
na fazenda, tinha uma dor enorme dentro do peito, a dor de saber que
poderia ter salvo a sua filha da morte, sabia que seu dom era crucial
para modificar a história final da pequena  filha mestiça.

    Com isso ele se fechou em si próprio, já não mais procurava os
amigos para seus desabafos, já não buscava forças para continuar sua
caminhada, já não mais desejaria ter seu dom.

    E foi nesse ponto de desesperança que o velho Antero, negro
escravizado e boiadeiro, teve a benção cedida por Zambi e levada pela
luz de um outro negro, que tinha como missão levar esperanças a seus
irmãos negros. E foi o Preto Velho Rei Congo, já como Entidade, que
leva ao encontro de Antero, o espírito de sua filha mestiça.

    Isso acontece em uma noite bem iluminada pela lua cheia, de céu
estrelado e brisa leve. Dentro de sua choupana, Antero pensativo e sem
motivos para sorrir, tem uma visão com a imagem do Preto Velho Rei
Congo, que lhe diz:

"Irmão Antero, sua missão não acabou. Você terá uma longa jornada de
caridade. E para que você prossiga nessa caminhada, será preciso que
você perdoe e se deixe perdoar por alguém."

    Antero se levanta indo ao encontro do protetor dos negros,
ajoelha-se e com os olhos mareados, já sabendo o que estaria por vir
naquele momento, agradece a oportunidade que estava recebendo.

    E diante de seus olhos aparece a imagem de sua filha mestiça, que
com um largo sorriso e lágrimas a escorrer pela face, estende as mãos
a ele, pedindo perdão por tê-lo feito sofrer tanto. Ela se ajoelha e
chorando se desculpa pelo dia que mandou levá-lo ao tronco, e que a
cada chibatada que ele recebera, ela deveria pagar em dobro.

    Antero então abraça a filha pela primeira vez, e diz a ela que a
perdoara por tudo, mas precisaria do perdão dela por não ter estado no
momento de seu desencarne, achando ele que com seu domínio sobre os
animais ela poderia ter maiores chances de sair ilesa do ocorrido.

    A menina sorri para ele e diz:

"Se é disso que precisa para continuar vossa caminhada rumo a luz e a
caridade. Eu perdoou o senhor, meu Pai."

    E assim ela se despediu, voltando ao caminho que deveria seguir
rumo a evolução.

    Antes de partir, Rei Congo diz a Antero:

"Meu filho, agora volte a suas orações, espalhe a caridade, trabalhe
para o bem de seu semelhante. E guarde com você esse cajado."

    E então Rei Congo ´dá um cajado de madeira a Antero, cajado esse
que foi preparado para trabalhos espirituais, nele poderia se
encontrar toda a força da caridade, da fé e do dom de Antero. Cajado
no qual ele deveria usar sempre para o bem, sempre para ajudar a quem
necessitava,, nos momentos mais difíceis que pudesse passar, nas
desobsessões e descarregos mais complexos, pois nesse cajado além de
estar toda o dom dele, estaria também toda a força dos Orixás, toda as
forças das Almas Benditas e todas as forças do povo da encruza.

    Antero viveu na fazenda até seu desencarne, ocorrido quando com
seus 70 anos, dentro dos currais de adestramentos de cavalos baios,
enquanto ensinava aos novos negros a arte de montar e dominar os
animais. Ele sentado, de olhar sério, ao lado da grande porteira,
simplesmente fecha os olhos e parte para uma nova jornada de
evolução, só que dessa vez, a evolução espiritual sendo uma Entidade
de Luz.

    Com seu olhar sério, poucos sorrisos, fala mansa, pausada ele é um
dos mais respeitados Pretos Velhos da linha da Encruzilhada. Pai
Antero da Encruza, trabalha hoje firmemente nos terreiros de Umbanda,
levando ensinamentos, luz, abrindo caminhos, encaminhando espíritos
sem luz, descarregando e desobsediando os filhos que procuram por ele.

"Pai Antero Negro Boiadeiro, Lá Do Grande Sertão, Ele É Bravo
Guerreiro, Sempre Me Estendendo A Mão."

Palavras De Pai Antero: "Seja Persistente Em Suas Metas, Não Deprima
Pela Não Realização, Tudo Tem Sua Hora E Momento."

    Saravá Meu Pai Antero da Encruza.

    A sua Benção!


Carlos de Ogum.










segunda-feira, 28 de julho de 2014 91 comentários

Seu Zé Pilintra e Sua História



    Senhor Zé Pilintra, é uma das mais conhecidas Entidades dentro da
Umbanda. Muitas pessoas tem um grande afeto a ele, pelo seu jeito
"malandro" de ser e de seu imenso carisma, fazendo com que os
consulentes dessa Entidade se tornem amigos fiéis.

    Guia espiritual de personalidade controvertida, personifica a
malandragem e a astúcia adquirida das adversidades da sobrevivência
nas ruas, mas suas práticas estão voltadas para a caridade, a
assistência espiritual e material.

    Das manifestações de Zé Pilintra percebe-se a enorme adaptação
cultural a cada região, rompendo todas as barreiras para disseminar a
sua força espiritual em ajudar os necessitados com sua experiência
através de seus sábios conselhos.

    Contam as lendas que Zé Pilintra era José Amadeu da Silva,
Pernambucano, mulato quase negro e pobre, mulherengo e festeiro,
mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se tornou um famoso boêmio no
meio da malandragem do bairro da Lapa.

    Mas para entendimento vamos descrever a história de Senhor José
Pilintra da estrada da Lapa., que é a Entidade da mesma linha dos
"Malandros", vamos mostrar de onde ele veio, como virou essa Entidade
tão maravilhosa, como trabalhou tanto pela caridade em vida e porque
temos diversas Entidades que levam o nome de "Zé Pilintra", assim como
o personagem de nossa história.

    A história de Zé Pilintra da Estrada da Lapa, tem diversas
passagens na Cidade do Rio de Janeiro, no início do século XX, na
época em que os negros que por décadas haviam sendo escravizados, e
agora em liberdade, na verdade uma falsa liberdade, tentavam
sobreviver ao julgo, a falta de trabalho, a má alimentação e as
doenças que tanto afligiram os ex escravos.

    Mas vamos voltar um pouco ao tempo para vermos como Senhor Zé
Pilintra chegou ao Rio de Janeiro.

    Seu Zé era natural do Estado de Pernambuco. Filho de uma Ex
escrava negra e um feitor de cor branca, portanto ele tinha a pele não
negra como a mãe, mas também não branca como o pai, fazendo assim dele
um mulato escuro que por vezes e vezes sofria o ódio da enorme classe
de brancos.

    Batizado de José Amadeu da Silva em sua vida terrena, esse foi o
nome que usou até meados do ano de 1902, quando fez parte dos grupos
que auxiliavam a grande massa de negros nos tratamentos contra as
doenças que se lastrava intensamente dentro dos morros que foram
ocupados por eles.

    Esses negros foram obrigados a se bandear para o alto desses
morros, pois com o fim do período escravocrata, no século XIX, sem
posses de terras e sem opção de trabalho nos campos, esses grupos se
deslocaram para o Rio de Janeiro em busca de uma tentativa de
sobrevivência, fazendo assim um aumento desproporcional de pessoas na
então Capital Federal. A elite e administradores da cidade desejando
apagar de suas lembranças aquele povoado de negros e aquela cidade com
vestígios da era colonial, mandaram demolir todos os cortiços fazendo
assim os negros saírem e irem morar nos morros, longe da grande elite
de brancos.

    Sendo esses lugares sem a menor condição de se viver, as doenças
se alastraram, e sem auxilio da elite os negros morriam sem a chance
de cura.

    Voltando agora ao nosso foco que é Senhor Zé Pilintra, um pouco
antes desses acontecimentos, ele já tomado da decisão de partir de
Pernambuco, seguiu em viagem sem destino pelo país.

    E a cada parada, a cada região, ele buscava novos conhecimentos,
sendo em áreas comuns como a agricultura até em áreas específicas como
cuidar de uma pessoa com alguma moléstia.

    E foi assim que aprendeu o oficio de cura em moléstias, por volta
do final do século XIX, José Amadeu, com sua conversa amigável, com
seu carisma e com sua vontade de aprender, ficou em companhia de um
velho sacristão, que tinha como missão sanar as dores das pessoas que
buscava ajuda em sua paróquia, e nesse período em companhia ao
sacristão, José Amadeu aprendeu que ele precisava ajudar a quem
necessitava, mas precisava fazer muito mais do que já fazia.

    E assim ele decidiu partir.

    Após dezenas de dias em viagem, ele chega ao Rio de Janeiro.

    Observando a situação dos negros, que morriam sem auxilio, decidiu
que era ali que teria que ficar para cumprir sua missão.

    Começou acompanhar o dia a dia dos médicos da elite, observava
tudo, onde conseguiria medicamentos, com quem conseguiria, como esses
médicos se vestiam e como falavam.

    Assim ele permaneceu junto com os negros, tentando sanar as dores
de cada um, tentando salvar a vida de crianças que sofriam
intensamente com várias pestes.

    Começou a perambular pela cidade, conheceu pessoas e chegou na
Lapa, bairro boêmio do Rio de Janeiro, e lá que conseguiu seu grande
feito, juntar pessoas brancas e mulatas que abraçaram as causas na
qual ele lutava.

    E assim começou um grande grupo de homens e mulheres, que faziam
da luta de manter o povo do morro saudável, mesmo contra a vontade dos
poderosos da elite e dos administradores da cidade.

    E foi esses poderosos que começaram a fechar as entradas para esse
morro, colocando a força policial de guarda para que ninguém pudesse
subir ou descer, fazendo assim com que os negros não tivessem o
direito de se misturarem com a tal classe de elite.

    Foi também proibida a busca na parte baixa da cidade por
medicamentos e alimentos, fazendo que os negros se revoltassem, e
tentassem descer em busca dessas coisas para o povo. E ao descerem,
revoltosos, eram presos e assassinados.

    Foi por esse motivo que Zé Pilintra e todo seu grupo de amigos e
amigas da boemia, se encontravam as noites nas imediações do bairro da
Lapa, com intuito de planejarem medidas de ajudarem ao povo dos
morros.

    Ficando acertado que não usariam a força, mas sim a conversa e
jogos de palavras juntamente com a malícia da malandragem que
aprenderam nas ruas e o sorriso sempre aberto e cativante.

    E assim era feito, no meio de conversas e sorrisos, demonstração
de amizade por parte dos rapazes com os policiais responsáveis por
tomarem conta das entradas dos morros, assim como das moças que com
grandes atuações, se fingiam de encantadas pela força e farda desses
policiais, iludindo-os com olhares e sorrisos, enquanto Zé Pilintra e
outros Malandros passavam a surdina levando todos os tipos de
materiais e alimentos para os negros no alto dos morros escuros.

    Eles passaram a andar com a tradicional vestimenta branca, terno,
gravata encarnada para que assim não fossem confundidos com os
policiais, que durante as noites subiam os morros, ora para eliminar
algum negro, ora para tentarem levar as grades os "Malandros" que
tanto lutavam, sobre o comando de Zé Pilintra, para tentar auxiliar o
povo tão sofrido dos morros.

    Senhor Zé Pilintra, com essa ginga de malandro boêmio, com o
carisma de amigo de todos, com a sabedoria que adquiriu pelas andanças
que fazia, com a infinita bondade de tentar ajudar a quem necessitava,
ao fazer sua passagem foi feito como Entidade pelo Pai Maior, para que
assim pudesse continuar seu lindo e maravilhoso trabalho de caridade
dentro dos terreiros e centros Umbandistas, como continua a fazer até
os dias de hoje.

    Poderemos observar que dentro de vários terreiros encontraremos
médiuns incorporados com a Entidade Zé Pilintra, as vezes até mais de
um no mesmo terreiro e na mesma hora.

    A explicação disso é que, sendo Zé Amadeu da Silva um grande líder
dentre todo os grupos de amigos da boemia, ele foi adorado por muitos,
que seguiram o seus passos, e como ele, José Amadeu, o Zé Pilintra,
era extremamente respeitado e até temido por muitas regiões, esses que
seguiam seus passos, se apresentavam como Zé Pilintra, para assim
conquistarem o respeito, e fazer disso a porta de entrada para a luta
em prol da caridade.

    E tudo isso começou com José Amadeu da Silva, Pernambucano
arretado, boêmio sorridente, amigo dos amigos, mulato/negro que tinha
orgulho de sua cor, amava suas raízes, lutava pelos irmãos menos
favorecidos.


Hoje Na Lei De Umbanda Acredito No Senhor Pois Sou Seu Filho De Fé
Pois Tem Fama De Doutor.

Lá No Morro Era Rei, E Na Lapa Respeitado. Hoje Numa Linha De
Umbanda, Zé Pilintra É Louvado.

Salve Meu Camarada, Compadre, Amigo, Pai, Baiano, Malandro, Zé
Pilintra Da Estrada da Lapa!

Proteção meu compadre Zé.

Saravá!!!!





Carlos de Ogum

 
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